Vice é importante sim

Vice é importante sim

Vice é importante sim

O encerramento das convenções em 5 de agosto disse menos sobre os nomes que disputarão o Planalto do que sobre a perda de função de um cargo que, por quatro décadas, organizou a construção de maiorias no Brasil

    


 

 

Entre 20 de julho e 5 de agosto correu a janela em que partidos e federações homologam candidaturas e desenham coligações, e ao fim dela cinco chapas presidenciais estavam formadas — quatro delas com presidente e vice na mesma legenda. O partido Missão foi o primeiro a se definir, em convenção virtual de 20 de julho, com Renan Santos e o tenente-coronel da reserva Aroldo Medina. O PL homologou Flávio Bolsonaro em 25 de julho, mas só anunciou o companheiro de chapa no último dia do prazo: o deputado federal Alfredo Gaspar, que havia sido homologado candidato ao Senado por Alagoas menos de vinte e quatro horas antes, escolha que veio depois de as tratativas com PP, União Brasil, Republicanos e Podemos não prosperarem. O PSD apresentou em 26 de julho a chapa de Ronaldo Caiado com Gilberto Kassab, presidente da própria sigla. O Novo fechou em 4 de agosto, a dois dias do encerramento, com Romeu Zema e o senador Eduardo Girão, que abandonou a disputa pelo governo do Ceará para ocupar a vaga. Apenas o PT preservou a gramática antiga: Lula e Geraldo Alckmin, do PSB, repetindo a chapa de 2022 sobre uma coligação de sete legendas.

 

A chapa pura, neste ciclo, não é doutrina. É pragmatismo e calcificação, ainda que sempre transitória e momentânea quando se tratam eleições, das composições políticas.

 

A vice-presidência brasileira nem sempre foi peça de composição. Sob a Constituição de 1946, presidente e vice eram eleitos em pleitos separados, e o arranjo produziu, em 1960, o desencontro que atravessaria a década: Jânio Quadros, do PDC, e João Goulart, do PTB, oriundos de chapas adversárias, empossados no mesmo governo em 31 de janeiro de 1961. A Constituição de 1988 fechou essa porta ao vincular a eleição do vice à do titular com quem se registra, e desde então o cargo passou a exercer outra função, mais discreta e mais decisiva — a de moeda. José Alencar, empresário têxtil recém-filiado ao PL, entrou na chapa de Lula em 2002 como sinal endereçado ao empresariado; Michel Temer levou o PMDB à chapa de Dilma Rousseff em 2010; Hamilton Mourão, do PRTB, ofereceu a Jair Bolsonaro em 2018 a credencial militar que o partido do candidato não fornecia. Em nenhum desses casos o vice media afinidade. Media alcance.

 

O contraste com o plano estadual ilumina o problema. No Amapá, as convenções demonstraram constância perante o cenário político dos últimos anos. No estado, a chapa majoritária segue operando como instrumento de agregação; em Brasília, o mesmo mecanismo se recolheu.

 

Se o vice deixou de ser moeda de aliança, o que passa a construir maioria numa eleição presidencial? Uma chapa que se fecha sobre a própria legenda governa depois com que tipo de relacionamento com a base no Congresso, por exemplo? Isso de fato é tão influente assim? Qual é o lugar de interesse, de fato, das relações de poder onde a matemática e a probabilidade ainda não se cristalizaram? Para mim, a chave da explicação sobre o porvir está no resultado das eleições proporcionais. Essa sim, está bastante indefinida. A urna responde em outubro.