Petróleo dispara após ataques de EUA e Israel ao Irã e atinge maior valor em 8 meses
Petróleo dispara após ataques de EUA e Israel ao Irã e atinge maior valor em 8 meses
Folha
- Barril chegou a US$ 81,89 na primeira sessão após a ofensiva; alta se mantém nesta segunda (2)
- Conflito escalou no último sábado (28) após ofensiva conjunta de EUA e Israel contra o Irã
São Paulo
Os preços do petróleo apresentam forte alta na primeira sessão do mercado após os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã que mataram o líder supremo do país, Ali Khamenei.
O barril do tipo Brent, referência mundial, atingiu um pico de 13% na abertura do mercado internacional neste domingo (1º) e chegou a custar US$ 81,89 (R$ 420,46). Nesta segunda-feira, o Brent teve máxima de US$ 80,27, uma alta de 10,15%.
A cotação do domingo foi o maior valor do petróleo durante a sessão desde 22 de junho de 2025, quando o preço chegou a US$ 81,40. Na ocasião, o aumento também foi causado pelo mesmo confronto, pois foi o dia em que os EUA entraram diretamente no conflito entre Irã e Israel, que havia sido iniciado em 13 de junho.

Na época, os norte-americanos realizaram ataques em instalações nucleares em Fordow, Natanz e Isfahan, o que levou o preço do barril Brent a disparar com o temor do acirramento do confronto. Porém, depois disso, o valor da commodity passou a cair e já estava abaixo de US$ 70 dois dias depois, quando foi decretado um cessar-fogo entre as partes.
Nesta segunda-feira, o confronto também impactou o mercado acionário brasileiro. Na máxima do pregão, as ações preferenciais da Petrobras chegaram a R$ 41,53, alta de 5,59%.
O movimento também beneficiou o setor de forma mais ampla. As ações da Prio e da Brava Energia, outras petroleiras brasileiras, subiram até 6,68% e 4,98% nas máximas do dia, respectivamente.
A sessão que começou na noite de domingo (no Brasil) foi a primeira após os bombardeios dos EUA e Israel, seguida da retaliação do Irã. O mercado estava fechado desde a noite de sexta-feira (27), quando o barril Brent terminou o dia a US$ 72,87.
Após alcançar US$ 81,89 por volta das 20h de domingo (horário de Brasília), o preço passou a abaixar. Analistas estimam que os preços possam superar a faixa dos US$ 100 nos próximos dias, caso o confronto persista.
O barril do petróleo WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, também subiu desde domingo, chegando a saltar a US$ 74,99 (R$ 385,03), alta superior a 12%, após fechar a US$ 67,02 na sexta-feira. Nesta segunda, a commodity chegou a US$ 73,37, alta de 9,47%.
Para o analista Bruno Cordeiro, da consultoria StoneX, a expectativa é de manutenção dos preços do petróleo em patamar elevado nas próximas semanas.
"Apesar da decisão da Opep+ na reunião ministerial de ontem de ampliar os limites produtivos em um volume maior do que o antecipado para abril, vale destacar que uma parte significativa dos membros do grupo se concentram no golfo Pérsico, de modo que os efeitos da decisão sobre os preços se mostraram bem limitados", apontou em relatório.
Na avaliação do especialista, a direção dos preços será ditada principalmente pela evolução dos conflitos na região. "Um cenário de manutenção dos ataques por ambos os lados deve manter um menor volume de petróleo sendo escoado pelo estreito de Hormuz, o que manteria as cotações em uma clara ascendência."
PREOCUPAÇÃO COM TRANSPORTE DO PETRÓLEO
O aumento está relacionado às preocupações dos investidores com as restrições de tráfego no estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e que é em grande parte controlado pelos iranianos.
Embora a Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados), o grupo de grandes produtores de petróleo liderado pela Arábia Saudita, tenha concordado neste domingo em aumentar sua produção em 206 mil barris por dia a partir de abril, analistas alertaram que o petróleo adicional teria pouco impacto no mercado se houver interrupção no fornecimento devido ao conflito. O aumento acordado representa menos de 0,2% da oferta global.
Os riscos para a navegação comercial dispararam nas 24 horas após os ataques. Mais de 200 navios —incluindo petroleiros e embarcações de gás natural liquefeito— se ancoraram nas imediações do estreito de Hormuz e em águas próximas, segundo dados de tráfego marítimo.
Os preços já haviam subido cerca de 2% na última sexta (27), quando o Brent fechou cotado a US$ 72,48, com os investidores se preparando para possíveis interrupções no fornecimento da commodity. A commodity subiu cerca de 19% desde o início do ano.
Enquanto empresas petrolíferas e países exportadores da commodity, como a Petrobras e o Brasil, tendem a se beneficiar de um cenário com o petróleo mais caro por um período maior, a alta também pode acarretar no aumento da inflação no mundo, pressionando governos e bancos centrais.
"Vemos o petróleo Brent sendo negociado no terreno entre US$ 80 e US$ 90 no nosso cenário base ao longo desta semana", disseram analistas do Citigroup em relatório divulgado antes do início das negociações.
No sábado, banco britânico Barclays elevou a previsão para o preço futuro do petróleo Brent de US$ 80 para cerca de US$ 100 por barril.
Outro ponto que impulsiona os preços do petróleo é o fato de que seguradoras informaram aos armadores que cancelariam as apólices e aumentariam os preços dos seguros para embarcações que transitassem pelo golfo Pérsico e pelo estreito, segundo o Financial Times.
De acordo com o jornal, seguradoras de risco de guerra enviaram neste sábado (28) avisos de cancelamento para apólices que cobrem navios que transitam pelo estreito, com os preços previstos para subir até 50% nos próximos dias.
Boa parte do petróleo que passa por Hormuz é vendida por países como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Irã, Kuwait e Iraque à Ásia, em especial a China, e a países da Europa.
As restrições ao tráfego no estreito são consideradas ainda mais preocupantes que os eventuais impactos do petróleo iraniano sobre o mercado mundial.
O Irã possui a quarta maior reserva provada de petróleo bruto do mundo, mas anos de sanções e falta de investimentos limitaram suas exportações. O país produziu 3,45 milhões de barris por dia (bpd) em janeiro, segundo a Agência Internacional de Energia —menos de 3% da oferta global no período. Quase toda a produção vai para a China.
O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, morto em ataque de EUA e Israel em Teerã
Para Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), o aumento nos preços do petróleo pode beneficiar as exportações brasileiras. No ano passado, o Brasil exportou US$ 44,5 bilhões (R$ 228 bilhões) da commodity, o equivalente a 12,8% de todas as vendas a outros países.
"Dependendo de como a guerra continuar, a commodity vai subir. Mas só ultrapassa os US$ 100 se o estreito for fechado", avalia. Analistas apontam, porém, para o risco de inflação global com a alta dos preços do combustível fóssil.
BOLSA EM QUEDA, OURO EM ALTA
As principais Bolsas do mundo também apresentaram queda em sua primeira sessão após os ataques no Oriente Médio. As exceções foram as Bolsas da China, que fecharam em alta de 0,47% em Xangai e de 0,38% no índice CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen.
A Bolsa de Tóquio caiu 1,3%, a de Hong Kong desvalorizou 2,14% e a de Taiwan perdeu 0,9%.
Em Seul, um dos mercados que mais se valorizaram no último ano, a operação ficou fechada nesta segunda. O mesmo ocorre com a Bolsa de Valores de Abu Dhabi e o Mercado Financeiro de Dubai, que ficarão com as atividades suspensas nesta segunda (2) e terça-feira (3) em função do conflito.
Na Europa, as Bolsas registraram queda. O índice EuroSTOXX caiu 2,47%, em movimento similar ao de Frankfurt (-2,56%), Londres (-1,20%) e Paris (-2,17%).
Os mercados dos EUA, por outro lado, fecharam de forma mista. O índice DowJones teve queda de 0,15%, o Nasdaq, alta de 0,36%, e o S&P 500, baixa de 0,09%, próximo da estabilidade.
O ouro, considerado um porto seguro pelos investidores, tinha alta de 0,61% a US$ 5.338 a onça, às 18h09. O bitcoin também subia, com alta de 5,22%, cotado a US$ 69,11 mil.


