Traição desde os primórdios – o Brasil que abandonou a si mesmo

Traição desde os primórdios – o Brasil que abandonou a si mesmo

Traição desde os primórdios – o Brasil que abandonou a si mesmo

Da Independência aos dias atuais, a repetição de rupturas, traições e projetos pessoais que sabotam o país

 

Por: Arthur Feitosa

Imagem gerada por Inteligência Artificial
Imagem gerada por Inteligência Artificial

A política brasileira acostumou-se a conviver com a traição como método. O rompimento de alianças, a volatilidade de compromissos e a substituição de princípios por conveniências deixaram de ser exceção para se tornarem parte da rotina institucional. Esse traço não é novo. Ele remonta a episódios decisivos e ainda insuficientemente refletidos da história política nacional.

Desde sua origem, com o fundador do Brasil independente, Dom Pedro I, que foi praticamente enxotado do país pela elite política da época, deixando aqui seu único filho varão, então com apenas cinco anos de idade. Décadas depois, esse mesmo filho, Dom Pedro II, após quase 59 anos de um reinado marcado pela pacificação interna, consolidação territorial e respeito internacional, também foi traído, não por inimigos externos, mas por antigos aliados e pela própria classe política que dele se beneficiara.

De lá para cá, nenhum período verdadeiramente pacífico e sustentado por um projeto nacional consistente foi executado sob a República. Logo em seu primórdio, o primeiro presidente civil do novo regime, marechal Deodoro da Fonseca, não completou o mandato, sendo sucedido por Floriano Peixoto em meio a graves crises institucionais. Seguiram-se escaramuças políticas recorrentes, com traições de lado a lado, inclusive no âmbito da chamada “política do café com leite”, acordo informal que concentrou o poder entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, alijando outras regiões, inclusive o Rio de Janeiro, antiga sede do Império, cuja perda de protagonismo deixou marcas profundas ainda perceptíveis na sociedade fluminense.

Para romper esse ciclo oligárquico, foi necessária a deposição armada de um presidente eleito, na chamada Revolução de 1930, que levou ao poder o gaúcho Getúlio Vargas. Este governou inicialmente como chefe de um governo provisório e, em 1937, escancarou o que já era evidente, instaurando uma ditadura no país, primeiro a partir do Palácio Laranjeiras e depois do Palácio do Catete. Nessa condição, Getúlio traiu suas promessas de normalização da vida democrática brasileira.

Há ainda um aspecto relevante de sua primeira passagem pelo poder: por pouco o Brasil não se aliou ao Eixo nazi-fascista durante a Segunda Guerra Mundial. Apenas após intensa pressão interna e, sobretudo, externa, especialmente dos Estados Unidos, o governo Vargas optou por alinhar-se aos Aliados, barganhando contrapartidas estratégicas como a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional. Terminada a guerra, Getúlio foi afastado do poder por militares e antigos aliados políticos.

Retornou em 1950, eleito pelo voto popular, para governar um país profundamente dividido entre conservadores e progressistas, situação não muito distinta da atual. O desfecho é conhecido. Pressionado, isolado e acuado, Getúlio optou pelo suicídio, deixando a vida política brasileira de forma trágica, porém inscrito definitivamente na história.

Juscelino Kubitschek, político mineiro visionário, teve papel central no desenvolvimento de Minas Gerais e, posteriormente, do Brasil, promovendo industrialização acelerada e a construção de Brasília. Eleito em 1955, sua posse só foi garantida graças à firmeza institucional do marechal Henrique Teixeira Lott, que assegurou o respeito ao resultado eleitoral.

Em seguida, elegeu-se Jânio Quadros, ex-governador de São Paulo, com um discurso moralista simbolizado pela vassoura que prometia varrer a corrupção. Como à época a eleição para vice era independente, seu companheiro de chapa foi João Goulart. Pouco mais de um ano depois, Jânio renunciou inesperadamente. Muitos analistas sustentam que pretendia retornar ao poder com poderes excepcionais. O Congresso declarou a vacância e deu posse ao vice, que se encontrava em missão oficial na China.

A posse de João Goulart encontrou forte resistência, sob a alegação de que conduziria o país ao comunismo. A solução encontrada foi a adoção do parlamentarismo, com Tancredo Neves como primeiro-ministro. O arranjo durou pouco. Jango articulou a retomada do presidencialismo e reassumiu plenos poderes, governando um país profundamente polarizado e sem base de sustentação. Em 31 de março de 1964, os militares tomaram o poder, sob a justificativa de preservar a ordem e a cidadania.

Mesmo dentro do regime militar, o período esteve longe de ser pacífico. Houve disputas internas, tentativas de radicalização e contragolpes, até que prevaleceu a linha que conduziu gradualmente à abertura política. Na eleição indireta que escolheu o primeiro presidente civil do período pós-regime, mais uma traição marcou a história: Tancredo Neves teve de aceitar como vice José Sarney, um dos principais quadros do regime militar. Tancredo não tomou posse, falecendo após longa enfermidade, e Sarney assumiu, resgatando práticas tradicionais da política nacional e estendendo seu mandato em mais um ano.

Na primeira eleição direta após o regime militar, elegeu-se Fernando Collor de Mello, que acabou afastado por impeachment, sucedido por Itamar Franco. Este, embora discreto, foi responsável pela estabilização econômica com o Plano Real, conduzido por seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.

Fernando Henrique, já presidente, promoveu a emenda da reeleição, abrindo um precedente cujas consequências se fariam sentir por décadas. Cabe lembrar que o PT votou contra o Plano Real e também se posicionou contra a Constituição de 1988, o que ajuda a compreender sua relação instrumental com as regras democráticas.

Em 2002, o país elegeu Luiz Inácio Lula da Silva, sindicalista nordestino que se tornou símbolo de esperança para milhões. Reeleito em 2006, seu governo foi marcado pelo escândalo do mensalão, esquema de compra de apoio político no Congresso, que resultou na cassação de José Dirceu e muitos outros. Lula não foi afastado e conseguiu manter-se no poder, elegendo sua sucessora, Dilma Rousseff.

Vieram então o Petrolão, os escândalos envolvendo fundos de pensão, refinarias no exterior e uma corrupção sistêmica sem precedentes, culminando no impeachment de Dilma. A reação popular levou à eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Antes disso, Lula havia sido condenado em três instâncias da Justiça Federal, sendo posteriormente solto por decisão do Supremo Tribunal Federal com base em questões processuais, sem que jamais tenha sido absolvido no mérito das acusações. Seus processos seguem como capítulo aberto da história nacional.

O fio condutor permanece o mesmo. Traições sucessivas, rupturas institucionais, projetos pessoais acima do interesse nacional. Um país que, repetidas vezes, abandona a si mesmo e insiste em não aprender com a própria história.