Cuba diz que saída de Díaz-Canel do poder não será negociada

Cuba diz que saída de Díaz-Canel do poder não será negociada

Cuba diz que saída de Díaz-Canel do poder não será negociada

  • Exigência americana foi revelada por imprensa do país; Rubio também negou planos para destituir líder
  • Havana reconheceu que mantém diálogo com Washington para por fim a bloqueio de petróleo

 

Havana | Reuters

O regime de Cuba rejeitou nesta sexta-feira (20) qualquer possibilidade de negociação com os Estados Unidos que envolva a saída de Miguel Díaz-Canel do poder. Segundo reportagens da mídia americana, funcionários da Casa Branca que negociam o futuro da ilha sinalizaram a membros do regime que o atual líder deve ser deposto e que os próximos passos ficariam a cargo dos cubanos.

"Posso confirmar categoricamente que o sistema político de Cuba não está em negociação e nem o cargo de qualquer autoridade cubana", afirmou o vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, em uma conversa com jornalistas. Na quarta (18), o chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Marco Rubio, já havia negado a informação.

Homem de cabelos grisalhos, vestindo terno azul e camisa clara, sentado em cadeira preta, com mão no queixo em postura pensativa durante reunião. À frente, bandeira de Cuba em suporte, microfone e caderno sobre mesa.

O líder de Cuba, Miguel Díaz-Canel, durante cúpula do Brincs no Rio de Janeiro - Pablo Porciuncula - 7.mar.26/AFP

A questão vem à tona uma semana após Díaz-Canel reconhecer, em um raro pronunciamento na televisão, que a ilha negocia com os EUA uma forma de encerrar o bloqueio de petróleo imposto por Donald Trump.

Cuba não recebe combustíveis há três meses, o que intensificou a crise econômica e humanitária. A ilha tem convivido com apagões de até 20 horas diárias, hotéis fechados, voos cancelados, suspensão de coleta de lixo e interrupção de serviços básicos.

O jornal USA Today, citando duas pessoas com conhecimento dos planos do governo americano, afirmou que Trump estaria preparando um acordo econômico com Cuba que incluiria a flexibilização de restrições comerciais, mas também uma espécie de saída para o atual líder cubano.

Cuba em crise energética e sob ameaça dos EUA

 

Já o The New York Times, com base em quatro pessoas familiarizadas com as negociações, informou que o governo dos EUA estaria tentando retirar Díaz-Canel do poder antes do fim de seu mandato, além de antecipar o fim de seu período como líder do Partido Comunista, que se estenderia por mais cinco anos.

Segundo as reportagens, a proposta americana não afetaria diretamente Raúl Castro que, aos 94 anos, permanece como uma das figuras mais influentes da política cubana. Após Rubio negar as informações, o The New York Times rebateu os comentários e disse que a apuração é "real e precisa".

Um eventual acordo nesses moldes lembraria o que ocorreu recentemente na Venezuela, onde os Estados Unidos depuseram o ditador Nicolás Maduro em 3 de janeiro. Desde então, sob pressão de Washington, a líder interina Delcy Rodríguez vem realizando uma série de mudanças antes impensáveis no país, incluindo a abertura econômica do setor petroleiro.

 

A estrutura de poder em Cuba, entretanto, é mais dispersa do que na Venezuela ou durante os anos iniciais da Revolução Cubana. Ela está distribuída entre dirigentes do Partido Comunista, membros do governo e as Forças Armadas, ao contrário da forte concentração de poder que marcou o período sob Fidel e Raúl Castro desde 1959 até a chegada de Díaz-Canel à liderança do regime.

O vice-ministro De Cossío, que chefia a área do ministério cubano responsável pelas relações com os EUA, evitou dar detalhes sobre as negociações, sem informar onde ou quando os encontros estão sendo realizados.

Ele destacou, no entanto, que há diversos temas de interesse mútuo em discussão, como a retomada do comércio bilateral, interrompido pelo embargo econômico imposto pelos Estados Unidos em 1960.

Outro ponto sensível envolve reivindicações financeiras históricas entre os dois países. Cuba cobra indenizações pelos prejuízos causados pelo embargo, enquanto há 5.913 pedidos de cidadãos americanos por propriedades que foram nacionalizadas após a Revolução de 1959.

Enquanto a crise perdura, comitivas de diferentes países, incluindo Brasil, México e até Estados Unidos estão organizando o envio de ajuda humanitária a Cuba. As mobilizações fazem parte da flotilha Nuestra América Convoy, que reúne organizações sociais de diferentes países para ajudar a ilha. A meta do grupo é reunir ao menos meia tonelada de medicamentos.

Uma delegação de 140 ativistas partiu de Miami, na Flórida, rumo a Cuba levando cerca de 2.000 quilos de ajuda médica, segundo organizadores. Do México, embarcações como os veleiros Friendship e Tigger Moth zarparam de Isla Mujeres carregadas com doações. Outros grupos também partiram de Puerto Progreso, em Yucatán.