Jango, o reformador deposto, por Natanael Sarmento*

Jango, o reformador deposto, por Natanael Sarmento*

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Jango, o reformador deposto, por Natanael Sarmento*

 

 

 
 
O gaúcho João Belchior Goulart (Jango), herdou fazendas do pai e entrou na política sob influência de Getúlio, de quem foi fiel correligionário e continuador do trabalhismo petebista.   
 
O nacionalismo getulista
 
As medidas nacionalistas do governo de Getúlio contrariavam a Casa Branca, notadamente a estatização do petróleo e criação da Petrobrás, que enfrentava forte oposição dos entreguistas.
 
Trajetória
 
Nas abas getulistas foi deputado estadual e federal, Ministro, vice -presidente duas vezes e presidente.   
 
Ministério
 
No Ministério do Trabalho nomeado por Getúlio Jango concedeu reajuste salarial com aumento de 100%. Desagrada o empresariado que passa a tratá-lo como aliado dos comunistas. O anúncio do aumento salarial jogou lenha na fogueira dos ataques da oposição na imprensa e no Congresso.
    
Desestabilização
 
Os Eua com sua política imperialista na América Latina movem mundos e fundos para desestabilizar o governo de Getúlio. A forte campanha da imprensa marrom é o lado aparente da oposição política de entreguistas e corruptos financiados pela CIA para derrubar o governo nacionalista.  
 
Entreguistas
 
Empresários associados ao capital estrangeiro, latifundiários, políticos, militares forjados na escola estadunidense e toda imprensa brasileira (exceto o Última Hora) conspiravam e sabotavam o governo numa oposição sistemática antinacional e contra o povo brasileiro.    
 

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Atentado
 
O atentado contra Carlos Lacerda, o mais ferrenho golpista opositor de Getúlio, foi a palha na fogueira da crise política. Os ânimos se exaltam e Getúlio recebe o ultimato dos militares, ou ele renunciava ou seria deposto.
 
Suicídio e Carta-testamento
Getúlio comete suicídio em agosto de 1954. Destina a famosa Carta-testamento ao povo brasileiro na qual acusa “forças ocultas” - – grupos nacionais e estrangeiros. O sacrifício da própria vida como prova de amor ao país, finalizando que “saía da vida para entrar na História”.
 
Luto e revolta
 
A morte trágica de Getúlio provoca comoção nacional e sucedem manifestações de protesto de uma nação enlutada. A revolta chegou ao extremo com atos de vandalismo da população contra os jornais Tribuna de Imprensa (Lacerda), O Globo (Marinho), Correio da Manhã identificados com os golpistas e responsabilizados pelas multidões furiosas pela morte de Getúlio.  
 
A estrela sobe
 
Jango assumiu o legado getulista do trabalhismo e o controle do PTB. Elege-se Vice-Presidente em 1955 com JK. Reelege-se Vice-presidente em 1960, desta feita com Presidente de coligação oponente, Jânio Quadros.
 
Separadas
 
A eleição de Presidente e Vice-Presidente eram separadas. O voto popular escolheu a chapa “Jan-Jan” – Jânio da coligação PTN/UDN e Jango do PTB/PSD.
 

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Campanha
 
Na oposição, Jânio usou a narrativa do combate à corrupção, a “vassoura” foi símbolo para varrer o “mar de lama” do governo. Na continuidade do bloco governista
O General Teixeira Lott enfatizava o legado modernizante do governo JK e a “espada” da lei avocando o seu papel no contragolpe de 1955 que garantiu a posse de Juscelino.
 
“Voto camarão”
 
Jango foi eleito vice-presidente com votação superior a de Lott cabeça da coligação PSD/PTB.
 
Jacaré e colibri
 
Jânio e Jango dividiam as atribuições institucionais de forma civilizada, mas fria.
 
Visita da China
 
A missão oficial à China divide opiniões. Para uns, gesto de estadista do Jânio, para outros presente de grego. A oposição acusava Jânio de ligações com os comunistas. Visitar um país comunista no calor da Guerra Fria lembrava os favores do Amigo da Onça. A imprensa golpista marrom explorava o episódio.
 
Renúncia inesperada
 
A renúncia de Jânio surpreendeu aliados e adversários. Impactou os rumos da política nacional. Jango retorna da China para assumir o cargos de Presidente na forma da Constituição. Mas no Brasil Constituição é mosaico de retalhos qual colcha de fuxicos.  
 
Conspiração
 
Os corvos golpistas se agitam para impedir a posse de Jango. Americanófilos e golpistas conhecidos como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Castelo Branco, Costa e Silva, Juracy Magalhães...
 
Legalidade
 
Houve mobilização popular e a campanha da legalidade contou com apoios decisivos dos governadores Leonel Brizola (RS) e Mauro Borges (GO), entidades civis como OAB e ABI e sindicatos.  
 
 
Rádio Liberdade
 
Brizola transformou o palácio Platini no bunker da resistência. Coloca no ar a “Rádio Liberdade” e faz eloquentes denúncias das manobras golpistas, conclama a população a defender a legalidade democrática ameaçada.
 
“Solução” parlamentarista
 
O Congresso costurou a “solução” parlamentarista da emenda constitucional pela qual Jango tomava posse do cargo presidencial, porém, com poderes limitados.
 
Instabilidade
 
O período parlamentarista foi breve e instável, com três “primeiros-ministros”, Tancredo Neves, Brochardo da Rocha e Hermes de Lima em pouco mais de um ano do novo regime.
 
Reconquista
 
A reconquista dos poderes presidenciais ocorre de forma avassaladora com 77% dos votos do plebiscito de 1962.  
 
Reformas
 
O programa de base de Jango para desenvolver o Brasil propugnava reformas agrária, urbana, tributária, educacional, bancária e eleitoral.   
 
A Casa Branca
O projeto desenvolvimentista da política interna e o não “alinhamento automático” da política externa fustigavam a águia da Casa Branca que endurecia o bico e amolava as garras para atacar Jango.    
 
A Casa Grande
 
Estrelava com a Reforma agrária. As oligarquias fundiárias agiam com extrema violência no campo contra os movimentos dos camponeses por terra e trabalho. Detonaram a reforma agrária.
 
 
Educação
 
A ampla reforma do ensino nacional foi abortada. A sonhada erradicação do analfabetismo do educador Paulo Freire foi sepultada pela ditadura com a vitória dos golpistas de 64.
 
Nacionalização
 
Decretos de nacionalização de mineradoras e o projeto de limitação da remessa de lucros das empresas estrangeiras - , segundo o qual, 10% dos lucros aplicados na infraestrutura do Brasil – cutucavam o cão com vara curta.
 
Intervencionismo
 
No butim das potências imperialistas dos pós-guerra, os EUA levam às últimas consequências a famosa doutrina Monroe, da “América para os americanos”. Republicanos ou Democratas - Eisenhower, Kennedy, Lyndon Johnson tratam a América Latina como quintal. Desestabilizam governos do Panamá, Haiti, República Dominicana, Nicarágua, Cuba, Brasil, Chile, Bolívia, Argentina, Paraguai...  
 

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Fmi
 
O Fundo Monetário Internacional - FMI-  estabelece metas de gastos e investimentos dos países dependentes. Interfere diretamente nas economias nacionais. A política de “austeridade” do FMI travou o programa de reforma de base e teve papel importante na desestabilização do governo.
 
Esg
 
A Escola Superior de Guerra – Esg, criada sob o tiroteio da Guerra Fria, no governo Dutra -1949, modela-se nas “War Colleges” dos EUA. O “centro de planejamento estratégico, desenvolvimento e de segurança nacional” foi o principal laboratório da doutrinação anticomunista da guerra fria no Brasil. Espaço de cooptação das elites militares e civis para a vassalagem aos EUA.
 
Instrutores
 
Os instrutores estadunidenses da chocadeira desovaram a ideologia da supremacia da “democracia ocidental” americana e da “doutrina de segurança nacional”. Formaram pupilos que se tornaram instrutores, vassalos antinacionais como Juarez Távora, Golbery et caterva.
 
Doutrina de Segurança
 
A “Doutrina de Segurança Nacional” do “perigo comunista” e combate ao “inimigo interno” transforma-se em política de Estado na Ditadura de 1964/85.  
 
Embaixada
 
Lincoln Gordon transformou a embaixada dos EUA na agência central do golpe. Centro da conspirata de militares, empresários, políticos, jornalistas, professores e eclesiásticos. Expedia as orientações da CIA e distribuía dólares para derrubar Goulart.
 
Ibad
 
Institutos Brasileiros de Ação Democrática eram financiados pelos EUA. Aparelhos ideológicos da propagação anticomunista e do golpe. Combateu as reformas de base e contribuiu para desestabilizar o governo.
 
Ipês
 
Os Institutos de Pesquisa Social articulavam civis e militares do campo reacionário, estribados nos dólares, agiam nos lobbys contrários às reformas, no Congresso Nacional.
 
Provocadores
 
Agentes provocadores recrutados pela Cia atuavam em todos os setores. Espalhavam o pânico, radicalizavam e tudo faziam para aprofundar a crise e criar o ambiente propício ao golpe. Dois desses sevandijas são emblemáticos.
 
O cabo
 
O Cabo Anselmo da Cia açulou ânimos e liderou a famosa “Revolta dos Marinheiros”. Criou mais confusão na “quebra da hierarquia militar” que foi usada na narrativa “legitimadora” do golpe de 1964. Infiltrou-se nas organizações de combate e resistência à ditadura das suas delações resultaram dezenas de militantes mortos.
 
O padre
 
O padre católico Patrick Peyton foi o agente da Cia que organizou manifestações anticomunistas das marchas “Família com Deus pela Liberdade”. No terço do provocador de batina, os “agentes de Moscou” queriam acabar com a família cristã, roubar as casas e propriedades, tocar fogo nas igrejas e transformar o Brasil numa colônia da Rússia soviética. Muita gente acreditou nestas bazófias.
 
Golpe à vista
 
A crise se aprofundava e se radicalizava, o espectro do golpe rondava o Brasil, abertamente.  
 
Passividade
 
Jango assistia as movimentações golpistas, passivamente. Confiava no dispositivo militar. O tal “dispositivo militar” não funcionou. O desfile tranquilo de tropas e tanques pelas ruas do golpe lembrava a parada do 7 de Setembro no 1º de abril de 64.
 
Ilusão classista
 
Partidos e políticos deposto, inclusive as organizações comunistas não se prepararam para a autodefesa e o contragolpe e param o preço alto pela ilusão com a frágil democracia burguesa.
 
A natureza governista
 
A governança janguista foi democrática nos marcos da democracia burguesa. O rico fazendeiro fazia parte da fração nacionalista. Em que pese o reformismo atenuar demandas sociais da maioria explorada, o sistema econômico e o poder do Estado expressam a hegemonia burguesa dominante.
 
Estadista?
 
Jango foi deposto sem lutar pelo mandato conferido pelo povo. Esta decisão divide opiniões. Para uns, foi prudente e agiu como estadista a “evitar o derramamento de sangue”. Para outros, ao cabo, as muitas hesitações de Jango facilitaram o assalto do poder pelos golpistas.
 
Marxistas
 
As lutas políticas da história expressam as circunstâncias e correlações de forças da luta de classes, entre exploradores e explorados. Nas contradições de classes fundamentais do capitalismo, a posição classista de Jango revelavam contradições, porém, secundárias com a burguesia. O golpe de 64 mudavam-se as mãos e o regime político, no rearranjo da dominação burguesa que substituía um regime liberal de concessões populares e trabalhistas para um regime de opressão e terror fascista de aberta e brutal exploração do povo.
 
Traições
 
Segundo o Barão de Itararé, “o homem que se vende recebe sempre mais do que vale”.
Não teríamos espaço para citar nomes de todos que receberam mais do que valiam na traição de Jango. Citaremos exemplos emblemáticos.
 
 
Amaury Kruel
 
O General Amaury Kruel declarava até às vésperas do golpe total fidelidade ao governo e proclamava que “resistiria ao golpe”. Nos bastidores, o General recebia três malas de dólares repassadas pelo presidente interino da Fiespe Raphael Noschese, na traição de Jango.  
 
Provas
 
O Major do Exército Erimá Pinheiro Machado testemunhou e oficializou a sua declaração por escrito, assinada, dando cópia da denúncia das malas ao General Carlos Luís Guedes.  Acabou na reserva.  
 
 
Invasão dos marines
 
Com nome de Operação Brother os Eua realizam a operação militar secreta para invasão do Brasil em caso de resistência ao golpe. Tropas da Marinha americana são deslocas ao Atlântico Sul -  porta-aviões, aviões e destróieres. Não precisou.
 
Operação Condor
 
Nome da Organização secreta de repressão política para atuações conjuntas das ditaduras do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Coordenada e financiada pela Cia, realizou sequestros e assassinatos dos opositores das ditaduras destes países.
  
Morte
 
Jango morreu em 1976, na Argentina, com 57 anos. Oficialmente, morte natural em parada cardiorrespiratória.
Acusação
 
Familiares e amigos desmentem a versão e acusam assassinato, envenenamento. Pesa na acusação a confissão de Mário Meira Barreiro, agente da repressão uruguaia de colocar substâncias tóxicas nos remédios para provocar a parada cardíaca. Faz-se a exumação

Perícia

Para perícia, décadas depois, Inez é morta. O estado cadavérico não permitia resultados conclusivos. Fica o dito pelo não dito. E “adeus, pátria e família”, diria o Barão.
  
*Natanael Sarmento é professor e escritor. Do Diretório Nacional do Partido Unidade Popular Pelo Socialismo – UP/80.


NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores. O Poder estimula o livre confronto de ideias e acolhe o contraditório. Todas as pessoas e instituições citadas têm assegurado espaço para suas manifestações.
 

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