João Pinheiro Neto: a semente e a palavra no Brasil que ousou querer reforma
João Pinheiro Neto: a semente e a palavra no Brasil que ousou querer reforma
Reformista, advogado da justiça social, político de ideias firmes, intelectual público. João Pinheiro Neto foi um homem que pensou o Brasil com rigor e com amor.

* Paulo Baía
Alguns nomes resistem ao tempo. Persistem como faróis acesos na penumbra de uma história tantas vezes esquecida. João Pinheiro Neto é um desses nomes. Reformista, advogado da justiça social, político de ideias firmes, intelectual público. Um homem que pensou o Brasil com rigor e com amor. Sua trajetória atravessa os bastidores do governo Juscelino Kubitschek, chega ao centro do projeto de reformas de base com João Goulart e enfrenta o peso da repressão após o golpe de 1964. Quase duas décadas depois de sua morte, a sua história se refaz, viva, no documentário Terra Revolta: João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, dirigido por Bárbara Goulart e Caio Bortolotti, com narração de Paulo Betti e produção de seu filho, o economista Henrique Pinheiro. Um filme que é tributo e é denúncia, é reencontro e é justiça, é poesia e é memória.
Nascido em Roma, em 1928, neto de governador, filho de deputado, formado em Direito em Belo Horizonte, João Pinheiro Neto não foi herdeiro de poder, mas de uma responsabilidade. Tornou-se assessor de Juscelino Kubitschek, participou do projeto de construção nacional que Brasília simbolizou e que a reforma social prometia consolidar. Em 1962, ministro do Trabalho de João Goulart, ousou criticar o FMI, denunciar a dependência e propor justiça. Caiu do cargo. Mas não caiu da luta. Logo depois, em 1963, assumiu a presidência da SUPRA, a Superintendência da Política Agrária, e foi o rosto mais visível e decidido da reforma agrária no Brasil.
Seu projeto era técnico, viável, justo. Um redesenho da terra para redesenhar o país. Mas a elite agrária, os generais, o capital estrangeiro e a covardia institucional disseram não. Em 1964, veio o golpe. No AI-1, o nome de João Pinheiro Neto estava impresso ao lado de João Goulart, Samuel Wainer, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Luiz Carlos Prestes, Rubens Paiva, Waldyr Pires. Cassado. Silenciado. Expulso da vida pública.
Mas não da vida. Voltou ao jornalismo. Escreveu para Última Hora, Manchete, Correio da Manhã. Com sua pena, cavou trincheiras de palavras. Com sua voz, iluminou o rádio. Foi debatedor do Debates Populares, no Programa Haroldo de Andrade, na Rádio Globo, durante os anos 1970 e 1980. Discutia com firmeza, clareza e coragem temas como a desigualdade, a educação, a reforma agrária, o papel do Estado. Ali, falava com o povo e por ele. Sua palavra era como pá e como semente.
João Pinheiro Neto foi um intelectual público no sentido mais alto do termo. Tinha o pensamento voltado para o coletivo e para o concreto. Sabia que reformar a terra era reformar o país. Sabia que o Brasil não era só geografia. Era também injustiça. Era dívida. Era urgência. E soube viver com coerência até o fim.
Agora, sua história renasce em forma de cinema. Terra Revolta: João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária é mais que um documentário. É um gesto político. É a memória que ressurge com dignidade. Com direção de Bárbara Goulart, neta de Jango, e Caio Bortolotti, o filme traz depoimentos de Maria Thereza Goulart, Almino Affonso, historiadores do CPDOC-FGV. Traz também cartas, fotos, discursos, arquivos esquecidos. O que estava nas gavetas agora está na tela. Com produção de Henrique Pinheiro, o filme é também um reencontro de gerações. O filho que honra o pai. O Brasil que encontra seus heróis silenciosos.
Henrique não parou no cinema. Escreve a fotobiografia Os amigos (e os inimigos) de meu pai. Um livro que cruza o destino de João Pinheiro Neto com o de Samuel Wainer. O jornalista que fundou a Última Hora. Amigo de Getúlio, JK e Jango. Wainer entrevistou Vargas em 1949 e ajudou a erguer o queremismo. Resistiu, exilou-se, morreu em 1980. No acervo de seu pai, Henrique encontrou retratos, cartas, testemunhos dessa amizade. Encontrou também uma cópia do AI-1. Manchado pelo carimbo do silêncio.
Contar essa história é contar o Brasil que tentou nascer e foi sufocado. É lembrar que a reforma agrária continua inacabada. É dizer que a memória é ferramenta de luta. Que a história oficial não é a única. Que há nomes que persistem. Que João Pinheiro Neto é um deles. Porque sua palavra não se apagou. Virou cinema. Virou livro. Virou país possível.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ


