A “Nasa de Flávio”: Trump acima de tudo, algoritmos acima de todos

A “Nasa de Flávio”: Trump acima de tudo, algoritmos acima de todos

A “Nasa de Flávio”: Trump acima de tudo, algoritmos acima de todos

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Resumo

Flávio Bolsonaro opera uma "Nasa" eleitoral, com alta tecnologia e IA, inspirada no modelo Trumpista e com consultoria de Brad Parscale, visando inédito uso de dados em campanhas brasileiras.

O conservadorismo, quando não reacionarismo, de Flávio Bolsonaro parece ficar restrito aos valores morais que professa. Nos bastidores, sua candidatura se movimenta na direção contrária. Operando junto ao gabinete do ódio há um gabinete de alta tecnologia. No período paleológico da campanha do patriarca Jair, foi o filho Carlos que trouxe a novidade das redes sociais. A criatura ganhou vida própria e hoje produz conteúdo e disseminação sem parar. Por trás do senador, funciona uma operação de inteligência eleitoral que pretende levar o uso de dados e tecnologia a um patamar inédito nas campanhas presidenciais brasileiras. É uma espécie de “Nasa de Flávio”, na qual pesquisas praticamente diárias, séries históricas, modelos estatísticos, bases eleitorais e ferramentas de inteligência artificial se misturam às decisões políticas. A estrutura incluiria ainda simulações preditivas capazes de projetar diferentes cenários da disputa. O “01” tornou-se uma espécie de candidato cyborg, ligado a uma central que procura transformar números em discursos, agendas, posicionamentos e decisões estratégicas. O improviso, tão associado ao estilo de Jair Bolsonaro, perdeu espaço na campanha do filho. Boa parte do que Flávio diz, e até a escolha do momento em que decide dizer, passa antes pelo crivo do deus ex machina do nosso tempo: o algoritmo.

A inspiração vem das eleições norte-americanas. É Donald Trump na veia. E nas artérias. A reprodução do modelo trumpista pelo clã Bolsonaro não aparece apenas na linguagem política ou no uso intensivo das redes sociais. Eduardo Bolsonaro construiu uma rede de contatos no trumpismo que alcança estrategistas de comunicação, empresários de plataformas digitais e operadores de tecnologia eleitoral. Um dos fios dessa teia leva a Brad Parscale, responsável pela arquitetura digital da campanha de Trump em 2016 e fundador da Campaign Nucleus. Parscale tornou-se parceiro comercial do argentino Fernando Cerimedo, conhecido por sua atuação no universo bolsonarista. O próprio Cerimedo atribuiu ao americano a montagem da infraestrutura tecnológica empregada em seu trabalho. Em fevereiro deste ano, durante uma cerimônia em Mar-a-Lago, Eduardo entregou ao argentino um prêmio de consultoria política. Ao agradecer a homenagem, Cerimedo fez questão de mencionar Parscale, seu parceiro no fornecimento de tecnologia eleitoral.

Outro nome nessa rede é Jason Miller, ex-assessor de comunicação de Trump e fundador da Gettr. A relação com os Bolsonaro vem de longe. Em setembro de 2021, Eduardo recebeu Miller, ao lado de Jair Bolsonaro, no Palácio da Alvorada. Naquele mesmo mês, visitou a sede da Gettr em Nova York. A aproximação não ficou nas fotografias e nos cumprimentos protocolares. A plataforma patrocinou eventos ligados ao Instituto Conservador Liberal, de Eduardo, e conquistou espaço entre os apoiadores do bolsonarismo. Flávio também entrou em cena. Em julho de 2021, pouco depois do lançamento da Gettr, abriu uma conta na rede e recebeu publicamente as boas-vindas de Miller. Segundo informações obtidas pelo RR, Eduardo mantém interlocução regular com o americano, a quem consulta sobre possíveis ações para a campanha do irmão.

A candidatura de Flávio também bebe na experiência de Trump em 2024, quando a operação republicana deu um salto na produção e distribuição de conteúdo. Os quatro estúdios montados em São Paulo e a programação própria no YouTube seguem essa trilha. Na eleição americana, Parks Bennett, cofundador da Campaign Inbox e sócio de Matt Oczkowski, ex-integrante da área de ciência de dados da Cambridge Analytica, comandou a frente digital. Alex Bruesewitz e Jack Fuetterer, conhecido como TikTok Jack, trabalharam para levar Trump a influenciadores, podcasts e vídeos curtos. Em pouco mais de dois meses, a campanha republicana já contabilizava cerca de 500 milhões de visualizações acumuladas no TikTok. A lição assimilada pela candidatura brasileira é que a comunicação precisa produzir conteúdo continuamente, distribuí-lo por canais próprios e acompanhar sua repercussão quase em tempo real.

O Opala e o BYD

Antes de tentar convencer o eleitorado, a equipe de Flávio precisou descobrir como o próprio candidato era visto. Na fase inicial da campanha, o grupo comandado pelo estrategista político Marcos Aurélio Carvalho, veterano das campanhas vitoriosas de Jair Bolsonaro, em 2018, e Lula, em 2022, realizou 68 encontros qualitativos pelo país. O trabalho investigou as imagens associadas ao senador, as resistências ao seu nome, os atributos que o diferenciavam do pai e as reações de diferentes segmentos do eleitorado às suas declarações. A pergunta não era apenas em quem as pessoas pretendiam votar. Tratava-se de descobrir que personagem político Flávio poderia encarnar. Uma das linhas de comunicação que mais ganhou força foi a oposição entre um Flávio identificado com a modernidade e um Lula apresentado como representante de um Brasil que envelheceu. Dos grupos de discussão surgiu uma curiosa metáfora automobilística que logo ganharia as redes.

Em 2 de fevereiro, durante entrevista ao Jornal da Fan, da rádio Fan FM, em Sergipe, o senador comparou o presidente a um Chevrolet Opala antigo. Na mesma conversa, criticou a relação de Lula com as novas tecnologias, sobretudo a inteligência artificial. Nove dias depois, diante de empresários reunidos na CEO Conference do BTG Pactual, em São Paulo, Flávio voltou à metáfora. Lula seria um Opala velho, de câmbio manual, que já fora bonito, mas não levava ninguém a lugar algum e consumia combustível demais. A imagem atravessou dois ambientes diferentes e ganhou novos detalhes na segunda apresentação. Para a equipe de inteligência eleitoral, declarações desse tipo oferecem material para confrontar a identidade que a campanha procura construir com a percepção efetiva do público.

A inteligência eleitoral de Flávio mantém um cruzamento permanente entre essas pesquisas, os trackings, os resultados de eleições anteriores e os indicadores das plataformas digitais. Uma das questões que orientam esse acompanhamento é identificar onde o senador consegue atrair eleitores para além do bolsonarismo e em quais segmentos ainda enfrenta a rejeição associada ao pai. Segundo um dos advisersdigitais do candidato ouvido pelo RR, a equipe estaria utilizando o AI Segment Builder e o AI Universe Builder, ferramentas desenvolvidas pela Campaign Nucleus, de Brad Parscale. Os dois sistemas permitem fazer consultas em linguagem natural a grandes bases de dados e selecionar públicos a partir de diferentes combinações de critérios. Na campanha brasileira, serviriam para cruzar informações territoriais, demográficas e eleitorais, identificando continuamente os segmentos em que Flávio tem maior potencial de crescimento. O foco está sobretudo nas diferenças que as médias nacionais escondem: municípios onde o senador já supera o desempenho de Jair Bolsonaro em 2022, mas ainda encontra resistência em determinados grupos de eleitores. À medida que novas pesquisas chegam e os indicadores mudam, essas informações são reexaminadas, permitindo à campanha ajustar sua comunicação e redirecionar esforços.

O que o 1º turno tem a dizer sobre o 2º turno

A inteligência eleitoral de Flávio está esquadrinhando o resultado do primeiro turno para identificar onde o senador ganhou terreno em relação a Jair Bolsonaro em 2022 e quais regiões merecem maior atenção na disputa com Lula. O trabalho parte de uma vantagem de 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual, sobre o presidente. Os dois finalistas concentraram 92,19% dos votos válidos, deixando apenas 7,81% para os demais candidatos. A distância entre Flávio e Lula equivale a menos de um quarto dos votos recebidos pelos concorrentes eliminados. Mas a análise não se resume a calcular como esse contingente poderá se distribuir. Interessa sobretudo descobrir onde o resultado de 4 de outubro revela mudanças no comportamento do eleitorado que possam se repetir ou ganhar força no segundo turno.

O Nordeste oferece um exemplo desse trabalho. Flávio recebeu na região aproximadamente 1,6 milhão de votos a mais do que Jair Bolsonaro em 2022. O número, por si só, não conta toda a história. É preciso saber em quais municípios ocorreu o avanço, quanto dele corresponde a uma mudança na participação relativa do candidato e qual foi o peso do crescimento do eleitorado e do comparecimento. A regressão multinível com pós-estratificação, conhecida como MRP, permite combinar pesquisas com características demográficas e territoriais para estimar o comportamento eleitoral mesmo em localidades pouco representadas nas amostras. Já o predictive scoring trabalha com pontuações estatísticas calculadas a partir de registros históricos. Aplicadas ao mapa do Nordeste, essas técnicas ajudam a diferenciar um crescimento concentrado em algumas cidades de uma mudança mais espalhada pelo interior, com consequências distintas para a leitura da disputa.

De acordo com o mesmo adviser digital, a equipe de Flávio teria incorporado simulações de Monte Carlo aos cálculos para o segundo turno. Em vez de trabalhar com uma única projeção, o método executa milhares de combinações possíveis de variáveis eleitorais. O QG poderia, assim, testar o efeito de diferentes hipóteses de transferência de votos e comparecimento regional sobre o resultado nacional. O cálculo ganha outra dimensão quando recebe as atualizações dos trackings. Modelos bayesianos permitem incorporar novos levantamentos às estimativas anteriores, enquanto o backtesting confronta projeções com resultados passados para revelar erros recorrentes. O desafio é separar mudanças consistentes no eleitorado de movimentos que aparecem numa rodada de pesquisa e desaparecem na seguinte. Com uma diferença pequena entre os candidatos, distinguir tendência de ruído estatístico torna-se ainda mais importante.

A vigilância não se limita às pesquisas. Há também o acompanhamento do que acontece depois que uma declaração do candidato começa a circular nas redes. O War Room e o Control Tower, da Campaign Nucleus, foram concebidos para reunir indicadores de desempenho e organizar o trabalho das equipes digitais. A EyesOver, ligada ao universo empresarial de Parscale, oferece instrumentos de processamento de linguagem natural e análise semântica. São tecnologias capazes de ir além da contagem de curtidas e compartilhamentos, identificando os assuntos associados a determinada mensagem e a evolução das reações. Na operação de Flávio, o monitoramento digital acompanha a circulação das declarações, a velocidade das interações e os temas que dominam as conversas. A leitura mais importante, porém, está na comparação com as pesquisas. Uma enxurrada de críticas entre adversários declarados pode produzir barulho sem alterar o quadro eleitoral. Já uma deterioração entre eleitores que antes avaliavam favoravelmente o senador exige outro tipo de atenção.

A campanha dentro das planilhas

A campanha contratou o Ibespe Estudos & Marketing, comandado pelo cientista político Marcelo Di Giuseppe e por Daniela Di Giuseppe, para produzir levantamentos praticamente diários. Um desses trackings, divulgado internamente em 9 de outubro, apontou Flávio com 51% das intenções de voto gerais, contra 44% de Lula. Os números entraram na discussão sobre a conveniência de responder imediatamente à ofensiva petista contra os cortes de gastos defendidos pelo senador. Resultado: com base nos dados colhidos, Flávio foi a público: negou mudanças nos reajustes das aposentadorias, assegurou a manutenção do Bolsa Família e acusou o PT de espalhar informações falsas sobre suas propostas. O desmentido também foi incorporado à propaganda eleitoral do segundo turno. A decisão política, portanto, passou também pela leitura de uma pesquisa interna.

O palanque agora é outro

A tropa tecnológica de Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno com resultados expressivos nas redes sociais. Segundo levantamento da Bites, o senador ganhou 1,74 milhão de seguidores entre 4 e 8 de outubro, contra 958 mil de Lula, uma vantagem de 82% na conquista de novos seguidores. O Instagram respondeu pela maior parte desse avanço: 1,16 milhão de novos seguidores para Flávio, ante 651 mil do presidente. No Facebook, a diferença foi ainda mais acentuada, 445 mil contra 171 mil. No YouTube, o bolsonarista incorporou 80 mil inscritos, quase o triplo dos 30 mil conquistados pelo petista. Lula levou a melhor apenas no TikTok, com 106 mil novos seguidores, diante de 56 mil do adversário. A dianteira de Flávio tampouco se resume à euforia posterior ao primeiro turno. Entre 16 de agosto e 3 de outubro, sua campanha já havia acrescentado 2,19 milhões de seguidores às quatro plataformas, contra 1,29 milhão de Lula. Somados os dois períodos, são aproximadamente 3,93 milhões de novos seguidores para o senador, diante de 2,25 milhões para o presidente.

A diferença aparece também na capacidade de repercussão de cada publicação. Nos cinco primeiros dias após o primeiro turno, Lula despejou 127 conteúdos nas redes, quase cinco vezes mais do que os 26 publicados por Flávio. O presidente alcançou 21 milhões de interações, contra 9,2 milhões do senador. Mas a relação se inverte quando se divide o resultado pelo número de postagens: cada conteúdo de Flávio produziu, em média, aproximadamente 354 mil interações, mais que o dobro das 165 mil registradas por Lula. Três das cinco publicações de maior repercussão no período foram do bolsonarista. A ofensiva petista, por sua vez, mostra que a disputa está longe de ser unilateral. A própria Bites identificou uma reação da campanha de Lula, que passou a competir mais de perto pelo volume total de interações.

A superioridade de Flávio em determinados indicadores já aparecia antes da campanha oficial. No primeiro semestre, o senador ganhou 5,6 milhões de seguidores, crescimento de 36%, enquanto Lula acrescentou 1,8 milhão, alta de 5%. Embora o presidente ainda tivesse uma audiência total muito maior, de 38,9 milhões de seguidores contra 21 milhões do adversário em junho, Flávio liderou o indicador de tração digital da Bites em 21 das 26 semanas examinadas. Outro levantamento, da HypeAuditor, realizado em setembro, apontou que os vídeos associados ao senador alcançavam, em média, 4,7 vezes mais visualizações no TikTok. No Instagram, suas publicações recebiam cerca de 150 mil curtidas e dez mil comentários, diante de 50 mil curtidas e 4,3 mil comentários nos conteúdos de Lula. Os números dão a dimensão do terreno conquistado pela operação digital bolsonarista, que combina produção própria, monitoramento permanente e distribuição de conteúdos por diferentes plataformas.

A “Nasa de Flávio” expõe uma transformação curiosa no bolsonarismo. O movimento que chegou ao poder explorando a espontaneidade, o confronto e a imprevisibilidade de Jair Bolsonaro tenta agora submeter boa parte de sua estratégia eleitoral a cálculos e previsões. Na campanha do filho, o instinto político divide espaço com os modelos estatísticos, e o improviso precisa disputar terreno com os algoritmos. Há uma ironia nessa metamorfose. O bolsonarismo, que fez da desconfiança em relação às instituições e às elites um de seus principais combustíveis, entrega parte de sua estratégia a uma nova elite, formada por cientistas de dados, programadores e especialistas em inteligência artificial. Flávio pode até continuar falando como um Bolsonaro. Mas, nos bastidores, quem procura escrever o roteiro são as máquinas.