Coluna do Pablo Kossa: Você duvida que os militares seriam capazes?

Coluna do Pablo Kossa: Você duvida que os militares seriam capazes?

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Estão reacesas as suspeitas em torno das mortes de JK, João Goulart e Carlos Lacerda, ocorridas poucos meses depois e igualmente cercadas por dúvidas nunca totalmente esclarecidas

Coluna do Pablo Kossa: Você duvida que os militares seriam capazes?

Por Pablo Kossa

 

Relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura militar. Somado esse fato com a investigação sobre o possível envenenamento de João Goulart e a morte esquisita de Carlos Lacerda em data próxima, podemos colocar as barbas de molho e questionar as versões oficiais de mortes por acidentes e problemas de saúde. A ditadura pode sim ter matado os principais líderes políticos brasileiros de diferentes orientações ideológicas.

 

Se alguém levantasse essa hipótese anos atrás, eu pediria educadamente pro cara tirar o chapéu de alumínio. Nunca tive afeição por teoria da conspiração. Sempre achei essas elucubrações de uma chatice monumental. Papo de maluco é a coisa mais sacal do mundo.

 

Mas depois que soubemos tudo que rolou na tentativa de golpe de 2022 e o tal do plano Punhal Verde e Amarelo, mudei de opinião. Lembra-se do diabólico plano de envenenar Lula, dar um jeito em Alckmin e armar uma tocaia covarde em cima do Xandão, né? Pois é, conhecendo o modus operandi dos milicos e a tentativa de matar o presidente eleito, seu vice e um ministro do STF, torna-se plausível o assassinato dos líderes políticos da década de 1970.

 

Sobre JK, a versão oficial de acidente automobilístico prevaleceu durante décadas. O relatório atual aponta falhas graves nas investigações anteriores, indícios de sabotagem e adulteração da cena do acidente ocorrido na Via Dutra em 1976. Lembrando o contexto de perseguição política sofrido por JK durante o regime militar, a comissão afirma que há elementos suficientes para reconhecer que sua morte teve motivação política e agora deve integrar a lista de crimes cometidos pela ditadura.

 

Essa conclusão reacende suspeitas em torno das mortes de João Goulart e Carlos Lacerda, ocorridas poucos meses depois e igualmente cercadas por dúvidas nunca totalmente esclarecidas. Jango morreu na Argentina, também em 1976, oficialmente vítima de um infarto, mas investigações posteriores levantaram a hipótese de envenenamento no contexto da Operação Condor, rede repressiva das ditaduras sul-americanas. Já Lacerda, antigo adversário de Getúlio, apoiador em primeiro momento e depois crítico do regime militar, morreu em 1977 após problemas de saúde que alimentaram especulações e teorias sobre possível eliminação política.

 

Os três haviam articulado a Frente Ampla contra a ditadura – adversários ferrenhos que se uniam contra o arbítrio. Por isso, as três mortes acabaram associadas à percepção de que figuras incômodas ao regime poderiam ter sido silenciadas.

 

Você acha isso conspiracionismo? Eu também achava. Não penso mais assim. Se faz parte do arcabouço de ações possíveis assassinar oponentes políticos hoje, por que não fariam isso 50 anos atrás?