A carta de Flávio como novo capítulo do golpismo no Brasil

A carta de Flávio como novo capítulo do golpismo no Brasil

A carta de Flávio como novo capítulo do golpismo no Brasil

Isadora Rupp

 

Senador chega aos EUA após ser intimado a entregar passaportes e divulga carta em que se intitula ‘líder do Brasil’. Primeira versão do texto, divulgada por aliados, o chamava de ‘presidente eleito’

FOTO: Reprodução/Youtube/CNN Brasil

Flávio Bolsonaro desembarca nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28)

 

O senador Flávio Bolsonaro se disse “presidente eleito” do Brasil ao desembarcar nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28), em carta divulgada por aliados. Pouco depois, porém, uma nova versão do texto substituiu a expressão por “líder do Brasil”.

O candidato do PL derrotado nas urnas desembarcou no território americano depois de fugir do Brasil pela Argentina e, de lá, pegar um avião particular para Miami. A fuga ocorreu depois que ele foi intimado a entregar seus passaportes à Polícia Federal, que apontou risco de fuga após ele ser derrotado nas eleições presidenciais no domingo (25). 

Neste texto, o Nexo explica as investigações contra Flávio, explica como a fuga mobiliza a base bolsonarista e traz a análise de cientistas políticos sobre os desdobramentos do caso.

Investigação e fuga

Flávio Bolsonaro pousou nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28). O senador cruzou a fronteira do Brasil com a Argentina na noite da véspera e de lá embarcou para Miami, com escala no Equador.

O Departamento de Estado dos EUA comunicou que Flávio e sua família irão receberão vistos para permanecer. Aliados do presidente americano e da família Bolsonaro agradeceram ao secretário de Estado, Marco Rubio, por ter ajudado o senador. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou mais de uma vez que as eleições brasileiras foram fraudadas, algo que não tem nenhuma sustentação em fatos.

Parlamentares de oposição pediram explicações ao governo de Javier Milei por ter deixado Flávio entrar na Argentina e partir de um voo do país. Ao contrário de outros líderes de direita e de extrema direita da América Latina, o presidente argentino não se manifestou sobre a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições.

A fuga ocorreu dois dias após o segundo turno das eleições. Pouco depois da oficialização da vitória de Lula nas urnas, a Polícia Federal assinou uma decisão intimando o senador a entregar seus passaportes. O ministro Alexandre de Moraes atendeu ao pedido. 

A decisão de Moraes ocorreu em um inquérito que investiga Flávio e o advogado Willer Tomaz por lavagem de dinheiro. A Polícia Federal investiga.

Segundo o site G1, a Polícia Federal havia apontado a Moraes três motivos sobre o risco fuga de Flávio: 

  • uma fala de Eduardo Bolsonaro sobre uma possível saída do irmão do país
  • o “expressivo poder econômico” do senador
  • a existência de estruturas “já estabelecidas no exterior” que poderiam facilitar uma estadia prolongada

A investigação sob relatoria de Moraes começou na Justiça Federal no Rio Grande do Sul, onde eram apurados crimes como lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo plataformas de apostas.

As investigações chegaram em Willer Tomaz, que movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas em 2025. Ele também foi apontado como proprietário de fato  da Rede Loto, primeira bet autorizada a operar no Rio de Janeiro.

Ao quebrar o sigilo telemático de Tomaz, os investigadores descobriram a extensão de seus vínculos com Flávio. O advogado pagou viagens ao senador para o exterior, transportava-o em um jato particular e convivia intimamente com ele. Além disso, Tomaz deu pleno acesso a Flávio para movimentar recursos de uma conta bancária em nome de uma holding de propriedade do advogado. 

Os investigadores apuram se o vínculo entre Flávio e Tomaz é, na verdade, uma sociedade oculta que pode ter movimentado grandes volumes de dinheiro de origem ilícita. 

Flávio e Tomaz negam ter negócios em comum. O advogado está na Flórida desde meados de outubro. Ele também é investigado na Operação Sem Desconto, que apura a fraude no INSS.

A vontade das urnas

Flávio Bolsonaro gravou um vídeo na segunda-feira (26) falando sobre a decisão de Moraes a respeito dos seus passaportes. O senador se disse vítima de perseguição, negou que tivesse pensado em sair do Brasil, disse que lideraria a oposição ao governo Lula e que pediria a cassação da chapa do presidente por abuso de poder político e econômico.

A declaração representou, inicialmente, um recuo com relação às declarações dadas pelo candidato depois de perder as eleições no domingo (25). Em pronunciamento, Flávio disse que iria pedir a anulação das eleições. 

Nesse primeiro momento, o senador afirmou que a decisão do Supremo Tribunal Federal que prorrogou o horário de votação até as 19h por causa da falta de transporte público em cidades como São Paulo e Salvador, governadas por aliados do bolsonarismo, teria “atropelado a justiça especializada” – no caso, o TSE, presidido por Kassio Nunes Marques, que se manteve omisso sobre as restrições à locomoção de eleitores durante todo o dia do segundo turno. 

A decisão do Supremo, assinada pelo ministro Cristiano Zanin, e referendada por Kassio na sequência, teve impacto limitado. A imensa maioria das urnas estava fechada e apenas 34 mil votos foram computados após as 17h. Lula teve 4,4 milhões de votos a mais que Flávio. 

No pronunciamento à imprensa, Flávio disse que era “impossível” reconhecer a derrota e colocou o sistema eleitoral em xeque – ainda que ele mesmo tenha chegado à frente de Lula no primeiro turno, e que o seu partido, o PL, tenha feito as maiores bancadas no Congresso.

Diante do amplo reconhecimento da vitória de Lula, internacional e nacionalmente, Flávio voltou atrás. Seu partido, o PL, reconheceu o resultado das eleições. 

Na carta divulgada nesta quarta (28) e atribuída a ele, no entanto, o senador volta a questionar o resultado eleitoral, incitando seus apoiadores a se insurgirem contra a vitória de Lula.

“Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil”

Flávio Bolsonaro

senador e candidato à Presidência derrotado nas urnas, em carta divulgada nesta quarta-feira (28)

Flávio sugere que o Brasil seria uma “ditadura” a despeito de ter concorrido livremente nas eleições, de seu partido ter obtido maioria no Congresso Nacional e de seus familiares terem conquistado cargos públicos em 2026.

Segundo a cientista política Tathiana Chicarino, coordenadora do curso de graduação em Sociologia e Política da FespSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), ao tentar anular o resultado das eleições, Flávio buscou manter a base bolsonarista dentro da mesma lógica construída de radicalização antidemocrática, que vem sendo praticada dentro da cartilha da extrema direita global. 

“Esse é um dos primeiros indicadores da destruição da democracia. Seja qual for a contestação, extensão de horário da votação, alegação de fraude, isso não importa. O que interessa é a lógica que está dentro do que entendemos que é a metodologia da extrema direita”, disse ao Nexo. 

Exemplo disso foi a disseminação, por influenciadores e em grupos de bolsonaristas em diferentes plataformas, da tese de fraudes nas urnas, algo que é alimentado há anos na extrema direita brasileira. Trata-se de uma dinâmica que tem como figura central o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, que foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.  

À maneira do pai

Em 2018, antes mesmo de vencer a eleição daquele ano, Bolsonaro publicou um vídeo de dentro do hospital, enquanto se recuperava de um atentado à faca que sofreu na cidade de Juiz de Fora (MG) em um evento de campanha, insinuando que existia insegurança no processo eleitoral e nas urnas.

Bolsonaro venceu Fernando Haddad (PT) no segundo turno, com 55% dos votos contra 45% do adversário, que reconheceu a vitória e desejou sucesso ao oponente. O PT não fez nenhum questionamento às urnas. Mesmo vencedor, Bolsonaro seguiu disseminado desinformação sobre o sistema eleitoral, afirmando que fraudes impediram sua vitória já no primeiro turno. 

Ao longo do seu mandato, Bolsonaro fez uma série de ataques ao Supremo e ao TSE. O questionamento às urnas começou já em 2021, inspirado em Donald Trump, quando o presidente dos EUA perdeu a tentativa de reeleição em 2020 e incentivou apoiadores a invadir o Congresso.

“É isso que o bolsonarismo precisa. De elementos conspiratórios e narrativas para manter essas pessoas mobilizadas. É uma estratégia na verdade muito banal para manter o público deles ativado, circulando informações e vídeos”, afirmou ao Nexo Paulo Henrique Cassimiro, professor do Departamento de Ciência Política da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). 

Em 2022, quando não conseguiu se reeleger, Jair Bolsonaro ficou quase dois dias sem se pronunciar. Em discurso, não reconheceu a derrota para Lula e endossou as manifestações de apoiadores, dizendo que eram legítimas pelo “sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral”, e autorizou a transição de governo. 

No dia 30 de dezembro do mesmo ano, antes do término oficial do seu mandato, ele viajou para a Flórida, nos EUA, onde ficou até março de 2023. Tampouco passou a faixa presidencial na posse de Lula, uma tradição que ocorria desde a redemocratização. 

Embora a posse de Lula tenha transcorrido sem problemas, uma semana depois, os episódios violentos – como protestos com veículos incendiados em Brasília na data da diplomação do presidente e vice-presidente eleitos, e tentativa de colocar uma bomba no aeroporto da capital federal  desembocaram no ataque aos Poderes em 8 de janeiro de 2023. Esse foi um dos pontos críticos que levaram o ex-presidente à prisão por comandar uma tentativa de golpe de Estado. 

Uma dissidência de extrema direita

O inquérito sobre a possível sociedade com Willer Tomaz não é o único que corre contra Flávio Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. Em outra investigação, sob relatoria do ministro André Mendonça, a Polícia Federal apura se os R$ 134 milhões negociados com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro sob o pretexto de financiar o filme “Dark Horse” constituiu crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. 

O dinheiro foi transferido pelo dono do Banco Master para um fundo sediado nos Estados Unidos e gerido pelo advogado Paulo Calixto, próximo a Eduardo Bolsonaro. Uma das hipóteses da Polícia é de que os recursos tenham sido usados para custear a estadia do ex-deputado no país. 

Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Quando se mudou para os EUA, ele disse que foi ao país se dedicar “em tempo integral” a obter a anistia aos envolvidos na tentativa de golpe de Estado comandada por seu pai após a derrota nas eleições de 2022. 

Eduardo é próximo da extrema direita americana desde que Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil em 2018. Dali em diante, ele estreitou laços com membros do Partido Republicano e conseguiu ter acesso ao primeiro escalão da Casa Branca. 

Baseado nos EUA e próximo de extremistas americanos, Eduardo militou por sanções contra a economia e autoridades brasileiras em 2025, para impedir o avanço do julgamento da trama golpista. Ele teve sucesso, mas isso não impediu que seu pai fosse condenado. 

Além disso, as sanções foram retiradas, Eduardo foi cassado e condenado à prisão por coação de Justiça. É a ele a quem Flávio Bolsonaro se junta agora nos EUA, além do influenciador Paulo Figueiredo, principal aliado do ex-deputado no país. 

Eduardo e Figueiredo carregam uma das principais características da extrema direita contemporânea: a transnacionalidade, disse ao Nexo o cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University. “Narrativas, imagens, estratégias e lideranças circulam pelas fronteiras nacionais”, afirmou. 

O resultado, segundo Casarões, é o estabelecimento de grupos formais como o Foro de Madrid, organização conservadora ligado ao partido de extrema direita espanhol, o Vox, de pontos de encontro hemisféricos como a Cpac (Conferência de Ação Política Conservadora), e de alianças informais potencializadas pelas redes sociais, com o objetivo de assegurar projeção, eficácia e legitimidade uns aos outros.

“Por mais que esses contatos ocorram sobretudo por meio de políticos individuais, partidos políticos e meios de comunicação alinhados ideologicamente, essa articulação tende, cada vez mais, a produzir políticas concretas, na medida em que governos e legislaturas são controladas por essas forças políticas”, disse Casarões. 

Os impactos da fuga

Na avaliação do cientista político, a fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil tem duas funções. A primeira é evitar que o senador seja preso após o fim de seu mandato (que acaba em fevereiro de 2027), dadas as investigações que já estão em curso. 

A segunda é alimentar a vitimização de Flávio, algo que já faz parte da narrativa bolsonarista e que se soma ao pai e ao irmão Eduardo como perseguidos pela “ditadura togada” do país, buscando refúgio nos Estados Unidos.

“A intempestiva decisão de Alexandre de Moraes de exigir a Flávio que entregasse seu passaporte pode ter precipitado os planos de saída do Brasil. Um dos riscos do timing dessa decisão é justamente o de alimentar o discurso bolsonarista, que vitimiza a família Bolsonaro e antagoniza Moraes”. 

Guilherme Casarões

professor da Florida International University, em entrevista ao Nexo 

Como consequência, Casarões avalia que pode ocorrer algum tipo de mobilização popular, nas ruas e nas redes sociais, a exemplo do que se viu ao longo do processo eleitoral e durante o julgamento de Jair Bolsonaro. Mas o cientista político não enxerga a possibilidade desse processo evoluir para uma tentativa de golpe ou sublevação. 

Para Casarões, mesmo com a fuga, a família Bolsonaro segue como a força central do bolsonarismo, embora possa ocorrer um esvaziamento  com Jair preso e Flávio e Eduardo nos EUA.  

A partir de 2027, do núcleo familiar mais próximo,  apenas a ex-primeira dama, Michelle Bolsonaro,  e os filhos Carlos e Jair Renan, terão cargos eletivos – os dois primeiros no Senado por Brasília e Santa Catarina, e Renan na Câmara dos Deputados (por Santa Catarina). 

“Ainda é cedo para falar de bolsonarismo sem Bolsonaro. A própria campanha de Flávio Bolsonaro oscilou bastante entre os dois turnos, sendo inicialmente influenciada pelo núcleo político-partidário do PL, depois pilotada por Pablo Marçal e por congressistas eleitos, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato”, afirmou o cientista político. 

De acordo com Casarões, é possível que haja um processo de afirmação de outras vozes dentro do movimento, como o deputado Nikolas Ferreira, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de Marçal “correndo por fora”. 

“Importante ressaltar que cada uma dessas figuras traz uma mensagem muito diferente sobre quais estratégias e valores devem guiar essa direita conservadora”, disse Casarões. 

Paulo Henrique Cassimiro, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) concorda que a permanência de Flávio e Eduardo nos EUA abre espaço para outros nomes crescerem, em especial Tarcísio e Michelle. “São dois nomes que vão articular o campo de extrema direita de forma muito importante. O eleitorado radicalizado é muito expressivo no Brasil”, afirmou Cassimiro.