Por que o Campo Progressista insiste em ignorar a História do Brasil

Por que o Campo Progressista insiste em ignorar a História do Brasil

Por que o Campo Progressista insiste em ignorar a História do Brasil

O maior erro do campo progressista é interpretar a política atual desconectada da história. O Brasil não nasceu sob o signo da inclusão, mas do genocídio, da escravidão e do mandonismo oligárquico. Do golpe republicano de 1889 à disputa de 2026, as elites e o rentismo nunca hesitaram em atropelar a democracia para blindar privilégios. No país, o reacionarismo não é um desvio; é a regra do jogo.

Por Dal Marcondes

Ilustração com uma máquina de moer gente e transformar em dinheiro
Ilustra: Claudius - Copleft do Le Monde Diplomatique

Por Dal Marcondes - 

ODS 16 — Paz e Justiça

O maior equívoco do campo progressista brasileiro é tentar interpretar a política do presente com os olhos desconectados da nossa trajetória histórica. Há uma ilusão recorrente de que o Brasil é uma democracia madura que vive sob eventuais "desvios de percurso". Não é. O país não nasceu sob o signo da inclusão, mas sim sob a foce da violência colonial, do genocídio dos povos originários e de quase quatro séculos de escravização. Quando a República foi proclamada, em 15 de novembro de 1889, não houve participação popular ou ruptura democrática: tratou-se de um golpe militar articulado pela oligarquia cafeeira e pelos coronéis latifundiários. Eles depuseram o imperador Dom Pedro II não por ideais iluministas, mas para assumirem diretamente as rédeas do Estado e garantirem seus privilégios econômicos, ressentidos inclusive com a abolição da escravatura ocorrida apenas um ano antes, em 13 de maio de 1888, sem qualquer reparação aos libertos.

A estrutura oligárquica da República Velha manteve as populações negra e indígena no limbo da marginalidade econômica e social. Com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas — culminando na promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1 de maio de 1943 —, o Estado brasileiro fez suas primeiras concessões aos trabalhadores urbanos. Contudo, foram concessões integradoras, que ainda deixaram intacta a colossal dívida histórica com o campo e as periferias pretas. Quando as forças conservadoras julgaram que o projeto nacional-desenvolvimentista de Vargas ameaçava a hegemonia da União Democrática Nacional (UDN) e das elites financeiras, a pressão golpista tornou-se insustentável, culminando no trágico suicídio de Getúlio em 24 de agosto de 1954.

A disputa presidencial das eleições de 2026 — que contrapõe o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro no segundo turno em 25 de outubro de 2026 — não é um evento isolado, mas o capítulo mais recente de um ciclo secular de reação conservadora às tentativas de ampliação de direitos no Brasil. 

Dal Marcondes

A sanha golpista da direita reacionária não cessou. Em 11 de novembro de 1955, foi preciso a intervenção firme do Marechal Henrique Teixeira Lott — no chamado "golpe preventivo" ou "Novembro das Agulhas Negras" — para garantir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek e do vice João Goulart. A fragilidade democrática se escancarou nas eleições de 1960, sob um sistema eleitoral esdrúxulo que permitia a escolha separada de presidente e vice. O eleitorado, iludido pela demagogia moralista da vassoura, elegeu Jânio Quadros (UDN/PDC) para a Presidência e João Goulart (PTB) para a Vice-Presidência. A renúncia intempestiva de Jânio, em 25 de agosto de 1961, abriu a crise da legalidade.

João Goulart assumiu sob a imposição do parlamentarismo e, após recuperar os poderes presidenciais no plebiscito de janeiro de 1963, ousou propor as Reformas de Base (agrária, urbana, bancária e educacional). A resposta do rentismo e do latifúndio veio no Comício da Central do Brasil (13 de março de 1964) e no golpe civil-militar de 31 de março de 1964. Seguiram-se 21 anos de ditadura militar (1964–1985), marcados pelo Ato Institucional nº 5 (13 de dezembro de 1968), por torturas, assassinatos cometidos pelo Estado, arrocho salarial e concentração de renda, tudo para blindar os privilégios das elites econômicas.

A derrota das “Diretas Já”

Mesmo a abertura política foi rigorosamente tutelada. A derrota da Emenda Dante de Oliveira em 25 de abril de 1984 sufocou a campanha das Diretas Já, forçando a transição via Colégio Eleitoral. Tancredo Neves, histórica figura de mediação que já havia atuado como primeiro-ministro moderador na transição parlamentarista de 1961, foi o escolhido. Contudo, sua morte em 21 de abril de 1985 entregou a Presidência a José Sarney, até então presidente do PDS (sucessor da Arena, o partido do regime militar). O resultado dessa transição "pela metade" foi o aprofundamento da maior crise econômica da nossa história moderna, com hiperinflação alcançando índices catastróficos que superavam os 80% ao mês no final dos anos 1980 e um custo social devastador.

Por que o Campo Progressista insiste em ignorar a História do Brasil

A Constituição de 1988, embora batizada por Ulysses Guimarães como "Constituição Cidadã", carregou as marcas desse compromisso conservador: foi produzida por um Congresso Nacional constituinte ordinário, e não por uma Assembleia Constituinte Exclusiva.

Na primeira eleição direta após a ditadura, em 15 de novembro de 1989, o país contava com quadros da envergadura de Mário Covas, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, a máquina midiática e as elites financeiras fabricaram a candidatura de Fernando Collor de Mello, o triunfante "caçador de marajás", cujo governo colapsou em meio ao confisco da poupança e escândalos de corrupção, resultando no impeachment de dezembro de 1992.

O mandato tampão de Itamar Franco (1992–1994) trouxe estabilidade temporária e abriu espaço para a criação do Plano Real em 1994, capitaneado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso. O sucesso da estabilização monetária, um ganho inestimável para a economia nacional, acendeu no "príncipe dos sociólogos" o desejo por um ciclo majestático. A aprovação da Emenda Constitucional nº 16/1997 (a PEC da Reeleição), obtida sob pesadas denúncias de compra de votos no Congresso, desorganizou as regras do jogo político e deformou as instituições em nome de um projeto de poder hegemonizado pela social-democracia liberal.

Os governos Lula 1 e 2 (2003–2010) promoveram um choque civilizatório sem precedentes no país, retirando dezenas de milhões de pessoas da extrema pobreza, valorizando o salário mínimo e expandindo o ensino superior. No campo macroeconômico, o ministro Antonio Palocci executou uma estratégia pragmática: aproveitou o cenário favorável das commodities e o real valorizado para acumular reservas internacionais e, em dezembro de 2005, quitou antecipadamente a dívida de US$ 15,5 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), além de resgatar títulos da dívida externa. Com isso, o governo livrou o Brasil da tutela cambial que sufocara a gestão de FHC e passou a canalizar recursos para o desenvolvimento interno.

E o rentismo venceu

Entretanto, a fatura cobrada pelo rentismo financeiro permaneceu altíssima. Quando Dilma Rousseff (2011–2016) tentou baixar as taxas de juros e resistiu às exigências do mercado por superávits primários exorbitantes que estrangulavam os investimentos públicos, a reação da elite foi avassaladora, desaguando no golpe parlamentar de agosto de 2016. Michel Temer assumiu para implementar a agenda integral do capital financeiro: a aprovação do Teto de Gastos (Emenda Constitucional 95/2016), a Reforma Trabalhista (2017) e a preparação da Reforma da Previdência, garantindo a remuneração dos títulos da dívida pública com as maiores taxas de juros reais do planeta.

O desdobramento direto dessa engrenagem foi a ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, a radicalização da extrema-direita, o desmonte das políticas socioambientais e a tentativa explícita de golpe de Estado culminada nos atentados de 8 de janeiro de 2023.

Hoje, o governo Lula 3 opera sob extrema pressão, emparedado por um Congresso dominado pelo centrão e pelo agronegócio reacionário, após uma vitória eleitoral obtida por uma margem estreita (50,90% contra 49,10%). A articulação contínua das forças ultraconservadoras para manter a hegemonia política escancara a realidade que o campo progressista insiste em dourar: o Brasil segue sendo estrutural e historicamente um país reacionário, cujas elites nunca hesitaram em atropelar a democracia para preservar sua dominação patrimonialista.