Política e futebol: a tênue relação entre as Copas do Mundo e as eleições no Brasil

Política e futebol: a tênue relação entre as Copas do Mundo e as eleições no Brasil

Política e futebol: a tênue relação entre as Copas do Mundo e as eleições no Brasil

Desde a primeira taça conquistada pela seleção, em 1958, os presidentes tentam ganhar dividendos políticos com as vitórias obtidas nos campos pelos jogadores, mas os resultados nos estádios não costumam interferir no desempenho dos candidatos governistas nas urnas

Eumano

Eumano Silva

Romário, Pelé, Ronaldo, Itamar Franco, Emílio Médici, FHC

Arte: Daniel Medeiros/PlatôBR

 

 

 

 

A paixão dos brasileiros pelo futebol inflama as torcidas, lota os estádios do país e movimenta a economia. Tanta emoção também desperta a atenção dos governos e dos políticos em busca de popularidade, principalmente nos anos das copas vencidas pela seleção canarinho.

As tentativas de apropriação do sucesso esportivo do time, porém, não se desdobraram em vantagem eleitoral para os presidentes do Brasil. Desde a primeira taça conquistada, em 1958, as vitórias nos gramados praticamente não tiveram efeitos positivos nas urnas.

Juscelino Kubitschek estava à frente do país quando o time do jovem Pelé venceu a Copa na Suécia. Embalado pelo slogan desenvolvimentista “50 anos em 5”, o Brasil vivia um período de euforia, em clima de democracia e ritmo de bossa nova. O primeiro campeonato da seleção espantou o “complexo de vira-latas” descrito por Nelson Rodrigues e fortaleceu o otimismo da população com o futuro do Brasil.

JK fez um exaltado discurso para enaltecer o feito do time. Dois anos depois, no entanto, o candidato oposicionista Jânio Quadros venceu a eleição, sem que a conquista no futebol contribuísse para o desempenho do governista Henrique Teixeira Lott.

Com a renúncia de Jânio em 1961, João Goulart assumiu a presidência e, no ano seguinte, recebeu a seleção que trouxe o bicampeonato do Chile. Deposto pelo golpe militar, Jango não teve eleição para medir sua popularidade.

Propaganda ufanista
O general Emílio Garrastazu Médici foi o governante que mais ostensivamente tentou se apropriar da seleção para a promoção do governo. Mais que isso, o terceiro presidente da ditadura usou o tricampeonato de 1970 para esconder os crimes de tortura, morte e desaparecimento que marcaram seus quatro anos e quatro meses no poder.

A interferência dos militares no time começou em 1969, quando o técnico João Saldanha foi tirado do comando da seleção, que passou a ser treinada por Zagallo. Saldanha perdeu o posto por ser militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro), fichado pelos órgãos de repressão desde a década de 1940.

A música “Pra frente Brasil”, de Raul de Souza e Miguel Gustavo, que embalou a torcida brasileira na conquista no México, foi incorporada pela propaganda ufanista do governo Médici. O país vivia o período mais obscuro e repressivo da ditadura.

Líderes cassados
Como não havia eleição direta para presidente nem para governador, só se pode avaliar o humor da população pelos resultados nas urnas das disputas pelas vagas no Congresso. Em 1970, embora o governo tenha obtido uma vitória incontestável, com a obtenção de dois terços das vagas para deputados e de 43 dos 46 assentos no Senado, esse resultado não pode ser atribuído à equipe comandada por Zagallo.

Na verdade, dois fatores tiveram peso decisivo para a vitória governista: o crescimento do país, que vivia o Milagre Econômico, e a ausência dos principais líderes da oposição, caso de JK, Jango e Leonel Brizola, que haviam sido cassados pelos militares.

Recepcionados em Brasília depois da conquista no México, os jogadores deram corda ao entusiasmo do governo dos generais. Um mês depois, Pelé e o lateral Carlos Alberto Torres, capitão da seleção do tri, foram recebidos por Médici no Palácio da Alvorada.

Cambalhotas no Planalto
O Brasil só voltou a ganhar uma Copa do Mundo em 1994. Itamar Franco estava na Presidência da República e também fez festa com os jogadores no Planalto. Naquele ano, o candidato do governo, Fernando Henrique Cardoso, venceu as eleições. Mas o tetracampeonato não teve qualquer relevância na preferência dos eleitores: FHC foi eleito por causa do sucesso do Plano Real, implantado durante sua passagem pelo Ministério da Fazenda.

Fernando Henrique estava no segundo mandato em 2002, quando o time liderado por Ronaldo Fenômeno ganhou na Alemanha o pentacampeonato. Os jogadores foram recebidos com uma grande manifestação da população de Brasília ao longo do Eixão. Mas a cena que marcou a passagem deles pela capital federal foi protagonizada por Vampeta, meio-campo da seleção, que desceu a rampa do Planalto dando cambalhotas.

Naquele ano, o oposicionista Lula (PT) ganhou as eleições do governista José Serra (PSDB). De nada adiantou ao candidato tucano a vitória da seleção brasileira.

Disputa pela camisa amarela
Na última década, mesmo com os resultados frustrantes da seleção, a camisa amarela ganhou mais conotação política por ter sido transformada em uniforme dos apoiadores de Jair Bolsonaro. Eleitores da esquerda até evitavam usar a icônica roupa do time de futebol.

Este ano, porém, o presidente Lula, que tentará conquistar o quarto mandato em outubro, faz um esforço para que seus eleitores voltem a usar a camisa amarela. Antes do embate nas urnas, o petista trabalha para vencer a disputa pela vestimenta da seleção.