Burnham assume como premiê do Reino Unido sob pressão para reverter crise política e impor reformas

Burnham assume como premiê do Reino Unido sob pressão para reverter crise política e impor reformas

Reino Unido

Burnham assume como premiê do Reino Unido sob pressão para reverter crise política e impor reformas

  • Trabalhista se torna sétimo primeiro-ministro do país em dez anos nesta segunda (20)
  • Ex-prefeito de Manchester elenca prioridades, mas tem prazo curto para alcançá-las

 

José Henrique Mariante

Berlim

Andy Burnham toma posse nesta segunda-feira (20) como primeiro-ministro do Reino Unido, o sétimo em uma década. Ou desde o brexita desastrosa separação do país da União Europeia, que acelerou o que deveria frear, a estagnação da economia britânica e a perda de relevância do país no cenário internacional.

Se Burnham é o homem para a missão, após dois anos hesitantes de Keir Starmer, é uma pergunta que os britânicos vêm fazendo desde o mês passado, quando a troca de guarda no Partido Trabalhista se impôs. Até então, o ex-prefeito de Manchester era apenas a figura mais popular da legenda, que Starmer tentava conter ainda imaginando que seria o grande reformador do país, ungido pela vitória esmagadora sobre os conservadores em 2024.

Não foi. Sobreviveu a escândalos, mas não à derrota do trabalhismo para a ultradireita em pleitos regionais, em maio. O premiê, que formalmente renuncia nesta segunda e abre espaço para rei Charles 3º convocar o substituto, teve que ceder aos apelos dos colegas do próprio partido, preocupados com a condução do governo até 2029, prazo para as eleições gerais.

Segundo analistas, Burnham tem ainda menos tempo para mostrar trabalho.

Manifestantes seguram cartazes com mensagens contra o projeto Rosebank, pedindo que Andy diga não ao uso de combustíveis fósseis. Ao fundo, o relógio do Big Ben e grades do Parlamento britânico são visíveis.

Em frente ao Parlamento, em Londres, manifestantes pedem para Andy Bunrham, futuro primeiro-ministro do Reino Unido, não aprovar novas perfurações de petróleo - Jack Taylor/Reuters

O histórico da política local mostra que, para premiês alçados sem votação popular, é importante chancelar o apoio parlamentar com uma eleição antecipada. Para tanto, suas promessas de reformas institucionais e de reversão de 40 anos "de rumos errados" trilhados pelos conservadores precisam logo ganhar tração.

Apenas com a confirmação popular Burnham teria tempo para construir o programa de longo prazo que propõe, focado em reindustrialização, emprego, custo de vida e habitação. Ou, "bom crescimento em todos os códigos postais", um dos tantos bordões que cunhou nas últimas semanas.

O futuro primeiro-ministro, afinal, parece ser "a última cartada dos partidos tradicionais britânicos em meio à crescente insatisfação dos eleitores e ao populismo político", escreveu em editorial o Financial Times. Foi o jornal financeiro que antecipou na semana passada a indicação de Shabana Mahmood, da ala mais à direita do Partido Trabalhista, para o principal cargo do gabinete, a pasta de Finanças.

 

O nome de Mahmood "aliviou os mercados", segundo o periódico, desconfiados de um premiê que fala de "socialismo pró-negócios", reestatização de serviços públicos e descentralização de poder. Ao ser escolhido como líder dos trabalhistas, na sexta-feira (17), Burnham afirmou que a composição de seu gabinete não seria ditada pela City.

A ver por quanto tempo os cacoetes trabalhistas funcionarão no novo posto.

Homem de meia-idade com cabelo curto e óculos, veste terno azul escuro, camisa branca e gravata vinho, gesticulando com a mão direita estendida para frente. Fundo desfocado com parede cinza e estrutura metálica colorida.

Andy Burnham chega à convenção do Partido Trabalhista que o transformou em líder da legenda e futuro primeiro-ministro do Reino Unido, na sexta-feira (17), em Londres - Stephen Chung/Xinhua

Apelidado de "rei do Norte" pela popularidade atingida em Manchester, que conduziu de 2017 até este ano, com duas reeleições pelo caminho, Burnham tem facilidade com a comunicação, um dos pontos frágeis do governo Starmer.

Nascido em Aintree, um subúrbio de Liverpool, filiou-se ao Partido Trabalhista com 15 anos. Estudou em Cambridge, trabalhou alguns anos como jornalista, mas logo se envolveu com a política. Antes do posto atual, em Makerfield, que disputou em junho para poder se tornar primeiro-ministro, representou outro distrito da Grande Manchester, Leigh, de 2001 a 2017.

Ocupou diversos cargos nos gabinetes de Tony Blair e Gordon Brown, incluindo o posto de secretário de Saúde, o equivalente a ministro no país, de 2009 a 2010. Com a volta dos conservadores ao poder, concorreu sem sucesso por duas vezes à liderança trabalhista.

Foi, no entanto, a trajetória em Manchester —tornada movimento político, "manchesterismo"—, que credenciou Burnham para ocupar o número 10 de Downing Street, a partir desta segunda.

 

O que o manterá no cargo, por óbvio, será a manutenção da política fiscal rígida, mantra renovado após a aventura protagonizada por Liz Truss, conservadora que durou apenas 45 dias no poder, mas também respostas rápidas a dilemas polarizados, como a relação com os EUA de Donald Trump, a guerra da Ucrânia, o conflito no Irã e a exploração de petróleo no mar do Norte.

Promessa de campanha dos trabalhistas, novas perfurações na região foram proibidas pelo governo Starmer em busca do net zero, o balanço neutro de emissões. Diante de custos de energia crescentes para a população, o assunto foi explorado tanto pelo populista Nigel Farage, do Reform UK, que lidera as pesquisas de opinião, como pelo lobby oportunista da indústria petrolífera.

No sábado (18), manter o Reino Unido na trilha de energia limpa era uma das demandas de uma série de protestos que cercaram o Parlamento britânico em Londres. "Andy, diga não a Rosebank", diziam vários cartazes, em referência ao maior campo petrolífero inexplorado do país, na Escócia, algo como a margem equatorial no Brasil.

Parlamentares próximos a Burnham afirmam que o futuro primeiro-ministro saberá encontrar um caminho razoável em meio a essa e outras disputas. Os últimos seis que tentaram não conseguiram.