O SNI e Carlos Lacerda
O SNI e Carlos Lacerda
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blogdogersonnogueira

Por Luis Nassif
Areabertura das investigações sobre a morte de Juscelino Kubitschek é uma boa oportunidade para investigar outras mortes suspeitas do período, como a de Carlos Lacerda. Em curto período de tempo ocorreram quatro mortes suspeitas:
Juscelino Kubitschek – 22 de agosto de 1976 (acidente de carro, suspeitas de atentado)
João Goulart – 6 de dezembro de 1976 (infarto, suspeita de envenenamento)
Carlos Lacerda – 21 de maio de 1977 (infecção generalizada, suspeitas de envenenamento)
Zuzu Angel – 14 de abril de 1976 (acidente de carro, suspeita de assassinato)
Uma boa história a ser apurada me foi relatada por Bartolomeu Santos em fins dos anos 80.
Na época, eu estava enfrentando Saulo Ramos, Consultor Geral da República e, depois, Ministro da Justiça de Sarney. Denunciei manobras dele e enfrentei um julgamento pesado, inclusive uma negociação entre ele e Otávio Frias que custou meu contrato na Folha.
Na época, Luiz Gonzaga Belluzzo sugeriu uma conversa com o advogado Eros Grau – mais tarde nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal. Eros me disse que os lobistas paulistas – como Saulo – eram toscos. Se quisesse conhecer o submundo sofisticado da política, que procurasse Bartolomeu Santos, que conhecia tudo sobre o lobista dos lobistas: Jorge Serpa.
Bartolomeu era um senhor já de idade, que atravessara todas as fases políticas. Foi chefe de gabinete do governador Agamenon Magalhães, depois, já no Rio, foi da turma de Negrão de Lima. Mais importante: foi o homem que aproximou Serpa do SNI (Servço Nacional de Investigações).
Serpa foi preso, depois de um escândalo com debêntures da Mannesman. Bartolomeu convenceu o SNI de que ele seria um bom informante, já que sabia tudo sobre o alto mundo carioca e brasileiro – convivia com Roberto Marinho, de quem era conselheiro, até Walther Moreira Salles.
A partir daí, Serpa tornou-se uma espécie de radar do SNI para o alto mundo carioca, além de redator dos melhores discursos de Garrastazu Médici. Bartolomeu endeusava tanto o talento de Serpa que o colocava como homem capaz de montar altas operações financeiras internacionais. Depois, quando passei a conviver com Walther Moreira Salles, vi que não era nada disso. Monoglota, tendo pavor de avião, o que encantava Serpa eram as jogadas do poder.
Foi nessas conversas com Bartolomeu me falou da armação do SNI sobre Lacerda. Este era um fauno, um verdadeiro Marlon Brando da política, capaz de cativar Shirley MacLaine mas reservar sua energia também para homens.
Sabendo isso, o SNI infiltrou um agente bonitão como jardineiro em seu sítio, na serra fluminense. O jardineiro recebeu uma cantada de Lacerda, que foi devidamente grampeada pelo SNI. Na época, o SNI já possuía equipamentos sofisticados de gravação. E o grande divulgador dos grampos era o jornalista Elio Gaspari, na Veja.
Foi através de Gaspari, que o SNI divulgou os encontros de Fernando Lyra com a esposa de um senador de oposição.
Segundo Bartolomeu, o SNI usou o grampo como chantagem para reduzir as críticas de Lacerda ao regime militar. Mas o episódio mostra a facilidade de infiltração do SNI nas casas dos políticos de oposição.
Mais que nunca, Elio Gaspari precisa disponibilizar para pesquisadores seus arquivos da ditadura. Não os arquivos pessoais, mas os acervos de Golbery e de Ernesto Geisel. Trata-se de um caso clássico de direito à memória.”
Uma resposta a “O SNI e Carlos Lacerda”
Bernardete Kleinibig
Identificar um ponto fraco de uma autoridade ou de um governo é o caminho mais fácil para a CIA atingir os nefastos objetivos do País Sem Nome.
No âmbito da Operação Condor, quais as vulnerabilidades de Juscelino? E as de Jango? Ambos tinham amante. Não sei as circunstâncias da morte de Jango, que também padecia de problemas cardíacos. Mas um suposto telefonema da amante de JK o atraíu para o Rio de Janeiro naquele 22 de agosto de 1976. Como não dirigia, convocou seu amigo e ex-motorista, a quem tinha presenteado com um Opala, para conduzi-lo pela Via Dutra. As suspeitas (quase certezas) de que seu motorista tenha sido atingido com um tiro têm suas evidências: a) o caixão do motorista estava lacrado; b) o caixão de JK, que era a celebridade, estava aberto; c) antes, haviam espalhado o boato de que JK morrera. Duas perguntas: 1) por que o caixão do motorista estava lacrado e acompanhado de agentes do Exército, se se tratava de um anônimo? 2) com que finalidade o boato da morte de JK? Respondo eu: 1) seu rosto estava deformado pelo disparo; 2) ver como a população reagiria à morte de um líder carismático.
Buscar um ponto fraco também ocorreu no âmbito da maior farsa do século 20: o episódio de Tonelero, em que havia a necessidade de um cadáver fardado (o do major Rubens Vaz) para apear do poder o maior líder popular de então, Getúlio Vargas. O outro, que superou o caudilho gaúcho, é o nordestino Luís Inácio. No evento, o jeito mais fácil de se conseguir o intento foi a guarda pessoal de GV, que era um balaio de gatos com gente sub-letrada de toda ordem, incluindo homens indicados por contraventores e pelo miliciano da época, Tenório Cavalcante, deputado pela UDN, a mesma de Carlos Frederico de Werneck Lacerda. O curioso é que, na mesma tramoia em que se envolveu a guarda de Gregório Fortunato, a ideia era achar um ponto fraco de Lacerda, com o fim de silenciá-lo em suas críticas ácidas contra GV e família. Uma amante, quem sabe. Na madrugada de 5 de agosto, dona Letícia Lacerda tinha viajado e Lacerda estava solteiro; era a ocasião. Ocorre que a CIA, juntamente com Eduardo Gomes, o brigadeiro, já haviam pensado em tudo, antecipando-se às reais intenções de Fortunato (na verdade de Luthero e Bejo Vargas, além do general Mendes de Morais). O feitiço virou contra o feiticeiro.
A maior farsa do século 21 foi a que ocorreu em 6 de setembro de 2018, em Minas Gerais. Quem poderia ser usado naquela encenação se não alguém com problemas mentais? Mas esta história ainda vai ser passado a limpo – não sei estarei vivo para ver.
A Operação Condor, como antídoto ao processo da redemocratização (abertura ampla, porém gradual), eliminou vários líderes populares da América do Sul, como, no Brasil, JK, Jango e Lacerda.
Um pouco disso está em meu livro “O País dos Militares e dos Bacharéis”, mas pretendo ainda esmiuçar noutro livro que seria “Rua Tonelero, 180: a maior farsa política do século 20”.
Paz e bem.
A. V.


