‘Precisamos transformar o Brasil numa grande Annoni’, defendeu Stedile
‘Precisamos transformar o Brasil numa grande Annoni’, defendeu Stedile
O líder do MST e a professora Alessandra Gasparotto resgataram a história de luta pela terra em conferência na Annoni
Pontão (RS)
Fabiana Reinholz e Katia Marko
Na manhã de sábado (25), a celebração dos 40 anos da ocupação da Fazenda Annoni contou com o momento da formação com a Conferência Estadual da Reforma Agrária Popular, com a presença do dirigente e um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stedile e da professora de história Alessandra Gasparotto.
A professora Alessandra Gasparotto destacou a importância de compreender a trajetória do movimento camponês brasileiro em perspectiva histórica. Segundo ela, a conquista da terra está profundamente ligada à luta pela democracia e pela justiça social.
“Costumo brincar com meus alunos que a única coisa que sei de veterinária é cuidar dos meus gatos, mas me somo com muito prazer a esse debate político e pedagógico”, afirmou Gasparotto, que atua na Comissão Camponesa da Verdade – criada em 2012 para subsidiar a Comissão Nacional da Verdade sobre os crimes e violações de direitos humanos no campo, e contribui com o Instituto de Assessoria Jurídica Camponesa (IAJC).
“É uma honra estar aqui celebrando os 40 anos da conquista da Annoni, especialmente junto de pessoas que fizeram essa história, como o seu Isaías [Vedovatto], a Salete [Campigotto], a dona Lúcia e tantos outros protagonistas da luta. Claro que dá medo, porque quando a gente conta uma história diante de seus protagonistas, sempre teme cometer alguma bobagem. Mas se eu errar, depois me chamem num cantinho”, brincou.
As raízes da resistência no campo gaúcho
A professora propôs uma reflexão sobre o que tornou possível a ocupação da Annoni, em 1985, e por que ela se consolidou como um marco. “Ao longo da história, houve inúmeras lutas pela terra, mas muitas foram derrotadas. O que fez a Annoni dar certo?”, questionou.
Segundo ela, a resposta está nas “forças históricas que se encontraram” naquele período. A ocupação ocorreu no início da chamada Nova República, em um Brasil que emergia de 21 anos de ditadura militar “trazendo mais coisas velhas do que novas”. Gasparotto lembrou que o primeiro presidente civil, José Sarney, vinha do partido que havia sustentado o regime autoritário.
A historiadora resgatou episódios anteriores, como a ocupação da Fazenda Sarandi, em 1962, quando cerca de 600 famílias ocuparam 24 mil hectares usados para especulação. Com apoio de Leonel Brizola e do prefeito Jair Calixto, a área foi desapropriada, tornando-se símbolo de conquista popular.
“Esse momento estava imerso nas disputas pela reforma agrária”, explicou, citando o fortalecimento de movimentos como as Ligas Camponesas e o surgimento da Superintendência de Reforma Agrária (Supra) no governo João Goulart. O Estatuto do Trabalhador Rural (1963) estendeu aos trabalhadores do campo direitos antes restritos aos urbanos.
“No início dos anos 1960, defender a reforma agrária se tornou uma bandeira tão universal que até entidades patronais diziam apoiá-la, embora com projetos completamente distintos. A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), por exemplo, falava em ‘humanização agrária’, sem tocar na distribuição de terras”, relatou.
Do Master ao MST
Foi nesse contexto que nasceu o Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master), precursor do MST. Criado em 1960, o movimento teve apoio de lideranças do PTB e do PCB, articulando centenas de associações em pelo menos 80 municípios gaúchos.
“Estima-se que tenha mobilizado cerca de 100 mil agricultores e agricultoras, incluindo pequenos proprietários e trabalhadores rurais que sabiam que seus filhos não herdariam a terra. Entre essas lideranças, destacam-se nomes como Ildo Meneghetti, Milton Serres Rodrigues e outros militantes que deram forma à luta”, disse Gasparotto.
O Master foi duramente perseguido e extinto após o golpe civil-militar de 1964. “Não há como entender o golpe sem compreender o papel dos ruralistas, que o financiaram temendo a perda de seus privilégios. As federações patronais foram trincheiras do golpe”, afirmou.
Ditadura e resistência camponesa
Com a repressão, lideranças rurais foram presas, assassinadas ou silenciadas. Dados da Comissão Camponesa da Verdade apontam mais de 1.200 camponeses, religiosos e advogados assassinados durante a ditadura. O regime promulgou o Estatuto da Terra (1964), criticado até pelos ruralistas como “marxista-leninista”.
Apesar da violência, Gasparotto lembrou que a resistência nunca cessou. “Foi nas brechas do Estatuto da Terra, nas ações cotidianas e silenciosas de solidariedade e articulação sindical, que o movimento camponês manteve viva a chama da luta pela terra.”
Essas resistências, observou, prepararam o terreno para a reorganização dos movimentos no fim dos anos 1970 e início dos 1980, quando surgiram novas frentes, como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e as mobilizações de seringueiros e seringueiras na Amazônia.
De Encruzilhada Natalino à Annoni
No Rio Grande do Sul, a ocupação da Encruzilhada Natalino (1981) simbolizou a retomada das lutas. “Natalino foi tão ameaçadora ao regime que a ditadura enviou para cá Sebastião Curió, o mesmo agente que havia combatido a Guerrilha do Araguaia. A repressão não foi apenas estatal, mas também privada, financiada por fazendeiros e empresários”, lembrou.
Foi nesse contexto que, em 1985, surgiu a ocupação da Fazenda Annoni, inspirada pelas experiências anteriores e pela criação do MST. “A Annoni nasce do reencontro entre a coragem e a memória das lutas passadas, num país que voltava a respirar democracia, mas ainda marcado pela violência no campo.”
O governo civil da Nova República lançou o Programa Nacional de Reforma Agrária, mas enfrentou resistência imediata das federações ruralistas. “O ano de 1985 foi de muitas ocupações e também de muita violência. A CPT registrou 215 lideranças camponesas assassinadas naquele período”, destacou.
“Hoje é dia de festa, mas também de lembrar que nossa história foi forjada na violência e na resistência. A maior homenagem que podemos fazer a quem construiu a Annoni e o MST é não esquecer essa trajetória e continuar lutando por terra e igualdade neste país”, concluiu.
Luta pela terra e reforma agrária popular
Presente na celebração, João Pedro Stedile, dirigente histórico do MST, destacou a trajetória do movimento, os desafios enfrentados e a necessidade de uma reforma agrária popular, que vá além da simples distribuição de terras.
O dirigente lembrou os primeiros passos do MST na região, que resultaram nas ocupações da Macali, Brilhante, Encruzilhada e Annoni. “Me sinto muito feliz em estar aqui com vocês nesses dois dias, reencontrar tantos companheiros e companheiras que há mais de 40 anos se envolveram no trabalho de base, lá em 1978, ainda em tempos de ditadura.”
Ele recordou a atuação na clandestinidade e provocou a militância atual: “Atenção, juventude da Brigada Oziel! Agora vocês estão na moleza. No nosso tempo, tínhamos que fazer trabalho de base e preparar a ocupação na clandestinidade. Era assim que tomávamos de surpresa a direita e os governos.”
Para Stedile, dedicar a vida à causa é compromisso contínuo. “Dar a vida não é morrer por uma causa. Dar a vida é dedicar sua vida inteira à causa da libertação do nosso povo, de construir uma nova sociedade a partir das mudanças estruturais necessárias na agricultura.”
O dirigente ressaltou que a luta pela terra é uma tática, uma forma de acumular forças para a reforma agrária. “A luta pela terra expressa em ocupações, marchas, passeatas, audiências e até tapas nos governos é apenas uma tática. A reforma agrária, por sua vez, é o conjunto de políticas que o Estado deve implementar para democratizar o acesso à terra e reorganizar a produção agrícola.”
Segundo ele, o Brasil nunca realizou uma reforma agrária efetiva: “Só houve luta pela terra pela teimosia dos camponeses. A última tentativa massiva, com armas na mão, foi no México. Lutaram dez anos, morreram 500 mil pessoas e não conseguiram realizar a revolução.”
Três forças para mudanças estruturais
Para Stedile, a reforma agrária depende da combinação de três forças:
- Movimento camponês organizado e consciente de classe. “Se a base só pensa em terra, não acumula força para a reforma agrária para todos. É preciso ideologia e consciência de classe.”
- Apoio da sociedade civil. “Falo da sociedade organizada e consciente, não da opinião publicada pela burguesia.” Ele lembrou o papel histórico da Igreja da Teologia da Libertação, sindicatos e lideranças comunitárias.
- Governo popular. “Só um governo popular pode implementar políticas públicas transformadoras. A reforma agrária só avança quando há correlação de forças favoráveis, como nos governos de Brizola e João Goulart. Já Lula e Dilma tiveram limitações pelas alianças necessárias com a burguesia.”
Ele destacou ainda as experiências do governo no RS de Olívio Dutra e Brizola, apontando que governos populares são decisivos para mudanças estruturais.
Stedile contextualizou experiências internacionais, como o Japão pós-Segunda Guerra, cuja reforma agrária clássica redistribuiu terras e integrou camponeses à indústria, e o Brasil de João Goulart, cujo projeto, elaborado por Celso Furtado, foi interrompido pelo golpe de 1964.
Atualizando o debate, o dirigente apresentou o conceito de reforma agrária popular, voltado aos desafios contemporâneos. “O objetivo agora é produzir alimentos saudáveis para todo o povo, defender a natureza e enfrentar as mudanças climáticas. A reforma agrária só tem sentido se for para salvar a natureza, replantar árvores e proteger nascentes.”
Entre as políticas estratégicas, Stedile destacou a Agroecologia, com sementes crioulas e tecnologias sustentáveis; as agroindústrias, fortalecendo a renda de mulheres e jovens; e a educação, com programas como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).
“O Pronera é revolucionário”
“O Pronera é revolucionário porque permite que o jovem assentado curse universidade sem sair de casa. Ele passa dois meses na universidade, aprende tudo, manhã, tarde e noite, e depois volta pra comunidade pra compartilhar o conhecimento científico sem se afastar da sua realidade”, explicou.
Stedile criticou o corte de verbas no programa. “O orçamento do Pronera este ano era de R$ 72 milhões, e o governo liberou só R$ 26 milhões. É uma vergonha! Tem curso que o MST está bancando com comida pros estudantes. Isso num governo que nós elegemos.”
Por fim, defendeu a ampliação do programa. “Precisamos expandir o Pronera com todas as universidades e cursos, porque é assim que se democratiza o conhecimento científico e se fortalece a reforma agrária.”
Experiências práticas e futuro da Annoni
Encerrando sua fala, Stedile destacou as experiências do Assentamento na Fazenda Annoni: “Aqui já temos agroindústrias, frigoríficos, produção de leite e manteiga, e parcerias com universidades. Toda essa teoria aconteceu na Annoni. Tivemos conquistas estratégicas. Aqui temos um projeto piloto do que vai ser o futuro, quando tivermos governo popular, sociedade organizada e movimento camponês fortalecido, para transformar o Brasil numa grande Annoni.”
Ele reafirmou os três pilares da reforma agrária popular: luta pela terra, produção de alimentos saudáveis e proteção da natureza, combinadas com educação, tecnologia e agroindústria.
Editado por: Marcelo Ferreira



