Inteligência artificial: nova moeda do imperialismo americano
Inteligência artificial: nova moeda do imperialismo americano
Qual o papel do Estado no uso irrestrito dos seus cidadãos a ferramentas controladas por empresa internacionais que não somente coletam os dados que os usuários ali colocam, mas como os utilizam para aprimoramento delas mesmas?
- Imagem gerada por IA.
Recentemente, o mundo viu-se abarcado pela inteligência artificial. Para muitos um avanço da tecnologia que vai ajudar o processo civilizatório a crescer nos diversos desafios laborais técnicos e avançar na tecnologia que será catapultada na velocidade de pesquisas, conquistas, rapidez nos problemas humanos e principalmente para o domínio de projetos cada vez mais distantes da capacidade humana.
Para outros, porém, que não tiverem a capacidade, ou melhor, a oportunidade de conhecer, estudar, operar e integra-se a esta nova tecnologia, restará a distância deste desenvolvimento, o desemprego, o desprezo social de não se integrar a uma nova dinâmica intelectualizada dos novos “algoritmos-men”, restando-lhes apenas, virarem um novo grupo social marginalizado.
E que dizer dos países que não acompanharem com ciência e tecnologia, rapidamente, velozmente as modificações técnicas necessárias do Vale do Silício, das grandes BIG-TECS, e dos países mais desenvolvidos que estarão na vanguarda dessa tecnologia.
Que a dita* inteligência artificial (IA) foi escolhida para ser o grande ativo de especulação financeira do poder econômico já não é novidade para ninguém. Nome bonito, impactante e propõe o que toda mediocridade empresarial quer, reduzir ou eliminar recursos humanos seguido da promessa/esperança de maximizar as margens de lucro.
Não faltam levantamentos estatísticos demonstrando que a taxa de sucesso ao se implementar uma IA dentro de uma empresa é mínima, muitas das vezes demandando a recontratação dos trabalhadores para lidar com as tarefas mais complexas ou para intervir quando a IA falha.
Requer um grande investimento para treinar o modelo para o objetivo específico daquela empresa e, para isto, necessita-se de DADOS, muitos dados e curadoria. Aí é que mora o perigo e é exatamente esta a razão deste texto de ser.
Quando adicionamos à equação um ativo de especulação com uma injeção de capital nunca antes vista na história moderna, uma promessa de otimização de lucros para um público que, em sua esmagadora maioria, é alienado a real aplicabilidade da tecnologia, abrimos a porta para que esta tecnologia (realmente sofisticada) acesse absolutamente todos os dados e modelo de negócio ao qual empresários levaram anos construindo e aprimorando, sendo entregues para um monopólio controlado por empresas norte americanas cujos donos estão na lista de indivíduos com maior concentração de riqueza no mundo.
Quando as maiores potências econômicas mundiais (leia-se China e Estados Unidos) colocam publicamente como uma de suas principais prioridades a inteligência artificial e esta mesma ferramenta têm um poder incomparável de minerar, processar e analisar dados, temos o dever de, no mínimo, entender esta questão como um tema de soberania nacional.
Qual o papel do Estado no uso irrestrito dos seus cidadãos a ferramentas controladas por empresa internacionais que não somente coletam os dados que os usuários ali colocam, mas como os utilizam para aprimoramento delas mesmas?
Qual papel do Estado no uso irrestrito de empresários brasileiros que façam uso desta tecnologia em suas empresas?
Qual papel do Estado no que diz respeito a proteção e intervenção em empresas públicas que eventualmente utilizem estas ferramentas?
Brasil é um país absolutamente gigante em setores sensíveis e estratégicos como extração e refino de petróleo e gás, produção e distribuição de energia, mineração, tecnologia agrícola, aviação, enriquecimento de urânio por ultracentrifugação (somente para citar alguns).
Espionagem industrial sempre foi e sempre será um problema para qualquer país dito capitalista e, diante desta realidade, é dever do Estado desenvolver e determinar uma política específica para proteger o patrimônio de seus cidadãos.
É de conhecimento geral que o modelo de negócio destas poucas empresas que detém o monopólio do produto (IA) não é economicamente sustentável. Quando se analisa a quantidade de investimento colocado contra os ganhos com a venda de produtos baseados em IA a conta não fecha, então a pergunta natural que surge é: por que os países nos quais este monopólio se encontra seguem injetando capital e mantendo como uma de suas prioridades? Dados e mais dados.
O ouro da era moderna é ser capaz de identificar padrões, ter controle e previsibilidade para ter dominância em qualquer setor produtivo. Não à toa uma empresa como a Meta Plataforms (Facebook) é listada como a nona empresa mais valiosa do mundo sem sequer produzir um parafuso, zero produção material. Muito menos por acaso as doze empresas mais valiosas do mundo estão diretamente relacionadas com processamento de dados, seja os obtendo (com pretexto de rede social ou motor de busca) ou fabricando os chips que garantem o processamento destes mesmos dados.
Para piorar, estas mesmas empresas que vendem serviço de IA querem agora vender a ideia de instalar seus datacenters em território brasileiro com a promessa de geração de emprego e desenvolvimento tecnológico. Acontece que também não é novidade que não há nenhum tipo de transferência tecnológica nestes contratos, os empregos de maior qualificação são exclusivos para os cidadãos de seu país de origem e o que resta é alguma coisa na parte da construção civil, empregos de baixa qualificação e temporários.
Pior ainda são os impactos ambientais que estes mesmos datacenter causam, não por acaso estas empresas estão buscando outros locais para instalá-los. Apenas para contextualizar, foram registrados 142 protestos em 42 estados norte-americanos em um único final de semana. Ativistas também se concentraram em frente às sedes da OpenAI e Anthropic no Vale do Silício contra os datacenters já instalados. A demanda de energia elétrica e de água é enorme nestes datacenters, gerando instabilidade em redes elétricas, escassez hídrica (utilizada para resfriar os equipamentos), poluição térmica, sonora e geração enorme de lixo eletrônico.
Se tudo isto não é ruim o suficiente sempre dá para piorar: não só o Brasil não têm uma política definida para proteger seus cidadão contra a extração de dados por estas empresas, não só o Brasil não regulamenta a instalação de datacenter como até pouco tempo atrás a instalação destes datacenters se dava incentivo fiscal ((MP) nº 1.318/2025). Foi necessário a MP perder a validade e o senado não pautar o texto do Projeto de Lei nº 278/2026 (que tinha o objetivo de restabelecer o incentivo) que resultou na caducidade definitiva do benefício.
*“Dita” inteligência artificial pois, como já dito e explicado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, “nem inteligente, nem artificial”.
João Vicente Goulart
José Dinarte Goulart
Diretores do IPG- Instituto João Goulart


