Como a crise no Supremo pode reverberar nas eleições
Como a crise no Supremo pode reverberar nas eleições
Marcelo Montanini
FOTO: Antonio Augusto/STF 02.09.2026
Ministros do STF, André Mendonça e Alexandre de Moraes durante sessão da corte
A divulgação, na terça-feira (1º), de mensagens obtidas numa investigação da Polícia Federal sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, deve ter impacto na disputa presidencial, que ocorre dentro de um mês, em 4 de outubro.
Os presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) criticaram imediatamente Moraes pela aproximação com Vorcaro, revelada após o ministro André Mendonça retirar o sigilo da investigação da PF.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se manifestou dois dias depois, na quinta-feira (3), em um vídeo no qual lembrou que o banqueiro foi preso pela Polícia Federal durante seu mandato, criticou “vazamentos seletivos” e disse que ninguém está acima da lei. Ele reiterou esse posicionamento em evento na sexta-feira (4), depois que Moraes contra-atacou com seu próprio pedido de investigação contra Mendonça, no âmbito do inquérito das fake news.
“Ninguém, em nome da democracia, pode utilizar o cargo que tem em benefício pessoal”
Luiz Inácio Lula da Silva
presidente da República, em evento com o presidente do Supremo, Edson Fachin, nesta sexta-feira (4)
Neste texto, o Nexo explica o que se sabe sobre Moraes e Vorcaro, mostra o papel de Mendonça nas revelações e analisa, com a ajuda de dois cientistas políticos, os possíveis impactos eleitorais da crise no tribunal nas eleições.
A imagem de Moraes
André Mendonça, relator do caso Master no Supremo, retirou na terça-feira (1º) o sigilo da investigação sobre as relações entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, desvelando a proximidade entre o banqueiro e o ministro. Trocas de mensagens entre os dois mostram conversas sobre datas e horários da Operação Compliance Zero, que revelou o escândalo do Master.
Num dos diálogos encontrados pela Polícia Federal, revelados inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo, Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o Brasil para não ser preso. “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, o banqueiro indagou dois dias antes da ação que o prendeu no aeroporto de Guarulhos em novembro de 2025.
FOTO: Divulgação/Banco Master
Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master
Em outra mensagem, Vorcaro disse a Moraes: “É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem, que aí vai tudo para o saco”. Andrei é Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal. Já Paulo é Paulo Gonet, procurador-geral da República.
A PF também identificou que Moraes foi a última pessoa a revisar, em 2024, a minuta de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O banqueiro tratava as obrigações financeiras com a empresa com prioridade absoluta.
FOTO: Divulgação / TSE
Viviane Barci e Alexandre de Moraes
As mensagens mostram ainda que Moraes se encontrou pessoalmente com Vorcaro pelo menos seis vezes, que o ministro ajudou o banqueiro a organizar um evento jurídico no exterior e que Viviane Barci tinha um segundo contrato com uma empresa da teia do Master no valor de R$ 50 milhões.
Por meio de perícia no celular de Vorcaro, a Polícia Federal mostrou o padrão de comunicação entre o banqueiro e o ministro do Supremo: capturas de tela de conteúdos de visualização única escritos no aplicativo de notas — o que impede a recuperação das respostas de Moraes às mensagens.
Após a divulgação do relatório, Mendonça pediu ao presidente do Supremo, Edson Fachin, que as menções a Moraes e Gonet sejam analisadas no plenário da corte. O ministro também solicitou a manifestação da Procuradoria-Geral da República, que, em resposta, requereu a anulação da investigação. Moraes não se manifestou.
FOTO: Ton Molina/STF 10.06.2025
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, em interrogatório no STF
Moraes foi o relator da ação penal da tentativa de golpe de Estado, que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a mais de 27 anos de prisão. O ministro é considerado o rosto institucional da resposta do Supremo às investidas golpistas bolsonaristas, inclusive na eleição de 2022, quando ele presidia o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e Lula venceu o pleito.
Desde os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, Lula vem buscando reforçar uma aliança tática com o Supremo de defesa da democracia. Ao mesmo tempo, o governo acionou a corte para frear os avanços do Congresso Nacional em algumas pautas, o que reforçou a relação entre o Executivo e o Judiciário.
A ação de Mendonça
Antes das revelações de terça (1º), em 24 de agosto, Mendonça determinou a produção de um relatório sobre as mensagens de Vorcaro e Moraes, numa reunião surpresa, que integrantes da Polícia Federal consideraram uma “cilada”.
O ministro recebeu os investigadores com um despacho já pronto, determinando que a Polícia Federal analisasse e identificasse em 72 horas todas as pessoas mencionadas em determinadas mensagens no celular de Vorcaro.
Segundo a coluna da jornalista Bela Megale, no jornal O Globo, Vorcaro também prestou depoimento diretamente ao gabinete de Mendonça no fim de agosto, com a presença do Ministério Público e sem a Polícia Federal. Ao falar com as autoridades, o banqueiro teria mencionado o nome de Andrei Rodrigues, mas o de Moraes, não.
FOTO: Luiz Silveira/STF 26.03.2026
O ministro André Mendonça em sessão plenária do STF
A decisão do ministro de retirar o sigilo do relatório da PF ampliou uma crise interna no Supremo e com outras instituiçoes.
Em manifestação à corte, Gonet afirmou que Mendonça estava avançando indevidamente nas investigações sobre o Master ao solicitar um relatório sem pedido da PGR ou da PF, além de embarcar no caso Moraes sem autorização prévia do plenário.
Na quinta-feira (3), foi a vez de Moraes pedir uma investigação contra Mendonça. Com base em um relatório interno da Polícia Federal, o ministro afirmou que há indícios de abuso de autoridade e crime de responsabilidade do colega na relatoria dos casos Master e do INSS.
Em resumo, Moraes levanta a hipótese de haver direcionamento de linhas de investigação e de alvos por motivos pessoais e políticos. Segundo o documento da Polícia Federal usado pelo ministro para embasar seu pedido, Mendonça teria tentado driblar a cúpula da Polícia Federal e do Ministério Público e interferido pessoalmente negociações de delação premiada nos dois casos que relata.
Mendonça vive uma tensão há tempos com a Polícia Federal. De ambos os lados, há a percepção de que as ações no caso Master e no caso Lulinha — alvo de três inquéritos no Supremo, parte deles sob a relatoria do ministro, por suspeitas de crimes como tráfico de influência — são conduzidas de forma seletiva, travando ou avançando as investigações a depender do investigado.
FOTO: Carlos Moura/Agência Senado 05.12.2025
Flávio Bolsonaro durante sessão plenária no Senado
Mendonça foi indicado ao Supremo por Bolsonaro, que tem em Moraes um alvo constante de críticas. Flávio, seu filho, tenta ganhar dividendos com a crise na corte. Em entrevista a jornalistas na terça (1º), o senador e candidato à Presidência chamou Moraes de “advogado de Vorcaro”.
O presidenciável está diretamente envolvido no caso Master por pedir recursos a Vorcaro para “Dark Horse”. Reportagem publicada na terça (1º) pela revista piauí revelou que o banqueiro fez um repasse adicional de US$ 1,6 milhão para o filme sobre Jair Bolsonaro em setembro de 2025, dias após o senador cobrar parcelas atrasadas.
US$ 12,3 milhões
foi o total enviado por Daniel Vorcaro ao filme, segundo a revista piauí
Na quarta-feira (2), um dia depois de retirado o sigilo dos diálogos entre Moraes e Vorcaro, mensagens e áudios entre o banqueiro e Mendonça vieram à tona. Elas revelam um encontro secreto entre o empresário e o relator do caso Master, como mostrou o jornalista Paulo Motoryn em sua página no Substack.
Em nota, Mendonça admitiu o encontro. O ministro acrescentou que se limitou a ouvir o banqueiro e votou contra seus interesses no Supremo.
A crise no Supremo sob análise
O Nexo conversou com dois cientistas políticos para entender como a crise no Supremo pode impactar as eleições. São eles:
- Creomar de Souza, CEO da consultoria Dharma e professor da Fundação Dom Cabral
- Ernani Carvalho, professor de ciência política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)
Essa crise no Supremo pode afetar a campanha de Lula? Por quê?
CREOMAR DE SOUZA A crise afeta a campanha de Lula de maneira quase direta, porque coloca uma figura central no combate ao bolsonarismo no centro do debate eleitoral. Moraes, ao longo dos últimos anos, foi se tornando quase que um sinônimo daquilo que se chamou de uma resistência institucional e democrática ao histrionismo de Bolsonaro, que resultou no julgamento da trama golpista.
À medida que Mendonça solta esses dados [mensagens entre Moraes e Vorcaro] e, em algum sentido, cria uma pressão pública para que haja uma investigação sobre a figura de Moraes, fortalece a narrativa política de que tudo aquilo que envolveu o ministro era parte de uma grande conspiração, que tinha como objetivo tirar Jair Bolsonaro do jogo político e colocar o poder nas mãos dos mesmos de sempre — Lula, o Supremo, Gilmar Mendes, o centrão e por aí vai. Lembrando que o bolsonarismo tem uma narrativa antissistêmica.
FOTO: Marcelo Camargo /Agência Brasil 12.05.2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia de lançamento do programa Brasil Contra o Crime Organizado
A primeira onda de choque tem esse impacto direto, que coloca Lula numa situação complexa. O silêncio gera a percepção de conivência [o presidente se manifestou dois dias depois de as suspeitas contra Moraes virem à tona], o que alimenta um discurso mais irritadiço da oposição em relação a ele; mas, em algum sentido, tentar defender Moraes não faria com que Lula fosse bem visto por eleitores novos e aprofundaria a descrença na sua reputação entre os indecisos.
Isso a depender dos desdobramentos — porque começou o fogo trocado. Já surgiu um diálogo entre Mendonça e Vorcaro. Isso vai gerando uma série de barulhos, que precisamos observar e tentar separar com tranquilidade para entender efetivamente quais serão seus impactos ao longo dos dias.
ERNANI CARVALHO Ainda é muito cedo para avaliar se essa nova crise que explode dentro do Supremo Tribunal Federal terá impacto nas eleições.
Sabemos que Lula tem uma boa relação com Moraes. O presidente foi o único dos candidatos a não se pronunciar sobre o que aconteceu [Lula se manifestou dois dias depois de as suspeitas contra Moraes virem à tona]. Isso, de alguma forma, pode ser interpretado como algo negativo pelo eleitorado e, futuramente, resvalar em algum tipo de impacto na corrida eleitoral.
Mas ainda é preciso ter calma, porque o presidente provavelmente vai se manifestar, e é preciso ver o tom e a extensão do seu pronunciamento [ver acima]. Também precisamos saber quais decisões o Supremo vai tomar em relação ao que aconteceu.
Flávio Bolsonaro está envolvido diretamente no escândalo Master. O quanto o caso Moraes pode beneficiá-lo? Por quê?
CREOMAR DE SOUZA Diferentemente de Lula, Flávio está diretamente implicado no caso. Há um áudio do candidato conversando com Vorcaro, pedindo dinheiro. A primeira saída que o bolsonarismo tentou para isso foi tentar desqualificar [as revelações], dizendo que o dinheiro era privado e é tranquilo pedir dinheiro privado; a segunda foi tentar apontar para outros lados.
Nesse contexto, creio que o principal impacto em termos de benefício é a possibilidade de que, à medida que as pessoas falem mais de Moraes, falem mais de Lulinha, falem mais de Gonet, falem mais de outros assuntos, falem menos de Flávio. E, falando menos de Flávio, em algum sentido, a campanha tem a possibilidade de fingir que os problemas não existem. Com isso, o candidato pode, inclusive, atuar no sentido de ser mais um tijolo tentando quebrar essas vidraças alheias.
ERNANI CARVALHO De alguma forma, essa crise termina puxando uma parte do debate sobre o caso Master para dentro do Supremo Tribunal Federal, já que estão envolvidos diretamente não só o ministro Alexandre de Moraes, como também o procurador-geral da República [Paulo Gonet]. Não podemos esquecer ainda o ministro [Dias] Toffoli, que, no início das investigações, foi o primeiro alvo desse enredo.
Isso termina tirando a atenção do caso Master e da relação entre Vorcaro e Flávio, focando mais no Supremo. Acho que isso, de certa forma, beneficia não só Flávio, mas o próprio Lula, que estava com o caso do Lulinha, do INSS [Instituto Nacional do Seguro Social]. Esses casos terminam passando para um segundo plano. Deixam de estar em evidência e passa a ter evidência o escândalo do Master dentro do Supremo.
O caso pode impulsionar campanhas de outros candidatos?
CREOMAR DE SOUZA Acho que ele pode prejudicar os dois principais candidatos.
Ao passo que o escândalo tem um componente de benefício a Flávio, pelo próprio relacionamento e a biografia da chegada de Mendonça ao Supremo pelas mãos de Jair Bolsonaro, há também um risco de que os eventos, conforme estamos vendo, são o início de uma sinalização de muito chumbo trocado entre Mendonça, Moraes e outros ministros do STF, seja em termos privados, seja em âmbito público pela imprensa.
A trocação de chumbo efetivamente tem dois efeitos que estou muito interessado em observar nas próximas medições. O primeiro deles é em termos de resiliência das principais candidaturas. Vamos ver o quanto essa polarização afetiva em favor de Lula e Flávio resiste à troca de insultos públicos entre os ministros do Supremo. O segundo efeito é sobre como efetivamente essa troca de chumbo afeta as percepções de eleitores, sobretudo aqueles mais indecisos, que até poucas semanas atrás se sentiam meio que reféns do “ou é Lula ou é Bolsonaro”.
Aí tem um indicativo interessante: a última medição da [pesquisa] BTG/Nexus deu 11 pontos para Augusto Cury (Avante). É a primeira vez desde muito tempo que um candidato de terceira opção tem mais de dois dígitos numa medição. Depois, a [pesquisa] AtlasIntel também identificou um crescimento do Cury e do Renan Santos.
O que podemos ter como um panorama hipotético é que esse desgaste, ocasionado por mais uma crise — num ambiente que eu chamaria de policrise —, pode fazer com que eleitores indecisos comecem a ponderar a possibilidade de votar em alguém que não seja nenhum dos dois [Lula ou Flávio]. Nesse aspecto, creio que se abre um espaço de disputa para aquilo que seria um voto de rejeição a um sistema político.
Ganha, teoricamente, nesse ambiente, Augusto Cury, que tem tentado se colocar como o candidato que não é da política e quer colocar todo mundo sentado numa mesa, conversando. Ele usa o jargão “eu tenho uma cabeça de direita e um coração de esquerda”. E ganha também o Renan Santos, que vem numa tentativa de ser um bolsonarismo 2.0.
Há também uma variável interveniente, que é muito importante, que é uma eleição de tiro curto. Temos um mês até a eleição, e a intensidade dos acontecimentos é muito robusta.
ERNANI CARVALHO Existem alguns candidatos — como Zema e Renan Santos — que estão com a agenda muito mais efetiva, ativa e agressiva em relação ao Supremo Tribunal Federal. Talvez esses candidatos, mais pelo que vemos nas pesquisas, estejam muito atrás. Talvez tenham algum grau de atenção maior, um acréscimo esporádico ou um acréscimo residual, mas não creio que esse escândalo, ou pelo menos essa crise institucional, de proporções realmente alarmantes, vá, de alguma forma, criar uma mudança no atual cenário eleitoral.
Além disso, creio que o caso pode impactar o eleitor independente. Provavelmente, ele [eleitor independente] vai buscar as razões do seu voto em algo que lhe traga algum tipo de benefício futuro em termos econômicos, o que está dentro da racionalidade do voto. Há também a questão da moralidade, questões contrárias à corrupção. Nesses aspectos, eu diria que o eleitor independente pode ser afetado nessa perspectiva.



