62 anos do golpe: ‘Jango foi o político mais injustiçado do país’, diz filha do ex-presidente

62 anos do golpe: ‘Jango foi o político mais injustiçado do país’, diz filha do ex-presidente

62 anos do golpe: ‘Jango foi o político mais injustiçado do país’, diz filha do ex-presidente

Diante dos resquícios do regime ainda presentes no Brasil, resgatar legado de Jango é necessário, diz Denise Goulart

Denise e João Goulart durante exílio no Uruguai

Denise e João Goulart durante exílio no Uruguai | Crédito: Reprodução

31 de março marca uma das datas mais emblemáticas da história do Brasil, já que naquele dia, em 1964, o país sofreu um golpe que implementou, durante 21 anos, um regime militar marcado pela repressão, autoritarismo e conservadorismo. 

O golpe depôs o então presidente brasileiro João Goulart, conhecido como Jango, que vinha construindo uma forte campanha por reformas de base, como a agrária, a educacional, a política e a fiscal. Jango foi um dos milhares de exilados obrigados a abandonar o país.

“O meu pai foi e ainda é o político mais injustiçado neste país. Porque, além de não ter existido um pedido formal de desculpas para a família, durante todo o tempo da ditadura tentou-se fazer com que ele fosse esquecido, que o governo dele fosse esquecido e que a pessoa dele fosse esquecida, mais do que qualquer outro. E ele não teve, em 1979, quando todos esses exilados políticos voltaram, a oportunidade de voltar”, destaca Denise Goulart, historiadora e filha do ex-presidente Jango, ao Conversa Bem Viver

Em um Brasil que ainda guarda resquícios do regime e no qual setores, em especial da extrema direita, pedem pela volta da ditadura militar, para Denise, resgatar o legado de João Goulart e explicitar quais foram as consequências do golpe para a sociedade e para aqueles que foram perseguidos ainda é uma necessidade atual. 

“É sempre importante relembrar essa data e não esquecer de tudo que aconteceu em 1964. Jango morreu por causa da ditadura, aos 57 anos. Meu pai já estava totalmente desiludido, triste, vivia em uma angústia de não saber se ia voltar ou quando poderia voltar. No final da vida, também não sabia mais para onde ir, porque não podia voltar para o Brasil, não podia mais ir para o Uruguai e não podia ficar na Argentina. Essa situação ficou muito difícil para ele”, relembra Denise Goulart. 

A filha de Jango também comenta sobre o atual cenário enfrentado por Cuba, diante do endurecimento dos ataques e bloqueios dos Estados Unidos à ilha. “Eu acho um absurdo, uma atrocidade e uma crueldade”.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: O que você se lembra daquele 31 de março de 1964?

Denise Goulart: É sempre importante relembrar essa data e não esquecer de tudo que aconteceu em 1964. Eu não tenho uma memória clara do dia do golpe, do dia das movimentações. Eu só tenho algumas memórias — que podem ser coisas que me contaram também — sobre a saída da Granja do Torto, que era onde nós morávamos. O meu pai nunca quis morar no Palácio. Morou um tempo no Palácio da Alvorada, mas preferiu morar na Granja do Torto.

E o que eu lembro, e que minha mãe me conta também, é que, de noite, quase no final da tarde, chegaram vários militares lá e disseram que ela tinha que sair com os filhos, pois, do contrário, ela poderia ser presa. Eu lembro que João Vicente e eu éramos muito pequenos, não sabíamos o que estava acontecendo, e eu sei que a minha mãe disse que nós íamos viajar.

Ela arrumou — e isso ela conta — uma mala para nós e outra para ela, porque teve que sair às pressas. Deixou tudo dela: lembranças, fotos, documentos, presentes que eles ganhavam, nossos cachorros. Deixou tudo para trás e obedeceu às ordens de que nós teríamos que sair de lá.

Meu pai, ela não sabia ainda onde estava, porque ele estava no Brasil, mas, de Brasília, ele foi para o Rio Grande do Sul. E do Rio Grande do Sul, depois, é que ele foi para o Uruguai. Então, a gente viajou com a minha mãe: João Vicente, minha mãe, eu e um piloto, que era o piloto particular do meu pai, o Mané Coelho. Eu lembro que perguntei para ele e para a minha mãe onde nós íamos. 

Minha mãe estava muito séria, muito preocupada. Perguntei: “Mané, para onde é que a gente está indo?”. Aí ele falou — e isso realmente é uma lembrança muito clara que eu tenho: “Nós vamos dar um pulinho no Uruguai”. Anos depois eu dizia: “Credo, um pulinho no Uruguai que durou 12 anos”. Então, mais ou menos disso eu lembro.

Depois, lembro da preocupação da minha mãe quando nós estávamos já no Uruguai. Não foi em Montevidéu, mas foi para outro lugar. Uma praia muito distante e solitária que se chama Solimar — continua solitária até hoje, perto de Montevidéu. E minha mãe estava muito preocupada porque não sabia onde meu pai estava. E nós não podíamos sair de casa. Havia muitos jornalistas perto, vizinhos querendo saber o que estava acontecendo. Minha mãe estava muito aflita. Ela ficou assim durante muitos dias até meu pai chegar.

E a senhora se lembra quando conseguiu voltar para o Brasil? Em que momento se sentiu em casa?

Eu lembro que nós saímos de lá do dia 31 para o dia 1º, não lembro exatamente. O meu pai parece que chegou em Solimar também com o Maneco. E aí passaram uma longa temporada de 12 anos. Primeiro fomos para Montevidéu. Moramos lá por 11 anos. Depois que ficamos vários dias, talvez um mês nesse lugar, que era uma casa de uma pessoa da embaixada do Brasil no Uruguai que emprestou para o meu pai, nós fomos para Montevidéu para morar realmente e começamos a estudar. Começamos uma vida lá.

Depois de algumas semanas ou um mês no hotel, meu pai alugou um apartamento, onde moramos. Moramos em Montevidéu até o golpe de Estado lá, em 1974. O meu pai começou a se sentir ameaçado. Ele era convidado a depor em uma delegacia ou algo assim, pois os militares pediam para ver se ele estava fazendo política ou terrorismo no Uruguai. Então começou essa perseguição, e o meu pai disse que não ia mais se sujeitar a isso.

Enquanto isso, na Argentina, o Perón estava voltando. Meu pai ficou amigo do Perón, inclusive foi convidado por ele para ir a Espanha conversar. Ele teve esse encontro e o Perón contou que estava voltando, que haveria eleições e que provavelmente ele seria eleito presidente. Convidou a família a morar na Argentina porque sabia que a situação no Uruguai estava muito perigosa, principalmente para as pessoas exiladas e aquelas que lutaram contra o regime da ditadura no Brasil.

Nós fomos para a Argentina e ficamos um ano em Buenos Aires. Depois ocorreram os mesmos acontecimentos: o golpe de Estado na Argentina e a morte do Perón. Ficamos sem saber para onde ir. João Vicente e eu fomos ameaçados por um grupo paramilitar na Argentina, que dizia que uma das ações deles seria sequestrar os filhos de João Goulart. Meu pai ficou realmente apavorado, minha mãe também, e aí nós fomos morar em Londres.

Moramos um ano em Londres, mas o meu pai ficou entre a Argentina e o Uruguai, porque tinha negócios lá e não podia abandonar tudo de repente. Ele ficou pensando sempre com aquela esperança de voltar para o Brasil. O tempo de exílio dele, de dez anos, inclusive, já tinha acabado. Só que continuavam não deixando ele voltar. Quando ele pedia para as pessoas verem como estava a situação, diziam-lhe que, se voltasse, ele seria preso e o governo não se responsabilizaria pelo que acontecesse com ele.

Houve recentemente o reconhecimento da morte de Rubens Paiva e de Carlos Marighella, com o Estado assumindo que realmente foi o governo brasileiro que matou essas pessoas, e que elas não “desapareceram”. Embora não tenha sido um assassinato direto como aconteceu com o seu pai, foi uma perseguição que durou anos. Como foi esse processo?

Perseguição, sim. A gente não sabe se não foi um assassinato realmente. Ele morreu por causa da ditadura, aos 57 anos. Meu pai já estava totalmente desiludido, triste, vivia em uma angústia de não saber se ia voltar ou quando poderia voltar. No final da vida, também não sabia mais para onde ir, porque não podia ficar no Brasil, não podia voltar para o Brasil, não podia mais ir para o Uruguai e não podia ficar na Argentina. Essa situação ficou muito difícil para ele.

Faz falta um pedido de desculpas, da forma que outras lideranças importantes tiveram?

Eu acredito — e este é um pensamento meu — que o meu pai, o presidente Goulart, foi e ainda é o político mais injustiçado neste país, porque, além de não ter esse pedido formal de desculpas para a família, durante todo o tempo da ditadura tentou-se — e durante muito tempo conseguiram — fazer com que ele fosse esquecido, que o governo dele fosse esquecido e que a pessoa dele fosse esquecida, mais do que qualquer outro. E ele não teve, em 1979, quando todos esses exilados políticos voltaram, essa oportunidade.

E vou dizer uma coisa, com muita tristeza: ele não foi esquecido só pelos militares ou pela extrema direita; ele foi esquecido pelas esquerdas também.

Duas semanas antes de morrer, em 2004, Leonel Brizola chamou a senhora para dizer que queria pedir desculpas por ter enfrentado seu pai, dizendo que ele não deveria ter se exilado, mas resistido e enfrentado os militares. De fato isso aconteceu?

Aconteceu de fato. É verdade. Duas semanas antes — e ele estava muito bem, ninguém sabia que ele ia morrer duas semanas depois — uma amiga minha, que tinha sido secretária e assessora do Brizola, me ligou e disse que ele queria que eu fosse à casa dele. Marcou o horário para às 11h ou 11h30 da manhã, dizendo que precisava muito falar comigo. Eu disse: “Tudo bem, eu vou”.

Fui à casa dele. A Ana estava junto, e um sobrinho meu do Rio Grande do Sul, que estava hospedado em casa, também foi. Naquele momento, depois de muita conversa sobre o exílio e sobre tudo o que tinha acontecido, ele falou sobre tudo o que aconteceu com a gente, sobre problemas com os filhos, tanto dele quanto do meu pai. Ele disse que entendia que a responsabilidade e a culpa por todo esse sofrimento que causaram para a gente, por toda essa instabilidade emocional, por ter que percorrer países, não era nossa, era deles, e que ele pedia desculpas por isso.

Mas, principalmente, ele queria me pedir desculpas porque, naquele momento em 1964, ele discordou totalmente e eles brigaram porque meu pai não quis resistir e ele continuou insistindo na resistência. Nesse momento eles romperam. 

E ele queria me pedir desculpas porque disse: “Hoje eu dou toda razão ao Jango. Não tínhamos condições de resistir, não havia a mínima condição. Então, eu quero pedir desculpas por isso também, porque eu me desentendi com o seu pai e nos separamos durante 12 anos. Não nos falamos morando na mesma cidade, e hoje eu quero pedir desculpas, porque eu reconheço que o Jango tinha razão”.

Isso foi na casa dele. Duas semanas depois ele morreu. E ele não sabia que estava próximo da morte, ele estava bem. Foi uma forma de ele se reconciliar com toda a história e com o meu pai. Foi importante ele ter conseguido falar isso. Eu até comentei depois disso com o João Otávio, um dos filhos de quem eu era bem amiga, e ele disse: “Nossa, que estranho, porque meu pai nunca pediu desculpas para ninguém”.

Como você passou a dialogar com a sociedade sobre o legado de Jango? Em algum momento você pensou em não se vincular à história do seu pai politicamente?

Eu não sei como foi realmente, acho que isso foi acontecendo para mim. Desde o momento em que voltei para o Brasil, eu queria entender muitas coisas que não entendia no exílio. Meu pai já tinha morrido, então optei por fazer faculdade de História. Era importante para mim conhecer mais a história, não só a do meu pai.

E eu acho que essas coisas aconteceram naturalmente. Pelo menos com as minhas filhas, elas dizem que desde pequenas eu falava sobre a importância da memória. Como ela faz falta e como você precisa ter memória das coisas. Eu sempre falei muito com as minhas filhas sobre ele. É como se elas já o conhecessem, porque sempre entenderam e compartilharam a nossa história como se fosse delas também — e é. 

Nunca tive problemas com elas sobre isso, mas reforcei muito a importância de relembrar a história e de não deixar que esquecessem de onde vinham. Para mim foi muito natural. Esse movimento de relembrar, de escrever sobre isso e de não deixar que tudo aquilo fosse esquecido — principalmente o meu pai — foi acontecendo naturalmente, tanto para mim quanto para o meu irmão. 

O meu irmão até seguiu a carreira política, eu não, mas nunca deixei de falar sobre isso. Várias vezes, quando me entrevistavam, eu fazia questão de falar sobre a pessoa que ele foi, o ser humano que ele foi, não só o homem presidente.

A senhora foi uma das protagonistas na articulação e produção do documentário de Silvio Tendler sobre o Jango, que foi um estouro de audiência na época. Como você avalia essa produção?

É impressionante e fundamental. E não foi feito agora, foi lançado ainda na ditadura. Para mim, foi o primeiro documentário que falou abertamente sobre isso. E o que é muito importante — e com certeza o Silvio não fez isso só porque eu fui produtora, até porque deixei claro que queria produzir o filme, mas não interferiria na criação dele — é que aquela foi a primeira obra, em termos de filme ou livro, que falou sobre o meu pai. Antes não se falava. Ele teve a coragem de falar abertamente sobre o golpe e sobre o governo dele numa época em que ainda vivíamos na ditadura.

Você esteve recentemente em Cuba. Como está avaliando o cenário na ilha, que sofre com ataques dos Estados Unidos?

Eu acho um absurdo, uma atrocidade e uma crueldade. Não me surpreende, vindo dos Estados Unidos e de figuras como Trump, mas hoje é uma questão humanitária. Independe de você gostar ou não de Cuba ou do regime, é uma questão de solidariedade apoiar e fazer algo pelo povo cubano. Mais uma vez, há a intervenção americana, como fizeram no Brasil ou como tentaram fazer. Agora estão de olho em Cuba e na Venezuela. A situação é muito triste em termos de saúde e educação, e é um absurdo porque a maioria dos países está calada a respeito disso.

Eu presto toda a minha solidariedade. Fui duas vezes a Cuba: a primeira em 1983 para lançar o filme “Jango” no Festival de Cinema, quando conheci o Fidel em um jantar para jornalistas e cineastas. Fui maravilhosamente recebida e me encantei com o povo cubano. 

Voltei há dois anos e já vi uma diferença; as pessoas estão precisando de mais ajuda. Agora a situação é caótica e desesperadora. Peço que as pessoas ajudem, não só financeiramente, mas denunciando esse bloqueio, que é uma crueldade. As pessoas estão morrendo de fome e por falta de saúde e educação. É realmente muito triste.