Quando a cultura encontra o escândalo: uma conversa com Mauro Faria

Quando a cultura encontra o escândalo: uma conversa com Mauro Faria

Quando a cultura encontra o escândalo: uma conversa com Mauro Faria

Esta entrevista, provocada pela página 64, espaço do Portal João Goulart e editada por João Vicente Goulart, entrevista o cineasta Mauro Faria, filho de Roberto Faria, que antes de seu falecimento, deixou um roteiro de um filme de ficção baseado em fatos reais, da trajetória e morte do Presidente João Goulart. Diante do escandaloso caso do filme "Black Horse" e da subterrânea captação de recursos por um candidato a presidência do Brasil, esta entrevista com Mauro Faria, mostra a indignação daqueles que operam, trabalham e desenvolvem a cultura no Brasil.

 

1) Mauro, você como conhecido cineasta no Brasil, como está vendo essa repercussão política em torno da captação, para este filme sobre o Bolsonaro, chamado “Dark Horse”?

Tão absurdo que fica difícil até saber por onde começar. Já conhecemos a trajetória de Flavio Bolsonaro, marcada por tantas suspeitas de negócios e transações ilícitas, além de suas mentiras contumazes. Mas o principal motivo de indignação e espanto é sua afirmação de que o filme estava sendo feito com dinheiro privado e não pela Lei Rouanet (se referindo aos mecanismos de financiamento público ao cinema, teatro e artes em geral). 

Chega a ser revoltante saber que o financiamento do filme que vem produzindo sobre o pai, tem procedência no desvio de dinheiro público por membros de seu partido, de servidores, aposentados, pensionistas, como no caso do Rio de Janeiro, através de Claudio Castro. Sem falar em dinheiro procedente da prefeitura de São Paulo.

O financiamento público a projetos audiovisuais é sempre acompanhado de perto pelos órgãos de fiscalização e exige uma prestação de contas minuciosa pela qual todos nós, produtores e realizadores, somos obrigados a seguir. Para pensar sua importância, basta lembrar dos tempos de pandemia, quando a maioria das pessoas recorreu aos filmes e séries durante o isolamento.

Vale ressaltar a ironia de que a carreira de Flavio agora é abalada por um projeto vindo da área que ele e seu pai mais combateram ou tentaram destruir: a Cultura.

2) O método nada convencional para buscar esses recursos, na ordem de U$ 24.000.000 de dólares ou traduzidos em reais, divulgados pela imprensa de 134.000.000 milhões de reais e que se deu, por um contato pessoal de Flavio Bolsonaro, um senador da República com um banqueiro como Vorcaro, hoje preso por fraude ao sistema financeiro, não extrapola qualquer tipo de financiamento, na área cultural do Brasil?

Me soa estranho um volume tão grande de dinheiro para um filme feito no Brasil. Ainda que com técnicos estrangeiros. Nada em nosso país se aproxima de valores tão altos.

Além disso, seu envolvimento pessoal na captação desses recursos, acionando um Banqueiro implicado em desvios de dinheiro público e em situação falimentar por realizar uma pirâmide financeira envolvendo acionistas, bancos públicos, etc, extrapola qualquer princípio ético aceitável para um senador. Em sua fala, ele demonstra ter conhecimento das dificuldades de Vorcaro ao prestar solidariedade por seu momento difícil, aliás, às vésperas de ser preso.

Importante inclusive averiguar a razão do dinheiro sair do país para um fundo nos EUA quando sua produção acontece aqui.

3) Podes fazer uma comparação acerca dos custos de produção do filme “Dark Horse” diante dos filmes nacionais, inclusive o filme “Ainda estou aqui”, premiado com o Oscar. É um número astronômico, se comparado às mais caras produções brasileiras até agora.

Ainda Estou Aqui, produzido por R$ 42 milhões, um terço do total do filme de Bolsonaro, relatando nossos Anos de Chumbo, vai na contramão do projeto de Flavio. Além do  Oscar que trouxe para nós, se posiciona diametralmente oposto ao ideário proposto por esse obscuro projeto (que aliás, carrega esse nome “dark” em seu título).

O Agente Secreto, que também esteve no Oscar, e também relata duros momentos vividos no Brasil durante a ditadura, custou R$ 28 milhões.

São os nossos filmes mais caros já realizados. Nenhum deles se valeu de fontes suspeitas e nem de tráfico de influência para conseguir seus recursos. São fruto do mérito de dois renomados cineastas brasileiros.

Ao passo que o filme em questão é produzido por uma produtora desconhecida ao meio audiovisual. Curiosamente, constam denúncias de maus tratos a pessoas que trabalharam no filme como figurantes e técnicos brasileiros.

4) Seu pai, Roberto Faria, fez o roteiro do filme “Como matar um presidente”, baseado na biografia dp presidente João Goulart. Quais foram e ainda são as dificuldades encontradas para a captação desta obra, atualmente sob tua direção?

Esse importante projeto, foi idealizado por meu pai, uma testemunha direta do golpe de 64 e dos tristes anos em que fomos submetidos a toda sorte de desmandos e arbitrariedade cometidos pela ditadura militar brasileira.

Essa é uma história das mais importantes a serem contadas por nosso cinema. A época em muito se assemelha ao panorama distópico que encontramos hoje ao nosso redor pelo mundo. Jango é um herói que não deve e nem nunca será esquecido. Foi um visionário e as pautas pelas quais vinha lutando e implantando no país ainda são necessárias nos dias de hoje, ou foram aos poucos sendo incorporadas por nossos governos. Entre elas, por exemplo, a nossa relação com a China que ele já naqueles dias percebia como fundamental à autonomia e desenvolvimento do país. 

Sobre o financiamento para o filme, como acontece na maioria dos projetos, temos uma luta difícil até atingirmos o montante necessário. Muito distante, aliás, dos orçamentos estratosféricos que mencionamos acima. O Polo de Cinema de Maricá, vem demonstrando interesse na produção do filme, o que muito nos anima. Temos da GloboPlay uma manifestação de interesse pelo filme, assim como uma possível parceria com um fundo publico no Uruguai. 

Como produtores de cinema no Brasil, nos identificamos com a frase de Ronaldinho Fenômeno: “o brasileiro não desiste nunca”. 

5) Para finalizar; qual seu comentário, sobre os meios de financiamento atualmente, para a produção de filmes no Brasil.

Hoje, nosso sistema de financiamento público às obras audiovisuais é conhecidamente difícil e concorrido. Temos inúmeros projetos tratando de temas importantíssimos e urgentes, mas há uma escassez de dinheiro.  Há um lento entendimento de que precisamos e merecemos mais recursos e uma melhor regulamentação das atividades no nosso streaming.

Temos um dos maiores públicos consumidores de audiovisual do mundo. Suficiente para interessar aos grandes exibidores e players da indústria. Temos um público ávido por consumir o audiovisual produzido e falado na nossa língua. Portanto, temos plenas condições de potencializar  e desenvolver essa atividade que tem para qualquer país um valor estratégico fundamental.