50 anos depois, neto de João Goulart defende revisão de causa da morte do ex-presidente

50 anos depois, neto de João Goulart defende revisão de causa da morte do ex-presidente

50 anos depois, neto de João Goulart defende revisão de causa da morte do ex-presidente

O advogado e escritor Christopher Goulart foi o entrevistado da semana no podcast "Direto de Brasília", apresentado pelo jornalista Magno Martins

Christopher Goulart (D) defende que o caso seja revisto

Christopher Goulart (D) defende que o caso seja revisto - Reprodução/Youtube Folha de Pernambuco

A morte do ex-presidente João Goulart, o Jango, completa 50 anos em dezembro. Oficialmente descrito como ataque cardíaco, o episódio é alvo de muitos questionamentos, em especial por ter ocorrido próximo às mortes de outros opositores da ditadura militar, como o também ex-presidente Juscelino Kubitschek e o ex-governador Carlos Lacerda. Neto de Jango, o advogado e escritor Christopher Goulart defende que o caso seja revisto. Em entrevista ao podcast "Direto de Brasília", por ocasião do lançamento de seu livro "E Manchado de Sangue Terás que Crescer: Uma Vida de Lutas", ele diz que não tem dúvidas de que seu avô foi assassinado pela ditadura.

O título de seu livro é por conta de um poema escrito por seu pai, João Vicente Goulart, que também lançou algumas publicações. A sua tem algo bombástico?

 

Não sei se bombástico. Sempre gostei de escrever, sou músico, baterista e também sou advogado. Escrevi artigos durante muitos anos em jornais do Rio Grande do Sul e comecei a escrever esse livro na pandemia, despretensiosamente. Quis mostrar como é a vida de um descendente de um presidente que sofre um golpe militar. As pessoas têm a tendência de glamourizar a questão de ser neto de presidente. Eu precisava mostrar quem era o Christopher. É muito difícil viver uma vida com uma sombra, um vulto gigantesco de um cara que marcou a política brasileira, latino-americana e mundial.

E como seria essa visão?

O meu é mais uma história de superação. Não precisa gostar de história, ser de esquerda ou gostar de política para ler o meu livro. Até o sofrimento eu procuro traduzir, porque trago como mensagem que a gente tem que reciclar esse sentimento e torná-lo propositivo. Embora tenha nascido no exílio, em Londres, sou um filho da história do Brasil, e vou justificar isso. Em 1964, quando teve o golpe militar, meu pai foi para o Uruguai e conheceu minha mãe lá. Eu não teria nascido se não fosse o golpe. Mas eu não visto a roupa da vitimização. Acho que a melhor resposta e reação é a da gratidão. Todos esses episódios, se não te matam, te tornam mais forte. Não é demagogia a gratidão. Confesso que pode soar provocativo.

Recentemente houve uma reabertura nas investigações sobre o acidente de carro que matou o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Como a sua família vê essa situação, e no que se pode reavaliar também a questão da morte de Jango?

Para nós não foi surpresa, muito embora a Comissão da Verdade já tenha apontado que Juscelino foi assassinado. Não é novidade que o motorista de Juscelino tinha uma marca na cabeça, provavelmente um projétil, que causou o acidente. Em função de o motorista dele ter sido assassinado, consequentemente Juscelino também foi. Eu, como advogado, apurei junto ao Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul as circunstâncias da morte de meu avô. Lá existe um procedimento ainda aberto até hoje. Veja, tantos políticos da América Latina foram assassinados, e Jango foi o perseguido político número um da região. Houve vários golpes na América Latina. Em 1976, já havia terminado a punição de cassação política de Jango, ele poderia voltar ao Brasil. A ditadura havia começado a ventilar a anistia, mas ela havia deposto um presidente. Eles iriam deixar meu avô voltar para a democracia? Claro que não.

Na sua opinião, então, ele foi assassinado...

Houve a Operação Escorpião, tudo documentado, que era uma típica Operação Condor e contou com agentes americanos. A gente pede oitivas de agentes americanos, abertura de documentos sigilosos. Muitos documentos foram colocados com sigilo permanente, sendo negada a verdade dos porões da ditadura. No caso de Jango, teria sido colocado um composto químico dentro de uma cápsula que ele tomaria, e isso teria causado o infarto. Sempre digo que, com certeza, ele foi assassinado. Mesmo que essa hipótese do envenenamento não seja verdadeira, o assassinato dele foi muito pior que se tivesse tomado um tiro, uma facada ou um remédio. Ele foi jogado ao exílio por 12 anos, sem poder voltar ao Brasil. Um idealista que amava o seu país. Isso é um assassinato muito mais cruel.

Mesmo 50 anos depois, ainda é muito difícil encontrar as tais evidências?

Sim, tecnicamente a exumação não apontou. Vamos continuar trabalhando no inquérito civil público, que segue aberto no Ministério Público Federal. Sempre digo que mais importante do que a morte do Jango é a vida dele. E, através das circunstâncias de sua morte, a gente consegue recuperar o espírito dele. Jango é imortal. Ele, Juscelino e Carlos Lacerda morreram num período de nove meses. Essa era a prática política do Estado brasileiro, de assassinar aqueles que não batiam continência ou que não gostavam do famoso “sim, senhor”.

O que mais lhe surpreendeu nessas investigações em que participou, como familiar e como advogado?

Quando comecei a representar minha família como advogado, estudei muito a Operação Condor. Não que me surpreenda, mas o que vejo de diferencial na história de meu avô é a capacidade de ter empatia com o sofrimento do povo. Ele tinha um espírito elevado. Eu acredito nisso. Tanto que tenho certeza de que ele estava à frente do seu tempo e foi mal compreendido, porque fugia do pensamento convencional. Essa sensibilidade é o que eu destaco de mais importante. E ele tinha muita energia, e isso faz muita falta, o humanismo na política brasileira.

Sobre o exílio, o que poderia dizer de um período de 12 anos?

Meu avô sabia que era vigiado o tempo inteiro. Muita gente se engana a esse respeito. Acham que, depois de 1964, ele passou a vida tranquila. Ele foi perseguido até o último dia pelas ditaduras de outros países. Teve que sair do Uruguai porque teve golpe, foi para a Argentina e também ocorreu isso. A perseguição foi implacável, todos os dias. Evidente que ele queria voltar ao Brasil. É muito cruel ver um cara que deixou tudo pela pátria ser o único presidente a morrer no exílio. Aí vêm as contradições. Aqueles que muito querem matar, porque são medíocres, na verdade acabam imortalizando a pessoa. Jango está no panteão dos líderes brasileiros para toda a eternidade.

Na sua visão, como teria sido se seu avô tivesse concluído o mandato, por exemplo?

O Brasil hoje seria outro se o Jango tivesse dado continuidade às reformas de base. Vale lembrar que ele somente governou o país por um ano e dois meses em regime presidencialista, porque antes governava no parlamentarista. Quando ele assumiu, os generais não queriam permitir que ele fosse nomeado e ingressasse no cargo que lhe era de direito, pela Constituição de 1947. Aí você vê o delírio, vê que tem algo de podre. Ele foi eleito vice-presidente democraticamente, quando eram votos separados. O presidente Jânio Quadros renunciou, a consequência seria o vice assumir. E três lunáticos que representavam as Forças Armadas e setores conservadores diziam que ele não poderia assumir. Como se a voz deles fosse mais importante que a Constituição da República. E ele assumiu em 1961, no parlamentarismo, depois no presidencialista. E, quando avançou nas reformas de base, que já estavam acontecendo, foi deposto.

Dizem que todo mundo tem um preço a pagar na vida. Qual avalia que foi o do seu avô e qual é o seu?

Cada um carrega sua cruz. O preço maior foi ele ter ficado o tempo todo fora do país. Objetivamente, o golpe de Estado destruiu a minha família, não só politicamente. As bases familiares, meu avô morreu cedo por causa disso. Ele era bem-sucedido financeiramente e perdeu todos os bens. Mas eu procuro pegar tudo isso e aposto em dobro. Não gosto de vestir roupa de vitimização, tudo isso nos fortaleceu. Tenho muito orgulho de hoje andar em qualquer lugar de cabeça erguida. Na verdade, o que tentaram fazer nos deu muito mais valor.

Uma figura muito próxima a seu avô foi o ex-governador Leonel Brizola, que inclusive eram cunhados. Mas os estilos eram muito diferentes?

Brizola era mais aguerrido e meu avô mais conciliador, mais do diálogo. Mas foram dois grandes líderes, que disputavam espaço na época, havia os janguistas e os brizolistas. Eram estilos muito diferentes.

Ficou para a história que Brizola orientou Jango com a tese de que deveria resistir, mas que ele não resistiu. Essa é sua avaliação?

Sempre digo que é preciso pontuar os contextos. Jango era um líder nacional, a caneta dele pesava mais. Brizola tinha sua representação muito vinculada ao Rio Grande do Sul na época. Quando você tem uma responsabilidade maior, o buraco é mais embaixo. Tenho orgulho de dizer que meu avô evitou duas guerras civis no Brasil. Ele tinha grandeza. Jango não aceitou um brasileiro morto em função da sua manutenção no cargo. Esses são os detalhes da pessoa dele que precisam ser exaltados. Ele podia ter ficado mais tempo, mas levaria o país à guerra, e não quis isso. Meu avô tinha muito mais informações que Brizola, sabia dos movimentos. Brizola muitas vezes jogava para a torcida. Não é bem assim que funciona a coisa.

‘Manchado de sangue terás que crescer’, o título de seu livro, foi uma premonição do seu pai?

É um poema que ele fez, e uma história de superação. A introdução do livro explica o título, que tem na capa meu pai olhando uma criança, no caso eu. Ele tinha perdido o pai de maneira trágica e escreve sobre isso. Ele pensava na circunstância dele, mas me delegou uma espécie de missão. E o golpe foi uma mancha de sangue.