Um país polarizado e um repórter brincando com fogo

Um país polarizado e um repórter brincando com fogo

Um país polarizado e um repórter brincando com fogo

Memórias do Jornalismo: A direita trama o golpe de 1964, mas Brizola, Jango e os que querem mudar o país têm raízes na sociedade. Surgem rachas nos jornais. Ao relatar o fiasco de uma reunião de pelegos sindicais financiada pela CIA, descobre-se a “regra do jogo”

OutrasPalavras

História e Memória

Por 

 

Fotografia que elucida sobre a polarização e as ideias populares sobre revolução, reforma e pensamento político. O público do Comício da Central reunia uma frente ampla em prol das Reformas de Base. Essa imagem do Arquivo Nacional retrata essa diversidade e as causas presentes.

Boletim Outras Palavras

 

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O texto a seguir compõe a série Passageiro da História, memórias de Carlos Azevedo.
Leia também:
Carlos Azevedo, Passageiro da História
[1] O dia em que Jânio Quadros renunciou
[2] Memórias do jornalismo: A Semana da Legalidade

Escrevo em 2026, quando as pessoas reclamam que o país está politicamente polarizado. Eu me pergunto quando não esteve (talvez nos dois primeiros governos de Lula?). Em setembro de 1961, depois da misteriosa renúncia de Jânio Quadros, João Goulart assumiu a presidência da República obrigado pela direita golpista, com respaldo da cúpula militar, a renunciar a parte de seus poderes e aceitar um parlamentarismo improvisado. Mas isso não era pacífico. A maioria da população apoiava Jango e as forças armadas estavam divididas entre legalistas e golpistas num clima de radicalização.

Jango era o herdeiro político do presidente Getúlio Vargas, que se suicidou em 24 de agosto de 1954 para evitar mais um golpe militar. Homem de espírito conciliador e bom negociador decidiu aceitar o parlamentarismo mesmo discordando de Leonel Brizola. Os dois eram mais que aliados políticos e líderes varguistas. Eram amigos e cunhados; Leonel havia se casado com uma irmã de Jango.

 

O governador do Rio Grande do Sul havia corrido grandes riscos para garantir a posse de Jango. Mobilizou e reforçou o armamento da Brigada Militar, organizou a rede de rádio da legalidade, pela qual fez discursos inflamados e mobilizou o país. Sob grande tensão e ameaça de atentado da direita militar que se opunha à volta do vice-presidente, Brizola organizou seu retorno ao Brasil vindo de Montevidéu a Porto Alegre. Divulgou que Jango viajaria por terra, mas veio num voo secreto da FAB, de madrugada, com todas as luzes apagadas.

Lembro que em 28 de agosto aviões da FAB sediados em Porto Alegre ameaçaram bombardear o Palácio Piratini. Jornalistas que estavam ali me contaram (eu cheguei logo depois) que ficaram em pânico. Entrementes os sargentos se rebelaram. Conta-se que sabotaram as aeronaves pondo açúcar nos tanques de combustível. Em seguida, o oficial comandante foi deposto e preso pelos outros oficiais, que aderiram à legalidade.

Brizola e a FAB viabilizaram um voo num Douglas DC-3 para os jornalistas (inclusive alguns estrangeiros como o estadunidense Juan de Onis, do The New York Times) e fomos esperar Goulart na capital uruguaia. Lá se encontravam vários políticos, entre eles o deputado federal Tancredo Neves, negociando as condições para o retorno. Anoiteceu e eu, que vestia roupa leve, comecei a passar frio. Jango concedeu uma rápida entrevista coletiva, em tom conciliador. Aproveitei para enviar um telegrama (tinha franquia de uma rede internacional, um cable, que se comunicava por um cabo submarino) para o jornal relatando os acontecimentos.

Frio mesmo para valer eu e os outros jornalistas sofremos a bordo do DC-3 da FAB na volta a Porto Alegre. Avião militar, assentos de madeira em espinha de peixe encostados à fuselagem, na qual havia orifícios por onde entrava um vento gelado. Nós ficamos entanguidos. Eu me enrolei em folhas de jornal e me deitei no corredor. Apesar do gelo consegui dormir durante a maior parte do tempo do voo, que demorou algo como uma hora. O que é ter 20 anos de idade!

Ao chegar ao aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, mudança completa. Fazia um tremendo calor abafado e saí suando do saguão para procurar um taxi na madrugada. Não tenho a menor ideia de como cheguei ao hotel.

O governador Brizola mostrou todo o tempo sua capacidade de liderança. Foi o protagonista que concretizou a volta de Jango ao país. Sem sua atuação determinada o vice-presidente não teria conseguido voltar e menos ainda assumir a Presidência. Mobilizou sua equipe e a oficialidade da Brigada Militar, que aderiu com entusiasmo e competência. E preparou-se para a resistência armada. Além disso se aliou ao setor legalista do Exército. Seu palácio de governo sofreu ameaça de ser bombardeado pela FAB. Se tivesse sido derrotado, no mínimo teria sido enfurnado numa prisão.

As negociações continuavam freneticamente com Goulart hospedado no Palácio do governo. Brizola avaliava que a conjuntura era favorável e não via motivo para recuos. Era momento de avançar. Jango argumentava que se não houvesse concessões o país poderia ser levado a uma guerra civil. Consta que os dois protagonizaram uma discussão tumultuada. Ao aceitar a imposição reacionária para assumir a Presidência Jango justificou-se dizendo que não queria ver derramado o sangue dos seus compatriotas.

 

O presidente não estava sozinho. Tinha apoio popular, no forte movimento sindical urbano, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), varguista, influenciado pelo Partido Comunista Brasileiro, este liderado pelo prestigiado Luís Carlos Prestes. Tinha apoio nas Ligas Camponesas, movimento rural radicalizado defendendo reforma agrária “na lei ou na amarra”. Uma parte das forças armadas, legalista, apoiara sua posse.

Contava com a adesão do então poderoso movimento estudantil liderado pela UNE – União Nacional dos Estudantes. No Congresso, era apoiado por uma bancada combativa baseada no PTB (infiltrado pelo PCB, mantido na clandestinidade), do Partido Socialista Brasileiro (PSB), e de setores da Democracia Cristã. Tinha influência mesmo entre membros do Partido Social Democrata (PSD), de direita, aliado da extrema direita golpista União Democrática Nacional (UDN). O debate era intenso e se dava sob a sombra da Guerra Fria, na qual a União Soviética apoiava movimentos anticoloniais e pela independência de países da África, Ásia e América Latina, e os Estados Unidos rebatiam promovendo golpes de estado e movimentos antiguerrilha como em Angola.

Habilidoso negociador, Jango trabalhou pela retomada da plenitude de seus poderes, que iria conseguir com a consulta ao eleitorado pelo plebiscito de 1962 e a volta ao presidencialismo.

Na imprensa ferviam as polêmicas envolvendo os jornais empresariais – Estado de S. Paulo, Globo, Diários Associados, Folha, todos à direita, contra Jango, acenando com a ameaça comunista. Em apoio a Jango a vitoriosa Última Hora, de Samuel Wainer. Uma rede com jornais no Rio, em São Paulo, Recife e Porto Alegre, que praticava um jornalismo popular, vibrante. E mais uma miríade de jornais comunistas, socialistas, sindicais. Que apoiavam e criticavam Jango defendendo avanços mais significativos.

E havia avanços. Na verdade, o governo de João Goulart foi o mais progressista de nossa história. Promoveu importantes benefícios para os trabalhadores, garantiu amplas liberdades democráticas suportando calunias e críticas violentas vindas da grande imprensa liderada pelo tão brilhante quanto maléfico Carlos Lacerda, atuando com retórica inflamada tanto por meio de seu jornal Tribuna da Imprensa como por programas em série pela televisão.

A plataforma das Reformas de Base – agrária, urbana, universitária etc., e os programas de organização sindical e de alfabetização no campo eram revolucionários e foram alvo do ódio e repressão assassina da ditadura militar desde o momento em que se implantou pela força. Mantido, o governo de João Goulart teria transformado o Brasil.

A radicalização estava presente em tudo. A direção do “Estadão” conspirou para Jango não tomar posse e continuou conspirando contra o presidente desde o primeiro dia de seu governo. Internamente começou a ocorrer um processo que era novidade no jornal dos Mesquita. Insinuava-se o início de um “racha” entre jornalistas de esquerda e de direita que algum tempo depois iria dividir a redação e provocar demissões, inclusive do seu diretor e modernizador, Claudio Abramo.

Em seu livro A Regra do Jogo, na página 39, afirma: “a partir desse ponto a equipe do jornal se dividiu entre esquerdistas e direitistas; a crise que o país atravessava se instalou na redação, terminando com a saída gradativa de todo um grupo”.

Eu, por ser o mais bobo, fui o primeiro.

No final de 1961 houve a histórica greve dos jornalistas, apoiada pelos gráficos. Da qual participei parcialmente porque sofri um ataque de malária que havia contraído durante uma reportagem no rio Paraná, logo no rio de minha paixão no qual navegara tanto na infância e adolescência sem sofrer nada.

Na verdade, eu não tinha a menor importância. Naquela redação de centenas de funcionários era apenas mais um novato. Mas eu tinha ideias de esquerda, uma espécie de inconformismo contra as desigualdades, inspirado em Alexandre Dumas, Monteiro Lobato, Jorge Amado. Considerava-me nacionalista, defensor da Petrobras desde a adolescência, típico de jovens de classe média. Num piquete durante a greve falei mal dos Mesquita numa roda onde havia um dedo duro. Acho que a partir daí direção do jornal ficou de olho em mim. Apesar disso, em janeiro de 1962 eu ainda estava lá, entrevistando Osvaldo Dorticós Torrado, então presidente de Cuba revolucionária.

No livro, Abramo conta que ao enveredar para a conspiração contra João Goulart e a esquerda o “Estado” publicou editoriais “típicos como um que dizia que ser comunista ou esquerdista era um problema endocrinológico; as glândulas não funcionavam bem no sujeito, ele ficava comunista”.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos estava envolvido através da CIA e da USAID na conspiração. Temendo uma revolução no Brasil os EUA estavam infiltrando espiões, consta que cerca de 6 mil, pelo país. Investiram pesado em candidatos ao Parlamento nas eleições de 1962, através de um tal de IBAD, com resultados pífios. E financiaram a criação do IPES – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, na verdade um órgão de espionagem e propaganda contra o governo de Jango. Depois todos vimos o monstro em que ele se tornou a partir do golpe de 1964.

Lembro que em algum momento fui procurado pelo Ênio Pesce, um repórter político da Folha com o qual às vezes conversava. Ele me contou que estava trabalhando num tal de IPES, redigindo notícias de sua área. Estavam pagando bem. Não sei se ele queria me convidar a participar. Mas eu desconfiava desse negócio que, aliás, a esquerda estava denunciando como coisa do imperialismo. Mostrei desinteresse. Então me perguntou se eu achava certo ele trabalhar nisso. Percebi que estava querendo aprovação. Desconversei, disse que cada um deve saber o que fazer.

A situação estava ficando perigosa, mas eu não me dei conta. E vejam só como numa espécie de Forrest Gump acabei vitimado, engolido nas engrenagens de uma trama internacional da Guerra Fria. A USAID, a pretexto de apoiar a liberdade sindical para confrontar o crescimento do sindicalismo que considerava comunista, criou um chamado Movimento Sindical Democrático (MSD), que viria a ser o motivo de minha demissão do “Estadão”. Era um movimento fantasma, financiado pela USAID, que comprou pelegos e picaretas e existia mais nas páginas do “Estadão” do que em qualquer lugar no movimento sindical.

O MSD organizou o que seria uma grande demonstração de força e anunciou que iria conduzir seus militantes em 200 ônibus a Aparecida do Norte no sábado 17 de março de 1962. Como de costume, os repórteres “da casa”, e os mais experientes, se escafediam nos finais de semana. Era um evento sindical, mas o setorista sindical não assumiu. Coube a mim fazer a cobertura do evento. De manhã parti para Aparecida numa kombi do jornal, acompanhado de Ivo Barretti, o mesmo fotógrafo que esteve comigo na Semana da Legalidade, em Porto Alegre, no ano anterior.

Chegando lá pelo meio da manhã Ivo e eu observamos que havia numerosos ônibus no estacionamento. Os seus passageiros, na maioria famílias, haviam confluído em massa para a igreja e por lá ficaram. Descobrimos que simultaneamente se realizava uma espécie de assembleia do MSD em um salão de um prédio vizinho. Tinha todo jeito de uma reunião improvisada. Ali se encontravam alguns daqueles pelegos e picaretas pagos pela USAID lendo moções de apoio de entidades apelegadas, como sindicatos de comercio e semelhantes, para um público de uns sessenta homens, todos em pé, pois não havia cadeiras. Um público desatento, desinteressado, como se estivesse ali por obrigação.

Ivo Barretti fotografou detalhadamente a “assembleia”. Ficamos algum tempo ali e, sem maiores novidades, fomos embora. Lembro que paramos, se não me engano, no Restaurante dos Quinhentos, à margem da Via Dutra para almoçar. Fui para o jornal, fiz o texto contando o que havia observado, entreguei para a editoria e fui encontrar a namorada.

Concordo com Claudio Abramo quando em seu livro escreve que jornalismo objetivo é uma falácia, não existe. Os fatos podem ser narrados objetivamente, mas sempre a partir da subjetividade do jornalista que os registra. Acrescente-se que eu tinha posição sobre o tal MSD. Era evidente e eu sabia que se tratava de uma farsa descarada, uma ação imperialista. Reconheço que essa minha percepção me levava a ter má vontade com aquele evento. O que influenciou o conteúdo do texto que escrevi.

A matéria foi publicada na edição de domingo. E eu tive mais um ataque de malária, fiquei de cama com febre domingo e segunda-feira. Na terça-feira fui para o jornal. Ao entrar na redação um daqueles velhos contínuos que ali serviam me disse: “é para o senhor subir ao Departamento Pessoal”.

Subi as escadas para o 6º. Andar. Estava pálido e abatido pela febre da malária. Entrei na sala e um funcionário que eu não conhecia, em tom agressivo, me disse: “O senhor está demitido! Aqui estão suas contas”. Eu já estava pálido, mas lembro que amarelei tamanho foi o susto que levei!

Acho que nem se falou mais nada, nem ele, nem eu!

Atordoado, desci para a redação, Claudio Abramo estava sentado em sua mesa. Fui falar com ele. “Claudio, o que aconteceu?” Ele, com ar indiferente, talvez porque estávamos em público, me disse qualquer coisa que não lembro, mas era algo assim como se eu não tivesse feito a coisa certa naquela matéria.

Ainda argumentei: vocês viram as fotos do Ivo Barretti? Sem resposta. Mais tarde Claudio Abramo escreveu em seu livro, A Regra do Jogo, que a regra é a seguinte: como jornalista, ao vender sua força de trabalho ao dono do jornal, você procura apresentar os fatos objetivos, ter ética. Não existe uma ética do jornalista. A ética que existe é a mesma para todos, é a ética do cidadão. Mas Claudio entra em contradição em seguida quando diz: “evidentemente a empresa tem sua ética, que é a dos donos”.

Então a empresa não precisa seguir a ética do cidadão. Ela segue suas opções políticas ou econômicas negando quando lhe convém os fatos objetivos. Foi o que aconteceu durante a Semana da Legalidade quando o “Estado” desmentiu em suas páginas a matéria objetiva que eu havia enviado de Porto Alegre.

Ninguém naquela redação se aproximou de mim, nem naquela ocasião nem depois. Nem Vlado, nem Gambirásio, nem Weiss. Nem mesmo alguns que eu havia apresentado ao jornal, como Antônio Pimenta Neves. Parecia que eu havia pegado uma doença contagiosa. Também não procurei ninguém. Página virada.

No seu livro Abramo me cita (página 33) entre os jovens entusiastas que ele havia recrutado para renovar o jornal. Nos anos seguintes, toda vez que me encontrava me agradava e oferecia um emprego. Parece que tinha um sentimento de culpa em relação a mim. Nunca pude aceitar porque sempre estava empregado, mas também porque faltava vontade de voltar a trabalhar com ele.

Naquela ocasião fiquei possesso. Pedi a um amigo nissei, Massao Ono, dono de uma gráfica, que fizesse um panfleto de denúncia do jornal, nem lembro do texto. Peguei uma quantidade de panfletos, e na hora do almoço, quando a redação estava vazia, iludi um daqueles velhos contínuos e com durex preguei muitos pelas paredes. Percebi que Carlão Mesquita estava descendo do elevador, corri para a escada e tomei o elevador no andar inferior. Soube que ele ficou enfurecido quando viu.

Além dessa revolta juvenil eu agora tinha uma preocupação: o jornal não havia promovido meu registro como jornalista profissional no Ministério do Trabalho. Então eu nem era jornalista. Com ajuda do Sindicato dos Jornalistas negociei na Delegacia Regional do Trabalho tal registro que está lá na minha primeira Carteira de Trabalho. Havia muita gente de esquerda que me ajudou nesse episódio.

Fiquei no “Estadão” quase dois anos, desde maio de 1960 a março de 1962, primeiro como estagiário. Fui registrado em meados de1961. Na época o jornal era generoso, antes da crise de confiança deu liberdade para eu aprender a profissão enquanto a exercia. E forneceu os meios materiais para produzir as reportagens. Nunca faltou dinheiro.

Minha malária nunca mais voltou. E olha que depois disso andei pela Amazônia e vários dos que me acompanhavam pegaram malária. Meu segredo: antes de entrar no mato tomar muita vitamina B12. O pernilongo não suporta o cheiro.