Celso Amorim vê gesto inédito dos EUA após Marco Rubio excluir Brasil de lista de aliados
Celso Amorim vê gesto inédito dos EUA após Marco Rubio excluir Brasil de lista de aliados
Ex-chanceler e assessor especial de Lula afirma que a declaração do secretário de Estado dos Estados Unidos é inédita em mais de dois séculos de relações diplomáticas e compara o episódio aos momentos mais tensos da Guerra Fria.
translate
![]()
Da REDAÇÃO*
A declaração do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de que o Brasil não integra a atual coalizão de países alinhados aos interesses norte-americanos provocou forte reação do assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim. Ex-ministro das Relações Exteriores e um dos principais conselheiros do presidente Lula para política externa, Amorim classificou a fala como “inédita” nos mais de 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
Durante entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Amorim afirmou que nem mesmo nos momentos mais tensos da relação bilateral houve uma manifestação semelhante por parte da diplomacia norte-americana.
“Declaração inédita” na história diplomática
Ao comentar a fala de Rubio, Amorim fez referência ao período que antecedeu o golpe militar de 1964 no Brasil, quando documentos históricos apontam apoio de autoridades norte-americanas à derrubada do presidente João Goulart.
“A declaração de Rubio é inédita. Nem quando o Dean Rusk [secretário de Estado dos EUA entre 1961 e 1969] e o Lincoln Gordon [embaixador dos EUA no Brasil entre 1961 e 1966] estavam conspirando para derrubar o presidente João Goulart, um secretário de Estado excluiu o Brasil da lista de países amigos”, afirmou Amorim.
O assessor de Lula também demonstrou preocupação com os possíveis desdobramentos políticos e diplomáticos da declaração.
“É uma declaração impressionante e preocupante. Precisamos ver o que ocorrerá a partir disso, mas nem quando havia conspiração essa situação foi formalizada”, acrescentou.
O que disse Marco Rubio
A controvérsia surgiu durante uma audiência no Senado dos Estados Unidos. Ao defender a política externa do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Rubio afirmou que a América Latina vive um momento de aproximação com Washington e que a maior parte dos governos da região é favorável aos interesses norte-americanos.
Em seguida, porém, excluiu alguns países desse grupo.
“Com exceção da Nicarágua, de Cuba, obviamente da Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e do Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em certa medida, também do atual governo da Colômbia (…), trata-se agora de uma região repleta de aliados dos EUA”, declarou Rubio.
A inclusão do Brasil ao lado de países historicamente criticados por Washington foi interpretada por integrantes do governo brasileiro como um sinal de deterioração das relações bilaterais.
Tensão crescente entre Brasília e Washington
A fala de Rubio ocorre em meio a uma sequência de medidas adotadas pelos Estados Unidos que vêm aumentando o atrito com o governo brasileiro.
Nos últimos dias, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Pouco antes, o governo norte-americano anunciou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Já nesta semana, Washington incluiu o Brasil em uma investigação relacionada ao combate ao trabalho forçado e propôs uma nova sobretaxa de 12,5% para países enquadrados nesse processo.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é de que as declarações de Rubio e as recentes medidas comerciais indicam um endurecimento da postura dos Estados Unidos em relação ao Brasil, abrindo um novo capítulo de tensão diplomática entre os dois países.
Fonte: Entrevista de Celso Amorim à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, publicada em 3 de junho de 2026.
*Redator: BTC


