“O inquérito da morte de meu pai nunca foi encerrado”
“O inquérito da morte de meu pai nunca foi encerrado”
João Vicente Goulart aponta novos indícios de assassinato

Autor
Alex Solnik é colunista do Brasil 247 e comentarista na TV 247, é jornalista e escritor. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos"

João GoulartCrédito: Agência Brasil
Nessa entrevista exclusiva ao programa “Cessar-fogo”, que irá ao ar na próxima sexta-feira, 17, às 21h00, na TV 247, João Vicente Goulart afirma que os indícios de assassinato de seu pai, o ex-presidente João Goulart, pela ditadura militar, não foram analisados com rigor até hoje. Ele menciona um relatório secreto em que um certo Agente B informa ter vasculhado o quarto onde Jango dormia. E um telegrama do secretário de Estado Henry Kissinger ao embaixador americano no Uruguai. Ele soube que haveria uma reunião entre o serviço secreto do Uruguai e o SNI do Brasil, e instruiu diretamente o embaixador Ernst Victor Siracusa: “não se meta nas operações que estão sendo feitas pelo exército uruguaio”.
EU: Eu gostaria de começar falando a respeito da participação de teu pai no segundo governo Getúlio Vargas.
JOÃO VICENTE GOULART: Bom, ele realmente teve assim uma trajetória política, vamos dizer, meteórica. Ele se formou cedo na Universidade do Rio Grande do Sul, e a amizade com o Getúlio provém do pai dele ou seja, do meu avô, que era o coronel Vicente, que era muito amigo, muito chegado do doutor Getúlio, e em certo momento naquela época o coronel Vicente, ainda vivo, pediu para o pequeno Jango, que tinha esse apelido desde criança, fazer uma homenagem ao Getúlio, num churrasco entre amigos. Ele fez um discurso muito bom e aí o Getúlio disse: “esse teu menino fala muito bem. Vamos levar ele para a política”. O coronel Vicente morreu em 44 ou 45, eu não estou bem lembrado, e meu pai virou um grande pecuarista lá da região de São Borja. Eram todos eles lá da terra, ou seja, vizinhos de casa e de lidas campeiras, vamos dizer assim. Quando o Getúlio cai, em 45, e vai para aquele exílio lá na fazenda do Itu, o pai é que dá assistência para ele, o pai já tinha um aviãozinho daqueles de lona e tal, e levava revistas para o Getúlio e daí se criou uma grande amizade entre os dois, e foi ali então que o Getúlio cria, em 1946, os dois partidos – PSD e PTB – e incumbe Jango e o tio Leonel para fazerem parte do recém-formado Partido Trabalhista Brasileiro e aí o pai se engaja nessa missão. Vem a primeira eleição lá no Rio Grande do Sul, no governo Dorneles, e ele e o Brizola se elegem deputados estaduais, aí os dois são constituintes de 46, e o Brizola assume a Secretaria de Obras do governo Dorneles e o pai na época assume a Secretaria do Trabalho e começa a ter uma trajetória política importante. Ele depois se torna presidente do PTB do Rio Grande do Sul, em 1950 se elege deputado federal, e participa do Queremismo, aquele movimento que preconizava a volta de Getúlio. Getúlio é eleito em 1950 e já em 52 nomeia o pai para o Ministério do Trabalho, onde ele se destaca muito, porque na época o Ministério do Trabalho era o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e ele o transforma numa verdadeira trincheira de luta dos trabalhadores. Jango até hoje é conhecido como o ministro dos trabalhadores, até porque, um pouco mais adiante, em 54, quando houve todo aquele drama em agosto de 54, com o presidente Getúlio, mas muito antes, o Jango propôs o aumento de 100% do salário mínimo, o que deu muita força para os sindicatos na época. O governo Dutra havia congelado o salário mínimo durante os anos em que Getúlio estava no exílio, entre 45 e 50, e, sem dúvida alguma, os salários tinham sido altamente achatados naquela época até pelo processo inflacionário que o Brasil já começava a ter. E aí, com esse aumento do salário mínimo, o sistema militar começa a se indispor com ele. E então surge o Manifesto dos Coronéis contra o ministro do Trabalho, que na época tinha 30 e poucos anos. Mas Getúlio, com aquela mansidão e inteligência política que tinha, não o demitiu. E Jango, sentindo a crise que se avizinhava, com Lacerda ocupando as tribunas do Congresso Nacional com discursos violentos contra as teses sociais na época, se dá conta de que Getúlio estava encurralado, e ele próprio apresenta uma carta de demissão irrevogável e sai do ministério, em fevereiro de 54, para não prejudicar ainda mais a pressão contra o presidente Getúlio. Getúlio não nomeia outro ministro, deixa o secretário executivo no posto e outorga os 100% de aumento em maio. Pressionados pela UDN de Lacerda, os militares investem contra Getúlio, exigem a sua renúncia, o crime da Rua Toneleros aumenta a crise, que dá na “República do Galeão”, e por fim no suicídio de Getúlio, cuja carta-testamento, que é o grande documento nacionalista do Brasil, todos os brasileiros deveriam ler para conhecer as mensagens que ali estão contidas. E o interessante daquele Manifesto dos Coronéis é que os que o assinaram vieram a ser os generais de 64 que derrubaram o pai. O primeiro coronel que assinou chamava-se Golbery do Couto e Silva.
EU: Antes disso, Golbery liderou, em 1956, um movimento para derrubar o presidente Juscelino Kubitschek, que foi assassinado em 1976 depois de sair de um hotel-fazenda frequentado por Golbery, e cujo dono foi um dos fundadores do SNI.
JOÃO: Naquele manifesto surge a tese de que o trabalhismo queria implantar a república sindicalista. Para construir essas relações com os sindicatos brasileiros, o pai esteve na Argentina, em 1953 ou em 54, para conhecer a CGT, quando conheceu o Perón, que o chamava de Janguito. Perón tinha boas relações com o presidente Getúlio. E passou a ter com o pai também. Como eu relato no meu livro “Jango e eu”, nós o encontramos, em 1972, em Madri, quando o Perón disse: “olha, Janguito, eu tô voltando pra Argentina, e tu vai conosco para lá”. Então, essa construção dele, de estar sempre ao lado dos trabalhadores, é o que lhe dá a força necessária para, em 55, na aliança que sempre houve com o PSD, construir a vitória de Juscelino, cuja eleição impediu as forças reacionárias de atuarem. Aqueles “5 anos em 5” foi o período no qual se começa a construir o nacional desenvolvimentismo do Brasil, com a industrialização que até hoje está completamente desfigurada, que é o grande problema nacional hoje em dia, reindustrializar o Brasil, e que o Brasil novamente possa ter a soberania econômica, a soberania de construir o seu desenvolvimento em benefício dos trabalhadores brasileiros, que hoje evidentemente estão sendo massacrados, não é? Com essa política do neoliberalismo e do rentismo aqui no Brasil.
EU: Teu pai foi eleito vice de JK, em 55, com mais votos que ele. Naquela época se votava para presidente separadamente do vice, eles inclusive podiam ser de partidos diferentes e tal, e o Jango teve 3,5 milhões de votos, e Juscelino, 3 milhões. Na eleição seguinte, ele foi reeleito como vice de Jânio Quadros, o que também a legislação eleitoral permitia. E depois de sofrer o golpe de Estado, em 1964, Jango se reencontrou com JK na Frente Ampla, em 1966. Eu entendo que a Frente Ampla foi o embrião da campanha das Diretas Já, de 1984. Como foi o encontro de Juscelino com Jango? Você tinha dez anos na época.
JOÃO: Bom, eu estava lá, me lembro, nós já estávamos no exílio, no Uruguai nessa época, quando o pai foi contatado pelo Renato Archer, que fazia os primeiros encontros entre Lacerda, Juscelino e Jango. Tanto é que Renato acompanhou Lacerda a Montevidéu quando se acertou definitivamente a Frente Ampla. Alguns dos nossos líderes, como o próprio Juscelino, como Ulisses Guimarães, embarcaram na teoria de que em 65 haveria eleições. E não houve eleições. Ao contrário, houve cassações, Juscelino foi cassado, Jango já era cassado, e Lacerda era o único líder, mesmo que da direita, que estava com os seus direitos políticos, ativos e funcionando. Então o que se pensou? E eu me lembro bem disso, dessa construção, quando começa a nascer a Frente Ampla, o Renato esteve lá em Montevidéu para falar com meu pai e evidentemente houve grandes debates em função disso. O próprio Brizola não queria e não quis a Frente Ampla, houve um distanciamento entre o Jango e o Brizola naquele momento, porque o Brizola entendia que receber Lacerda ia fazer o doutor Getúlio se remoer no túmulo, mas o pai entendia que não, que era uma opção política. O pai não resistiu ao golpe de 64 porque ele achava… achava não, dez anos depois nós viemos a saber que a 4ª Frota americana estava pronta para intervir se ele resistisse, o próprio Rio Grande do Sul não tinha como resistir… e ele entendia que a ditadura estava muito forte ainda em 66 e que a luta armada não ia dar certo porque ia jogar vários companheiros na luta armada e a luta armada iria exterminá-los.
EU: Brizola já defendia a luta armada nessa época?
JOÃO: Já, já defendia a luta armada, inclusive teve aquela construção de guerrilha… mas, enfim, não era por aí. O pai entendia que uma Frente Ampla, unindo setores democráticos a outros nem tanto, era o caminho, e o Lacerda tinha feito alguns discursos em cima disso, disse que se arrependeu por participar do golpe de 64, ele disse: “eu participei porque pensei que ia haver democracia, mas constatei que estão mudando de general em general e o Brasil não tem mais democracia”. E o Carlos Lacerda foi lá, o pai se encontrou com ele, depois com Juscelino, em Paris, e a Frente Ampla se construiu com meu pai argumentando o seguinte: “nós estamos lutando contra uma ditadura muito violenta com um revólverzinho 38… aí o Lacerda entra na trincheira e diz ‘vamos lutar junto, com uma metralhadora’… era a opção política que nos restava na época”. E ele inclusive disse ao Lacerda: “olha, vamos lutar juntos contra a ditadura, mas, se nós sairmos vitoriosos, nós vamos discutir as nossas diferenças”. E se fez um movimento com três grandes líderes que incomodou os militares e que gerou atos institucionais para acabar com ele. Lacerda e outros políticos, como Renato Archer, Mário Covas, jornalistas como Hermano Alves perderam seus direitos políticos. Uma portaria do general Costa e Silva determinou seu fim. E quem insistisse em participar seria preso. E tivemos mais 17 anos de ditadura pela frente. Essa posição de tentar sempre a negociação política foi a mais adequada para o perfil de Jango. Tanto é que as críticas a essa posição dele já não se fazem mais, a não ser por parte daqueles que não conhecem a realidade de então. A esquerda não conhecia, na época, as posições militares internas, a traição a Jango do general Amaury Kruel, lá em São Paulo, no II Exército, não sabia que a 4ª Frota americana estava posicionada na costa brasileira, dizia que Jango deveria ter resistido, mas ele sabia que não tinha como resistir. Eu hoje acho que, apesar de ter morrido no exílio — é o único presidente constitucional da República que morreu no exílio —, ele não foi derrotado; ele foi e é vitorioso. A grande vitória de Jango, com a sua renúncia, com a sua decisão de não lutar pelo seu mandato, foram na verdade, duas: ele evitou uma guerra civil e preservou a integridade territorial do Brasil, porque uma luta fratricida entre brasileiros poderia resultar no que os americanos queriam, no que tinham feito no Vietnã, na Alemanha, no que tinham feito na Coreia: dividir o Brasil em dois, o Brasil do Norte e o Brasil do Sul.
EU: A morte ou o assassinato do teu pai completam 50 anos em dezembro. Qual é a tua versão?
JOÃO: O inquérito do Ministério Público Federal sobre a morte de Jango nunca foi encerrado. O procurador, doutor Enrico, do Rio Grande do Sul, assumiu recentemente o inquérito, e nós já tivemos duas audiências com ele, inclusive participou da última audiência a nossa camarada Alice Portugal que hoje é a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, e nós estamos, ele está interessado em prosseguir, porque o que houve com esse inquérito? Em 2016, foi realizada a exumação do pai, mas o resultado não foi conclusivo. No entanto, o inquérito ficou aberto, porque nós pedimos a oitiva de dois americanos: Frederick Latrash, que era o chefe de Estação da CIA em Montevidéu, mas que morreu em 2002; e Michael Townley. Townley confessou seus crimes em 1978, quando foi extraditado para os Estados Unidos. Confessou ter morado numa mansão que lhe foi entregue pela DINA, no bairro Lo Curro, em Santiago. Na área residencial, Townley morava com a esposa, a escritora chilena e também agente da DINA Mariana Callejas, que recebia intelectuais em saraus literários. No porão da casa foi montado um laboratório secreto, onde o químico chileno Eugenio Berríos fabricava venenos e gases letais, como o Sarin. Em sua delação premiada, Townley admitiu ter fabricado e detonado por controle remoto a bomba que explodiu o carro em que estavam o diplomata chileno Orlando Letelier e sua secretária, em 1976. Também confessou ter matado o diplomata espanhol Carmelo Soria, na mansão de Lo Curro, com uma injeção de gás Sarin e matado, com veneno, o cidadão chileno René León Zenteno, que recusou entregar suas propriedades à DINA. Townley está vivo, mas o governo americano não permite acesso a ele por fazer parte do Programa de Proteção a Testemunhas. Em julho ou agosto de 2016 houve um pedido oficial do Ministério da Justiça a pedido do Ministério Público, saiu um ofício que foi levado ao Itamaraty, pedindo oitiva de Henry Kissinger inclusive, que faleceu há pouco tempo, o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, levou essa documentação para Washington, que foi entregue ao embaixador do Brasil, o embaixador entregou ao Departamento de Estado, e nunca teve resposta, e o Brasil também nunca pediu uma informação de por que não teve resposta. Então, hoje nós temos certeza de que, evidentemente, com esse governo do Trump nós não teríamos chance nenhuma de obter essas informações, ou a oitiva desse agente que ainda está vivo, o Michael Townley, mas nós estamos vendo se através do nosso Congresso Nacional nós poderíamos pedir esses depoimentos lá nos Estados Unidos, através de algum senador, do Bernie Sanders, por exemplo, ou através da nossa Câmara dos Deputados, porque nós não podemos encerrar o caso, estamos vendo como é que nós vamos agir diante desses novos fatos que estão surgindo aí, mas ainda não temos nenhuma orientação de como devemos fazer para que possamos obter esses esclarecimentos. Porque temos certeza de que em nível de governo não conseguiremos.
EU: Teu pai suspeitava que a ditadura queria matá-lo?
JOÃO: O pai não dormia mais duas noites no mesmo lugar. Ele tinha pedido a renúncia do exílio político no Uruguai, para conseguir a residência naquele país, demonstrou que os direitos políticos dele no Brasil, a cassação por dez anos, tinham vencido, já estava há 12 anos no exílio, e que pagava imposto no Uruguai, trabalhava no Uruguai havia tanto tempo que ele queria residência. O Ministério do Interior do Uruguai negou, e ele passou a ser um cidadão que não era nem exilado nem residente no Uruguai. E ele ficava se deslocando entre a Argentina, onde tinha comprado uma propriedade na Província de Corrientes, e o Uruguai. O que nos surpreende, Alex, é que as investigações no Brasil são mal feitas. Tanto na Argentina, no Uruguai, como no Chile, as investigações de mortes e de assassinatos de pessoas que desapareceram naqueles anos das ditaduras latino-americanas são conduzidas por um juiz. E nós temos o grande exemplo do juiz chileno chamado Alejandro Madrid, que hoje está na Suprema Corte do Chile. Foi ele que investigou todas as mortes de envenenamento no Chile.
EU: Qual é a diferença com o Brasil?
JOÃO: É que no Brasil não é um juiz que investiga; é o Ministério Público. O juiz Alejandro Madrid, como era ele que conduzia os inquéritos, foi aos Estados Unidos e conseguiu falar, por exemplo, com Michael Townley. Então, essa é a grande diferença do Brasil na investigação desse caso. Claro que aqui também houve anistia para agentes por crimes contra a humanidade, que não existe em nenhum lugar do mundo. E aqui no Brasil, lamentavelmente, a nossa anistia, assinada em 1979, prevê a prescrição desses crimes, e é por isso que nós não temos torturadores presos, os que morreram nunca foram presos, apenas catalogados como torturadores. Quanto à desclassificação de documentos, vamos dizer assim, secretos, aqui no Brasil, nós, por exemplo, temos vários indícios da morte do pai, nós temos vários. Nós temos um documento que foi liberado pelo Agente B, está lá… “ontem”… e ele mandando isso para o DOPS de São Paulo, me parece, diz: “ontem penetrei no apartamento do ex-presidente João Goulart, do seu criado-mudo subtraí carta do Perón, carta do Ulisses, documentos de venda de gado”… Agora, eu te pergunto o seguinte: “quem é o Agente B?”. O problema é que nós não sabemos até hoje quem foram os agentes brasileiros que estavam na Argentina. Para ter uma ideia, em 76, as embaixadas brasileiras viraram verdadeiros centros de arapongagem, que forneciam informações sobre os brasileiros que transitavam e aonde estavam indo, para serem presos, e trazidos para os países de origem. Todas as embaixadas geralmente têm dois adidos militares, mas havia 31 adidos militares brasileiros na embaixada argentina em 1976. Quem eram? Pede para o Itamaraty pra ver se eles vão dar. Não te dão. Eram todos agentes, não eram de carreira diplomática, eram agentes que estavam lá como adidos, mas pertenciam aos serviços secretos que construíram junto com os outros serviços secretos da América do Sul. A Operação Condor não era “uma operação”, e sim uma cooperativa permanente de serviços de informação de vários países que começaram trocando informações, trocaram prisioneiros e depois começaram a exterminar os seus inimigos. Nós temos aqui no Instituto João Goulart um documento que é incrível, do serviço secreto do Uruguai, citando uma reunião que houve entre o Zelmar Michelini, que era um senador uruguaio, o Gutiérrez Ruiz, que era o presidente da Câmara do Uruguai, que estava exilado, o presidente José Torres González, da Bolívia, e o meu pai. Por que e como o serviço secreto do exército uruguaio estava dentro de Buenos Aires monitorando uma reunião? E aí vieram os voos né? Os voos da morte de Buenos Aires. Cidadãos uruguaios foram sequestrados e presos na Escola Superior de Mecânica da Armada, em Buenos Aires, e colocados dentro de aviões supostamente para serem levados para Montevidéu, mas foram jogados no Rio da Prata para serem mortos, afogados. Então, é muito difícil nós hoje encontrarmos uma documentação que prove isso, mas indícios existem vários. Nós temos esse agente, Mário Neira Barreiro, de quem, inclusive, a Polícia Federal tomou declarações. Ele contou claramente como trocaram os medicamentos que o pai tomava. Eles produziram a substância mortal e botaram num só comprimido, porque se deixassem em vários comprimidos, seria detectado. Eles botaram num comprimido e ficaram acompanhando pra ver quando ele ia tomar, se era no Uruguai, se era na Argentina, se era na fazenda. A técnica deles já era muito avançada, e isso pouca gente conhece e agora nós estamos nessa missão de saber como vamos liberar essa documentação dos Estados Unidos, porque isso foi uma orientação dirigida. Aliás, há um telegrama, por exemplo, do Henry Kissinger, então secretário de Estado dos EUA. Ele estava na África do Sul, e soube que haveria uma reunião entre o serviço secreto do Uruguai e o SNI. E mandou um telegrama ao Ernst Victor Siracusa, o embaixador americano no Uruguai: “não se meta nas operações que estão sendo feitas pelo exército uruguaio”. Não diz quem, nem o que, mas instruiu o embaixador para não se meter naquilo que estava acontecendo nas reuniões secretas entre o SNI e os serviços secretos das Forças Armadas uruguaias e argentinas, que estavam acontecendo em Montevidéu. Não são teorias da conspiração. São fatos.
(Veja a íntegra da entrevista no programa “Cessar-fogo” que irá ao ar na sexta-feira, 17, às 21h00, na TV 247.)


