'Saiu exatamente como mandei': Ciro Nogueira recebeu emenda do Master em envelope, diz investigação

'Saiu exatamente como mandei': Ciro Nogueira recebeu emenda do Master em envelope, diz investigação

'Saiu exatamente como mandei': Ciro Nogueira recebeu emenda do Master em envelope, diz investigação

Folha

Marcos HermansonJúlia Moura

Brasília e São Paulo

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) reproduziu na íntegra uma emenda produzida pelo Banco Master e depois apresentada ao Senado que buscava ampliar para R$ 1 milhão a cobertura de investimentos garantidos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), afirmou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, em decisão que autorizou operação de busca e apreensão contra o parlamentar nesta quinta-feira (7).

Segundo a decisão, o conteúdo teria sido elaborado pela equipe do banco e enviado em um envelope para a casa do senador. "De acordo com a Polícia Federal, o conteúdo da versão entregue é 'reproduzido de forma integral pelo parlamentar' ao Senado", diz o ministro na decisão.

Ainda fazendo referência à investigação da PF, Mendonça cita afirmação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, logo após a publicação da proposta de emenda: "saiu exatamente como mandei".

Procurada pela reportagem, a defesa de Ciro Nogueira afirmou repudiar ilações de ilicitude, "especialmente em sua atuação parlamentar", e disse que o senador está comprometido a contribuir com a Justiça para esclarecer que não participou de atividades ilícitas.

Homem de meia-idade veste paletó bege e camisa azul clara, sentado em cadeira preta em ambiente interno com cortinas claras. Bandeira com listras verdes, amarelas e azuis está ao fundo à esquerda.

O senador Ciro Nogueira em entrevista para a Folha em seu gabinete, em Brasília, em setembro de 2025 - Gabriela Biló/Folhapress

"Segundo os autos, o texto da emenda foi elaborado pela assessoria do Banco Master, encaminhado por André Krushewsky Lima [diretor do banco] a Daniel Vorcaro, impresso e entregue em envelope endereçado 'Ciro', no endereço residencial do senador, coincidente com aquele constante de seus dados fiscais", afirma ainda a sentença de Mendonça, sempre citando conteúdo da investigação da PF (Polícia Federal).

A emenda, apelidada de "emenda Master" nos bastidores do Congresso, beneficiaria o banco ao aumentar o volume de recursos garantidos pelo FGC, atraindo mais investidores para os CDBs (Certificados de Depósito Bancário) vendidos pela instituição.

O projeto era importante para o banco de Vorcaro porque visava a ampliação da cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Assim, os investidores dos CDBs (Certificados de Depósito Bancário) que a instituição vendia poderiam colocar mais dinheiro no banco, sem risco de calote.

Os CDBs do Master eram oferecidos como os mais rentáveis do mercado, vendidos com o atrativo de terem a cobertura do FGC, que assegura pagamento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em ativos de renda fixa.

O objetivo era aumentar a captação de dinheiro via CDBs, o que poderia dar uma sobrevida à instituição, cuja operação se mostrou fraudulenta.

Sem ativos de qualidade, o Master dependia da venda desses títulos para seguir operante. Além disso, investigações anteriores mostraram que parte do dinheiro captado pelo Master acabou desviado do banco, inclusive para familiares.

A investigação da PF aponta que interlocutores do banco disseram que a medida "sextuplicaria" o negócio do Master e provocaria verdadeira "hecatombe" no mercado.