Aci­dente ou aten­tado polí­tico?

Aci­dente ou aten­tado polí­tico?

Aci­dente ou aten­tado polí­tico?PressReader.com - Réplicas de Jornais de Todo o Mundo

A Verdade Sobre

 

No dia 9 de agosto de 1976, a notí­cia de que o então pre­si­dente do Bra­sil Jus­ce­lino Kubits­chek havia mor­rido per­cor­reu todo o país. A causa divul­gada teria sido um aci­dente de carro sofrido na estrada enquanto ia de sua fazenda, em Luzi­â­nia (GO), a Bra­sí­lia. Como não havia tele­fone na área rural, alguns ami­gos e jor­na­lis­tas foram até o local para obter mais infor­ma­ções. Ao che­ga­rem lá, encon­tra­ram JK vivo e se deram conta de que a notí­cia era ape­nas um rumor. Diz-se que, naquele mesmo dia, Jus­ce­lino

che­gou a comen­tar com Sera­fim Jar­dim, seu secre­tá­rio par­ti­cu­lar: “Estão que­rendo me matar, mas ainda não con­se­gui­ram”. Entre­tanto, quase duas sema­nas após esse ocor­rido, a mesma notí­cia cir­cu­lava e, dessa vez, ela era ver­da­deira. O ex-pre­si­dente mor­reu em um aci­dente de carro na rodo­via Pre­si­dente Dutra, indo para o Rio de Janeiro, no dia 22 de agosto, a pou­cos dias de com­ple­tar 74 anos de idade.

De acordo com o inqu­é­rito poli­cial, após se cho­car com um ôni­bus que vinha logo atrás, o Opala em que iam JK e seu moto­rista, Geraldo Ribeiro, cru­zou a pista e bateu de frente com uma car­reta. No entanto, essa é somente a ver­são ofi­cial do evento. Outras teo­rias levam em conta pon­tos não escla­re­ci­dos sobre o epi­só­dio para afir­mar que, na rea­li­dade, Jus­ce­lino fora vítima de um assas­si­nato. “A Jus­tiça con­si­de­rou o epi­só­dio um aci­dente, o regime mili­tar decre­tou luto naci­o­nal de três dias e não houve mais do que espe­cu­la­ções por parte da socie­dade civil”, relata Nashla Dahás, pes­qui­sa­dora da Revista de His­tó­ria da Bibli­o­teca Naci­o­nal.

Con­tra­di­ções

Algu­mas dúvi­das acerca do acon­te­ci­mento nunca foram escla­re­ci­das. Um fato que deu ori­gem à ver­são de que a morte do ex-pre­si­dente teria sido enco­men­dada está rela­ci­o­nada à per­fu­ra­ção encon­trada no crâ­nio do moto­rista que diri­gia o auto­mó­vel naquele dia, indi­cando que o mesmo pode­ria ter sido atin­gido por uma bala, motivo pelo qual teria per­dido a dire­ção e batido con­tra o cami­nhão. Segundo os lau­dos, havia um frag­mento de metal no crâ­nio do con­du­tor, porém, a expli­ca­ção à época era de que se tra­tava de um cravo uti­li­zado para fixar o reves­ti­mento do cai­xão e não um projé­til de arma de fogo. O perito cri­mi­nal Alberto de Minas con­fes­sou que, no dia da exu­ma­ção do corpo de Geraldo Ribeiro, em 1996, viu um buraco de tiro no crâ­nio e, ao ten­tar foto­gra­far, foi impe­dido por poli­ci­ais.

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Tal ver­são, somada a lau­dos igno­ra­dos e arqui­vos desa­pa­re­ci­dos, cola­bo­rou para levan­tar ainda mais dúvi­das sobre a ocor­rên­cia e criar o mis­té­rio que envolve a morte de JK e seu moto­rista.

Alguns meses após o aci­dente, o jor­na­lista Car­los Hei­tor Cony, que foi amigo e prin­ci­pal bió­grafo de Jus­ce­lino, tomou a ini­ci­a­tiva e foi o pri­meiro a se mani­fes­tar de maneira inci­siva sobre a simi­la­ri­dade acerca das mor­tes de figu­ras polí­ti­cas em 1976.

Opo­si­to­res eli­mi­na­dos

Para Cony, ape­sar do rela­tó­rio entre­gue pela perí­cia cien­tí­fica, a morte de JK não teria sido aci­den­tal, mas sim um plano da Ope­ra­ção Con­dor, fir­mada entre as dita­du­ras de Bra­sil, Para­guai, Uru­guai, Chile e Argen­tina na década de 1970.

O acordo, esta­be­le­cido for­mal­mente em 1975, con­sis­tia no apoio polí­tico-mili­tar entre os gover­nos da região, que pla­ne­ja­vam e rea­li­za­vam ações com o obje­tivo de eli­mi­nar aque­les que se opu­nham aos regi­mes auto­ri­tá­rios.

“Debru­çado, com a cabeça caída entre o volante e a porta do auto­mó­vel, não res­tando dúvida de que o con­du­tor se encon­trava desa­cor­dado e incons­ci­ente, e já não con­tro­lava o veí­culo, antes do impacto”

Na mesma época, no Bra­sil, JK, João Gou­lart e Car­los Lacerda orga­ni­za­vam uma Frente Ampla que lutava con­tra a dita­dura mili­tar. Coin­ci­dên­cia ou não, em um inter­valo de dez meses, os três líde­res vie­ram a óbito em cir­cuns­tân­cias mis­te­ri­o­sas. O ex-pre­si­dente, João Gou­lart, que havia sido deposto pelos mili­ta­res, teria sofrido um ata­que car­dí­aco e fale­cido, porém, foi encon­trado com um tra­ves­seiro sobre o rosto. Já o jor­na­lista Car­los Lacerda mor­rera logo após tomar uma inje­ção para tra­tar uma forte gripe. Em 2008, o ex-agente do ser­viço de inte­li­gên­cia do governo uru­guaio, Mario Neira Bar­reiro, reve­lou em entre­vista ao jor­nal Folha de S.paulo que espi­o­nou João Gou­lart por qua­tro anos e que o polí­tico foi morto por enve­ne­na­mento a pedido do governo bra­si­leiro.

“Quanto mais se conhece sobre a dita­dura mili­tar e se des­venda vio­la­ções de direi­tos huma­nos, mai­o­res são as dúvi­das sobre as cir­cuns­tân­cias das mor­tes e desa­pa­re­ci­men­tos de resis­ten­tes durante esse perí­odo”

Em busca de jus­tiça

Com o intuito de aju­dar a escla­re­cer os abu­sos come­ti­dos durante o perí­odo da dita­dura mili­tar, a Comis­são Muni­ci­pal da Ver­dade Vla­di­mir Her­zog foi ins­tau­rada em 2012 pela Câmara Muni­ci­pal de São Paulo. Após um longo perí­odo de aná­lise de mate­ri­ais que inclu­íam vídeos, áudios e outros docu­men­tos impor­tan­tes, a comis­são apre­sen­tou um rela­tó­rio que defen­dia o reco­nhe­ci­mento do assas­si­nato de Jus­ce­lino. “A comis­são declara o assas­si­nato de Jus­ce­lino Kubits­chek de Oli­veira, vítima de cons­pi­ra­ção, com­plô e aten­tado polí­tico na rodo­via Pre­si­dente Dutra em 22 de agosto de 1976”, diz o docu­mento.

Quem tam­bém deu um depoi­mento à comis­são foi Ade­mar Jahn, o moto­rista do cami­nhão que se cho­cou com o Opala. Como consta no rela­tó­rio, ele afir­mou ter visto, segun­dos antes da batida, Geraldo Ribeiro “debru­çado, com a cabeça caída entre o volante e a porta do auto­mó­vel, não res­tando dúvida de que o con­du­tor se encon­trava desa­cor­dado e incons­ci­ente, e já não con­tro­lava o veí­culo, antes do impacto”.

Con­tra­ri­ando essa tese de homi­cí­dio, a Comis­são Naci­o­nal da Ver­dade con­cluiu, em 2014, em rela­tó­rio pre­li­mi­nar apre­sen­tado em Bra­sí­lia, que as mor­tes do ex-pre­si­dente e seu moto­rista foram con­se­quên­cias do aci­dente auto­mo­bi­lís­tico sofrido na Via Dutra. “Não há docu­men­tos, lau­dos e foto­gra­fias tra­zi­dos para a pre­sente aná­lise, qual­quer ele­mento mate­rial que, sequer, sugira que o ex-pre­si­dente Jus­ce­lino Kubits­chek de Oli­veira e Geraldo Ribeiro tenham sido assas­si­na­dos, víti­mas de homi­cí­dio doloso”, de acordo com tre­cho do rela­tó­rio da comis­são. Peri­tos cri­mi­nais da Comis­são Naci­o­nal da Ver­dade tra­ba­lha­ram com pro­vas mate­ri­ais do aci­dente, pes­qui­sas docu­men­tais, dili­gên­cias e perí­cias. Tam­bém foi ava­li­ado o frag­mento metá­lico encon­trado no crâ­nio de Geraldo Ribeiro na exu­ma­ção feita em 1996, porém a aná­lise indi­cou que o

. frag­mento real­mente era parte de uma estru­tura usada para fechar o cai­xão.

Ainda assim, essa não foi a última inves­ti­ga­ção envol­vendo a morte de Jus­ce­lino. No final de 2017, o rela­tó­rio final da Comis­são da Ver­dade de Minas Gerais (Covemg) expôs con­tra­di­ções encon­tra­das pela pes­quisa rea­li­zada no estado que indi­cam que JK tenha sido vítima de um aten­tado dos mili­ta­res que coman­da­vam a dita­dura que gover­nava o Bra­sil. “Quanto mais se conhece sobre a dita­dura mili­tar e se des­venda vio­la­ções de direi­tos huma­nos, mai­o­res são as dúvi­das sobre as cir­cuns­tân­cias das mor­tes e desa­pa­re­ci­men­tos de resis­ten­tes durante esse perí­odo”, afirma o rela­tó­rio. A con­clu­são da comis­são foi que “con­si­de­rando o con­texto da época, as dis­tin­tas con­tra­di­ções das ava­li­a­ções peri­ci­ais, os depoi­men­tos e pare­ce­res jurí­di­cos, pode-se afir­mar que é plau­sí­vel, pro­vá­vel e pos­sí­vel que as mor­tes tenham ocor­rido devido a aten­tado polí­tico”.

A Covemg aponta em seu docu­mento oito ques­tões que podem levar à crença de um aten­tado, pois demons­tram que a causa da morte não foi apu­rada de maneira efi­ci­ente. Entre elas, o fato de ter sido rea­li­zado um exame toxi­co­ló­gico no corpo de Jus­ce­lino, mas não no do moto­rista que diri­gia o Opala, e tam­bém de as fotos dos lau­dos se con­tra­di­ze­rem. No ini­cial, as ima­gens cap­tu­ra­das mos­tram a tra­seira do auto­mó­vel sem nenhum estrago, enquanto em outro, datado do dia segu­inte ao aci­dente, o carro apa­rece amas­sado.

Pon­tos mal con­ta­dos na his­tó­ria fazem com que as hipó­te­ses sobre o triste fim do polí­tico nas­cido em Dia­man­tina con­ti­nuem sendo con­tes­ta­das. A notí­cia de sua falsa morte, por exem­plo, ape­sar de não pos­suir uma expli­ca­ção lógica até hoje, inten­si­fica a tese de que Jus­ce­lino era uma figura temida pelos mili­ta­res.