Tancredo viu o começo e o fim da ditadura

Tancredo viu o começo e o fim da ditadura
01 abril 2025 às 13h57
Numa hora gravíssima da vida brasileira em que é mister que o chefe de Estado permaneça a frente do seu governo
Foto: Divulgação
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Tancredo Neves era deputado federal em 1964 quando o Congresso Nacional convocou uma sessão extraordinária logo após a movimentação das tropas do General Olímpio Mourão para depor João Goulart da Presidência da República realizada no dia anterior. Nesta sessão, o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso, fez a seguinte declaração: “”Atenção! O senhor Presidente da República deixou a sede do governo. Deixou a nação acéfala.
Numa hora gravíssima da vida brasileira em que é mister que o chefe de Estado permaneça a frente do seu governo. Abandonou o governo! E esta comunicação faço ao Congresso Nacional! Esta acefalia configura a necessidade do Congresso Nacional como Poder Civil imediatamente tomar uma atitude que lhe cabe nos termos da Constituição brasileira. Para o fim de restaurar nessa Pátria conturbada a autoridade de governo e existência de governo, não podemos permitir que o Brasil siga sem governo abandonado. Há sob a nossa responsabilidade a população do Brasil, o povo, a ordem, assim sendo declaro vaga a Presidência da República”.
Essa declaração provocou reações de apoio, em especial dos parlamentares udenistas que faziam oposição à Jango, e de protesto, em especial dos parlamentares pessedistas que apoiavam Jango. Tancredo se levantou para protestar contra a declaração de Auro de Moura Andrade. O ex-senador Pedro Simon concedeu uma entrevista ao site da revista Veja e recordou do posicionamento de Tancredo Neves nessa sessão.
Segundo ele, o mineiro disse ao Presidente do Senado: “Isso é um golpe. O Presidente João Goulart está na casa do comandante do III Exército em Porto Alegre. Tem alguma dúvida? Telefone para ele”. Auro de Moura Andrade declarou vaga a Presidência e não telefonou para Jango. Na capital gaúcha, Leonel Brizola teve um encontro com o ainda Presidente Jango e o incentivou a repetir a resistência contra o golpe militar feita em 1961. Mas, Jango não queria derramamento de sangue. Decidiu não resistir. Ele embarcou no avião da FAB em direção ao Uruguai onde viveria o exílio até a sua morte em 1976.
Era o Dia da Mentira. Quem ouvisse a declaração de Auro de Moura Andrade diria que era uma brincadeira. Só que não! Naquele 1º de abril de 1964, o Congresso Nacional sacramentava a deposição de João Goulart e, dali alguns dias, votaria no Marechal Humberto de Alencar Castello Branco para ser o novo Presidente da República. Tancredo Neves acompanhou os 21 anos de ditadura civil-militar como parlamentar de oposição. Se em 1964, ele estava no plenário contestando o golpe dado pela Presidência do Senado. Em janeiro de 1985, seu nome seria o mais votado pelo Colégio Eleitoral para ser o próximo Presidente da República.