Dois movimentos quase simultâneos entre as principais forças da centro-direita indicaram os primeiros sinais de cristalização das pré-candidaturas ao Planalto, Beto Bombig, Marianna Holanda e Fabio MuraKawa analisam no JOTA PRO Poder.
De um lado, o PSD de Gilberto Kassab avançou na construção de um projeto presidencial distante do bolsonarismo.
De outro, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, se encontraram ontem (29) para selar o apoio à candidatura de Flávio.
Por que importa: O efeito imediato do projeto “três em um” articulado por Kassab é a criação de uma alternativa ao lulismo para setores da política, da economia e da sociedade organizada que rejeitam o petista, mas demonstram resistência à família Bolsonaro.
Nesse contexto, o campo da centro-direita já vive uma disputa por apoios estratégicos, como o do governador Romeu Zema (Novo), de setores do MDB e do mercado financeiro.
Essas articulações reforçam a percepção de que, mesmo fora da disputa presidencial, Tarcísio continuará a influenciar um cenário fragmentado no campo antipetista no primeiro turno.
A pulverização de candidaturas aparece como estratégia para tentar impedir um quarto mandato de Lula, ainda que aumente o risco de dispersão eleitoral.
Em público, bolsonaristas e dirigentes do PSD afirmam que a multiplicidade de candidaturas é positiva para a centro-direita.
Nos bastidores, porém, a leitura predominante é outra: a família Bolsonaro, ao menos até agora, não conseguiu aglutinar apoio suficiente para consolidar Flávio como o único e principal antagonista de Lula — posto ocupado por seu pai, preso em Brasília.
Tarcísio deixou escapar em conversas reservadas que o PSD é hoje o principal risco à candidatura de Flávio, embora tenha declarado apoio inequívoco após a visita a Bolsonaro.
“Se há algum partido com chances de tirar Flávio do segundo turno, esse partido é o PSD”, disse o governador a aliados.
A avaliação também serve como termômetro do entusiasmo de Tarcísio com o projeto eleitoral do filho do ex-presidente.
Pela frente: Aliados de Flávio ouvidos pelo JOTA avaliam que o senador precisará intensificar esforços para se apresentar como um candidato mais moderado e qualificar seu discurso crítico a Lula.
Um deles observa que o governador Ronaldo Caiado (GO), por exemplo, bate mais pesado e com mais substância no presidente do que integrantes da família Bolsonaro.
De outro lado, o "projeto 3 em 1" terá como desafio, além de escolher um dos nomes hoje colocados, demonstrar viabilidade eleitoral — ou seja, melhorar o desempenho de seus nomes nas pesquisas, ainda lideradas por Flávio no campo da centro-direita.
É importante também não perder de vista os interesses de Kassab.
O presidente do PSD, além de aumentar suas bancadas congressuais para negociar apoios a partir de 2027, quer ser governador de São Paulo a partir de abril de 2030 — quando, calcula, Tarcísio deixará o cargo para concorrer ao Planalto.
Nesse sentido, o fortalecimento do partido aumenta o cacife dele para ser escolhido como vice na chapa de Tarcísio à reeleição.
Em um “partido de dono”, convém estar atento a interesses pessoais que podem se sobrepor a projetos coletivos.