*A FEDERAÇÃO PODE SALVAR O PDT DA ASFIXIA ELEITORAL, MAS NÃO RECONSTRUIRÁ O TRABALHISMO*
*A FEDERAÇÃO PODE SALVAR O PDT DA ASFIXIA ELEITORAL, MAS NÃO RECONSTRUIRÁ O TRABALHISMO*

*_Entre a sobrevivência institucional e a reconstrução política, o PDT precisa decidir se pretende apenas continuar existindo ou voltar a ter relevância na história brasileira._*
A decisão comunicada informando que a Executiva Nacional do PDT, autorizada pela Convenção Nacional, deliberou pelo ingresso do partido na Federação já constituída por Avante, PRD e Solidariedade, com a expectativa de posterior incorporação do PSB, coloca o Trabalhismo diante de uma questão que vai muito além de uma composição eleitoral.
A medida tem uma justificativa objetiva: diante das dificuldades enfrentadas pelo PDT para superar a cláusula de desempenho e preservar sua representação institucional, a Federação aparece como uma alternativa para garantir condições de sobrevivência eleitoral, preservar mandatos, ampliar possibilidades de atuação parlamentar e evitar que o partido seja empurrado para uma posição ainda mais marginal no sistema político brasileiro.
Não se pode subestimar a gravidade desse cenário. O PDT, uma organização que carrega a herança política de Getúlio Vargas, João Goulart, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, que já ocupou posições centrais na política nacional e teve protagonismo na construção de grandes debates sobre soberania, desenvolvimento, educação e direitos sociais, encontra-se hoje diante de uma situação em que sua própria continuidade institucional precisa ser protegida por meio de uma engenharia de sobrevivência eleitoral.
É um sinal inequívoco da dimensão da crise.
A Federação pode representar uma boia salva-vidas. Pode oferecer ao PDT tempo e condições para permanecer no jogo político, evitar um enfraquecimento institucional ainda maior e preservar sua existência jurídica e eleitoral. Diante das circunstâncias, seria irresponsável ignorar a importância desse instrumento.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre salvar uma organização da asfixia eleitoral e reconstruir as condições políticas que lhe permitam voltar a ser protagonista.
E é justamente essa diferença que precisa estar no centro do debate.
*A crise é muito mais profunda do que a cláusula de desempenho*
A dificuldade de superar a cláusula de desempenho não é um problema isolado, tampouco uma fatalidade administrativa. Ela expressa, em alguma medida, um processo mais profundo de perda de densidade política, capacidade de mobilização social, identidade programática e influência na disputa pelos rumos do país.
O PDT não enfrenta apenas uma dificuldade eleitoral. Enfrenta uma crise de projeto, de organização, de formação política e principalmente de direção estratégica.
Um partido que nasceu reivindicando a reconstrução do Trabalhismo brasileiro, que se apresentou como herdeiro de uma tradição nacional-popular e que teve em Brizola uma das principais referências da luta pela soberania nacional e pela transformação social *não pode reduzir sua perspectiva de futuro à obtenção de condições mínimas para continuar disputando eleições.*
A questão que precisa ser enfrentada é mais grave: *como uma tradição política com tamanha trajetória histórica chegou ao ponto de depender de uma composição federativa para assegurar sua sobrevivência institucional?*
Onde estão as forças sociais que historicamente deram sustentação ao Trabalhismo? Onde está a capacidade de organização popular? Onde estão os espaços permanentes de formação de novos quadros? Onde está a intelectualidade trabalhista produzindo pensamento, interpretando as transformações do capitalismo brasileiro e formulando alternativas para o desenvolvimento nacional?
Onde está, enfim, o projeto político capaz de transformar a memória histórica do Trabalhismo em força concreta para o presente e para o futuro?
Essas perguntas não podem ser substituídas por negociações eleitorais.
*Sobreviver não é o mesmo que reconstruir*
A Federação pode garantir ao PDT uma sobrevida institucional, mas não produzirá, por si só, uma identidade política renovada.
Também não está automaticamente assegurado que a convivência com outras organizações partidárias resultará no fortalecimento da tradição trabalhista. Pelo contrário, sem uma definição clara de objetivos, princípios, autonomia política e estratégia de atuação, existe o risco de que o PDT passe a ocupar uma posição cada vez mais secundária dentro de uma composição construída prioritariamente para atender às necessidades eleitorais de seus integrantes.
Qual será o espaço do pensamento trabalhista nessa Federação? Como serão preservadas as bandeiras históricas do partido? Qual será a capacidade de formular posições próprias sobre o desenvolvimento nacional, a soberania, o mundo do trabalho e o papel do Estado? Como impedir que a necessidade de sobrevivência eleitoral termine aprofundando a diluição da identidade política do PDT?
São questões fundamentais, que exigem debate político e não apenas encaminhamentos burocráticos.
Há também um problema de método. Uma decisão dessa dimensão, com consequências para o futuro da organização, deveria ser acompanhada de um amplo processo de discussão com as direções estaduais, municipais, movimentos partidários, militantes e diferentes setores que compõem o PDT.
Não basta comunicar uma decisão. É necessário construir compreensão política sobre ela, discutir seus limites, estabelecer compromissos e definir o que se pretende fazer com o tempo conquistado.
Afinal, a Federação não pode ser o ponto de chegada de um partido que precisa urgentemente encontrar um novo caminho.
*O que deveria começar agora?*
Se a Federação representa uma oportunidade de ganhar tempo, esse tempo precisa ser utilizado para enfrentar os problemas estruturais do Trabalhismo.
É indispensável iniciar um processo de diagnóstico, autocrítica e reconstrução política.
Isso significa recuperar a capacidade de elaboração programática, reorganizar a militância, estabelecer mecanismos permanentes de formação, reconstruir vínculos com os trabalhadores e os movimentos populares e voltar a disputar o imaginário político da sociedade brasileira.
É preciso reconstruir uma intelectualidade trabalhista, criar espaços de produção e circulação de ideias, fortalecer instrumentos de comunicação, organizar campanhas políticas permanentes e desenvolver uma estratégia de inserção social que não dependa exclusivamente dos calendários eleitorais.
O PDT precisa voltar a produzir pensamento, formar dirigentes, organizar militantes e apresentar ao Brasil um Projeto Nacional Trabalhista atualizado diante dos desafios do século XXI.
A memória de Vargas, Jango e Brizola não pode permanecer apenas como patrimônio simbólico, utilizado em homenagens, comemorações e campanhas eleitorais. Ela precisa ser transformada em capacidade de interpretação da realidade, formulação política e organização de forças sociais.
Uma tradição política não permanece viva simplesmente porque conserva seu nome, sua sigla ou seus símbolos. Permanece viva quando consegue responder às contradições de seu tempo e oferecer perspectivas de futuro.
*O perigo de ganhar tempo sem saber o que fazer com ele*
A situação exige urgência. Não estamos diante de uma dificuldade passageira que possa ser resolvida exclusivamente por uma aliança eleitoral. Estamos diante de um problema que envolve a própria razão de existir do PDT enquanto instrumento de representação e organização do Trabalhismo brasileiro.
A Federação poderá evitar um naufrágio imediato, mas não resolverá as causas que levaram o partido a essa situação.
Se não houver um processo de reconstrução, o PDT poderá atravessar mais uma eleição, preservar parte de sua estrutura e continuar existindo formalmente, enquanto perde progressivamente aquilo que lhe confere sentido histórico e político.
Será uma sobrevivência sem projeto, uma estrutura sem movimento e uma tradição sem capacidade de renovação.
E esse talvez seja o maior perigo: confundir a manutenção da organização com a recuperação de sua força política.
Uma boia salva-vidas é fundamental para quem está se afogando. Mas ela não substitui a necessidade de recuperar as forças, encontrar uma direção e alcançar a margem.
*Sem diagnóstico, sem debate, sem formação política, sem organização de base e sem um projeto nacional trabalhista, corremos o risco de utilizar a Federação apenas para ganhar algum tempo, nadar com todas as nossas forças e, mesmo assim, morrer na praia.*
O PDT precisa sobreviver. Mas a sobrevivência não pode ser seu único horizonte.
O que está em jogo é a possibilidade de reconstruir uma força política que tenha condições de voltar a interpretar o Brasil, representar os interesses dos trabalhadores, disputar a hegemonia política e cultural e apresentar um projeto de desenvolvimento soberano para a Nação.
Não se trata de escolher entre a Federação e o Trabalhismo. Trata-se de compreender que a primeira, quando muito, pode oferecer condições para reconstruir o segundo.
*A Federação pode salvar o PDT da asfixia eleitoral. Mas somente a reconstrução política, ideológica e organizativa poderá salvar o Trabalhismo da irrelevância histórica.*
E essa reconstrução não pode esperar.
Daniel Matos


