O Fantasma no Púlpito e a Mão no Bolso: a fachada ideológica do capitalismo predatório
O Fantasma no Púlpito e a Mão no Bolso: a fachada ideológica do capitalismo predatório
Por: Mauricio Lamenza*

A eleição de 4 de outubro de 2026 fortaleceu a direita no Congresso e levou Flávio Bolsonaro ao segundo turno contra Lula. A vitória eleitoral da direita é legítima em qualquer democracia, mas aqui essa ascensão guarda um problema: que direita está emergindo? Além das correntes conservadoras e liberais tradicionais, o bolsonarismo vem se legitimando como uma nova espécie de direita. Mas nem isso chega a ser um problema. A questão é que o bolsonarismo é uma direita de fachada, que ocupa esse campo político menos por convicção doutrinária do que por interesse próprio. Essa direita oportunista usa de pautas morais, religião e guerra cultural mais como instrumentos de mobilização do que como expressão de um projeto coerente de sociedade. Pela lógica dessa direita de fachada, o anticomunismo se transforma em instrumento concreto de ação política: um bicho-papão inflado nas redes sociais para alimentar a polarização com a esquerda, especialmente com o petismo. Outro instrumento é a apropriação crescente do orçamento público, pela qual o Legislativo amplia seu poder sobre a execução orçamentária e reduz a margem de discricionariedade do Executivo, inclusive por meio das emendas impositivas. O legislativo tem acesso livre a fatias do orçamento, que passa a ser apropriado por grupos políticos que aprenderam a transformar o mandato em mecanismo de reprodução do próprio poder, perpetuando-se nas cadeiras das principais casas legislativas. O centro dessa dinâmica está no controle dos recursos do Estado. Emendas parlamentares e outros mecanismos orçamentários podem deixar de servir prioritariamente a políticas públicas e passar a funcionar como instrumentos de fortalecimento de bases políticas e fidelização de aliados. Surge então uma contradição: os mesmos grupos que pregam a contenção do Estado mínimo em determinadas políticas sociais reivindicam um Estado generoso quando se trata de ampliar o controle político sobre recursos públicos O mesmo fenômeno aparece na produção legislativa. Leis passam a ser usadas não para atender ao interesse coletivo, mas para proteger aliados, enfraquecer instituições ou alterar regras em benefício de grupos específicos. É o caso das propostas de anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e da própria aprovação da Lei nº 15.402/2026, que alterou os critérios de progressão e remição das penas aplicáveis a condenações por crimes contra o Estado Democrático de Direito. A democracia não precisa ser derrubada para ser enfraquecida; basta que suas salvaguardas sejam corroídas gradualmente. A religião também desempenha papel importante nesse processo. Em setores do neopentecostalismo, a Teologia da Prosperidade ganha centralidade e desloca a expectativa de transformação para a conquista individual: problemas estruturais são convertidos em questões pessoais. A pobreza deixa de ser vista como resultado de desigualdades sociais e passa a ser interpretada como fracasso pessoal. O crente é ensinado a não enxergar a exploração estrutural que sofre, mas estimulado a orar até se tornar ele mesmo mais um explorador. Nesse ambiente, segmentos da direita cristã também reativam o anticomunismo, frequentemente apresentado como ameaça anticristã e moral. Não é necessária uma conspiração. Basta a convergência de interesses entre grupos políticos, setores da liderança religiosa, influenciadores, elites econômicas e setores que lucram com a concentração de renda, com a precarização do trabalho e a captura do Estado. A ideologia funciona como cortina de fumaça para interesses materiais. Por isso, a polarização frequentemente obscurece questões fundamentais. É mais fácil combater um adversário ideológico do que discutir orçamento público, crédito, tributação ou concentração econômica. O segundo turno de 2026 ocorre nesse cenário. Mais do que uma escolha entre personalidades, trata-se de uma decisão sobre a preservação das regras democráticas e dos limites institucionais que impedem qualquer grupo de transformar sua vitória eleitoral em controle permanente das instituições. A democracia não consiste em impedir que a direita ou a esquerda governe. Consiste em impedir que qualquer força política capture o Estado em benefício próprio. Por isso, a pergunta central permanece: enquanto o fantasma ocupa o púlpito, quem está com a mão no bolso? A demonização do PT e de Lula parece ser parte de uma estratégia mais ampla de guerra cultural que desvia a atenção do controle do orçamento público e da defesa das instituições democráticas. Inimigos são necessários quando falta um projeto capaz de se sustentar por si mesmo, para alavancar agentes políticos que são, em essência, ocos! Essa argumentação não pretende redimir a esquerda de seus erros. Não, justamente porque eles existem. Mas seria desonesto ignorar que governos e forças políticas de esquerda participaram ativamente da construção e do aperfeiçoamento de mecanismos de transparência, participação social e controle da administração pública. O Portal da Transparência, criado em 2004, ampliou o acesso do cidadão às informações sobre os gastos federais; a Lei de Acesso à Informação, sancionada em 2011, consolidou procedimentos para que qualquer cidadão pudesse exigir informações do Estado. Esses mecanismos estão longe de serem perfeitos — e justamente por isso permanecem sujeitos ao aperfeiçoamento e ao controle da própria sociedade. Os governos de esquerda não ameaçaram trocar ministros e superintendentes da Polícia Federal para proteger o filho que hoje é candidato à presidência. Ou seja, o Estado estava a serviço da população! Lembremos que, em 2020, Sérgio Moro deixou o Ministério da Justiça acusando Jair Bolsonaro de interferir politicamente na Polícia Federal. O STF abriu o Inquérito 4.831 para apurar essas acusações. O episódio envolveu a troca do diretor geral da PF e também a superintendência do Rio, justamente enquanto havia investigações envolvendo pessoas próximas à família Bolsonaro; o próprio STF registrou que o inquérito apurava a suposta interferência política de Bolsonaro na PF. A falsa direita usa de todas as artimanhas possíveis para deslocar o debate de temas concretos, como salário, juros, renda, orçamento e trabalho, para conflitos morais e identitários. Enquanto a população discute inimigos abstratos, poucos observam quem controla os recursos, define as regras e concentra os benefícios econômicos. Na hora do voto, o desafio é olhar além dos slogans ideológicos e enxergar quem efetivamente se beneficia do funcionamento desse sistema parasitário, cuja atuação parece mirar mais a reprodução do próprio poder do que a promoção de políticas públicas nas áreas de saúde, educação, cultura, renda mínima, habitação e segurança pública. Porque, enquanto o fantasma ocupa o púlpito, alguém continua com a mão no seu bolso. A pergunta é: quem? *
Mauricio Lamenza, é bacharel em direito, empresário e escritor. [email protected]


