O dia em que Jânio Quadros renunciou

O dia em que Jânio Quadros renunciou

O dia em que Jânio Quadros renunciou

“Afinal João Goulart voltou e após negociações e concessões assumiu a presidência da República em setembro de 1961.”

 

por Carlos Azevedo

 

Foto: Arquivo Nacional

25 de agosto de 1961, um mês de agosto quente. Dia do Soldado. Parada militar em Brasília.   Tudo tranquilo na redação do jornal “O Estado de S.Paulo”, na sua majestosa sede na esquina da rua Martins Fontes com Major Quedinho, centro da capital. São duas da tarde. De repente o luminoso da frente do jornal para de dar notícias. O jornalista Raul Bastos, chefe do sistema de comunicação por telefone, rádio e telex, que se comunica com cerca de 400 correspondentes no país e no Exterior, sai de sua cabine apressado. Tem uma bomba nas mãos: o presidente da República renunciou!

Comunica a notícia a Perseu Abramo, o chefe de reportagem. Como assim? Deve ser boato. Qual é a fonte? Você confirmou? A fonte era o chefe da sucursal do jornal na capital federal que está ao telefone aos gritos. O telex começa a chacoalhar furioso, vomitando resmas de notícias que vão se estendendo pelo chão.

Alguns repórteres que estavam na redação correm para recolher a papelada, lendo afoitamente. Mas não há muitos detalhes além da grande notícia. Em Brasília, dezenas de jornalistas cercam o Palácio do Planalto, mas mesmo os credenciados não conseguem entrar. Soldados do Exército bloqueiam tudo. Há um estranho silêncio no palácio do governo.

Onde está o presidente? Ninguém sabe.

Na redação os telefones tocam com estridência. Claudio Abramo, secretário da redação e chefe geral da equipe está chegando. Chega Natal Sartoretto co-chefe de reportagem. Logo depois chegam o redator-chefe, Marcelino Ritter, o chefe da seção internacional Gianino Carta, o editorialista português Miguel Urbano Rodrigues, o diretor Ruy Mesquita, seu irmão Júlio Mesquita Neto. Aparece por lá também o irmão mais novo, Luís Carlos Mesquita, o Carlão, especializado em tomar uísque. E todos têm a mesma expressão que vai passando da incredulidade para perplexidade.

Os repórteres mais experientes, como Mascarenhas, chefe da seção de Política, José Stachini, Randolfo Lobato, estão ao telefone acionando suas fontes.

O dono do jornal, o doutor Júlio Mesquita Filho, deve ter interrompido seu costumeiro almoço no finíssimo Clube São Paulo, nos altos do Pacaembu, porque chega apressado antes do seu horário.  Vai se reunir com os mais próximos no “aquário” que é seu gabinete de trabalho separado do resto da redação por uma parede de vidro transparente.

Começam a chegar políticos como Herbert Levy e intelectuais “amigos da casa”, Paulo Duarte, Décio de Almeida Prado. Ninguém sabe nada, todos querem saber. Jânio renunciou? deu um golpe? As Forças Armadas derrubaram Jânio?  Se perguntam todos. E no centro da redação vai se formando uma grande roda, todos em pé, levantam hipóteses, mas ninguém tem uma informação concreta. Os jovens repórteres ficam cercando os mais experientes. Vlado Herzog, Alessandro Gambirazio, Luis Weiss, Abdalla Salomão, Bernardo Lerer, Carlos Azevedo (que sou eu), Pimenta Neves e outros mais, estão ali ouvindo os mais velhos e fazendo corridas ao telex. Na sua cabine Raul Bastos recebe telefonemas de todo o país e do Exterior.

Por um momento na grande roda no meio da redação prevalece a suposição de que Jânio foi derrubado por um golpe militar. Mas não demora que venham veementes desmentidos e afirmação de que os militares estão tão perplexos quanto todo mundo.

Jânio permanece incomunicável, mas sua carta de renúncia é enviada pelo chefe da Casa Civil, Quintanilha Ribeiro, ao Congresso, confirmando que o presidente havia renunciado. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazilli, recebe a carta que formaliza a renúncia. O país está sem governo.

No fim da tarde Jânio e sua esposa Eloá tomam um avião e aterrissam na Base Aérea de Cumbica, em Guarulhos, onde o casal pernoitou. Na manhã de sábado, 26, o plantão coube a mim. Por volta de onze horas Jânio e Eloá deixaram a base militar. Ele dirigia uma perua DKW novinha. Cercado por uma chusma de repórteres e fotógrafos, cumprimentou-nos e só pediu uma coisa: que não o seguíssemos. Claro que ninguém obedeceu. Ele foi se hospedar na casa de um amigo no Guarujá. Poucos dias depois iria seguir de navio para Londres.

Em Brasília o show tinha que continuar.  Pela Constituição cabe ao vice-presidente assumir a presidência da República. Mas vejam a bizarrice da situação: João Goulart no mesmo momento estava em Pequim, na República Popular da China, sendo recebido com grandes honras numa visita de Estado pelo próprio Mao Tse Tung!

E aí começam os problemas. Os militares, silentes até então, se agitam, conspiram. Eles odeiam João Goulart, sucessor de Getúlio Vargas, que eles odiavam e derrubaram do poder em 1945 e provocaram seu suicídio em agosto de 1954, exatamente 9 anos antes.

Mas João Goulart herdou de seu mestre Getúlio uma enorme popularidade, tanto que foi eleito vice-presidente com um número maior de votos do que Jânio para presidente.

Mazzili assume a presidência provisoriamente. Goulart começa a voltar da China. Em Brasília os chefes militares tornam público que não vão aceitar que João Goulart assuma a presidência. O primeiro, o segundo e o quarto exército aderem a eles.

Mas no Rio Grande do Sul o governador Leonel Brizola se levanta em oposição e se prepara para a resistência armada. O general Machado Lopes, comandante do terceiro exército, o mais numeroso e bem armado do país se apresenta para desempenhar seu momento na História. Junta-se Brizola e diz que respeitará a Constituição apoiando a posse do vice-presidente.

Eu o entrevistei no quartel-general em Porto Alegre em 29 de agosto. Reafirmou por escrito que respeitará a Constituição e prenderá qualquer oficial que venha tentar assumir o comando.

Afinal João Goulart voltou e após negociações e concessões assumiu a presidência da República em setembro de 1961. O que veio depois são outras histórias.