Privatização da água põe Ciro entre Brizola e Bolsonaro
Á água é o bem mais essencial para garantir a vida da comunidade. Seu destino ficará com o interesse privado ou predominaria o interesse público?
Traidor do nacionalismo?
Vargas, Jango e Brizola, os pais do trabalhismo, estão de olho em Ciro Gomes, que herdou o PDT trabalhista-brizolista, para saber o que vai fazer em relação à privatização da água, aprovada, no Congresso, pela direita radical bolsonarista, que ele deseja conquistar.
Á água é o bem mais essencial para garantir a vida da comunidade.
Seu destino ficará com o interesse privado ou predominaria o interesse público?
Toda a estrutura da oferta do líquido divino e maravilhoso dado pela natureza, está ancorada em legislação trabalhista-nacionalista varguista-janguista-brizolista.
A nacionalização da água é decisão histórica que levou à construção, em todos os 27 estados da Federação, de empresas públicas concessionárias para exploração do bem natural finito, como é, também, o petróleo.
Sob ideologia trabalhista, não norteou a exploração desse serviço o lucro privado, mas o interesse público.
Por isso, seu preço, em forma de tarifa, sempre foi flexível, conforme não apenas à lei da oferta e da procura, mas, sobretudo, às condições de vida da maioria da população.
As determinações macroeconômicas, em relação à oferta de água e saneamento à população, renderam-se, sempre, às variáveis, não, apenas, econômicas, mas sociais e políticas.
Quando, em tempos de vacas magras, os salários são vítimas da exploração exagerada da mais valia, sempre os governos deram e dão jeito de flexibilizar políticas de preços para o setor.
Essencialmente, os reajustes das tarifas são maleáveis conforme poder de compra dos salários.
Os neoliberais, no poder, jogam essas regras para o alto, em nome do lucro em primeiro lugar, acima do interesse público.
Como as empresas são públicas, o preço sempre se adequou ao interesse social.
Isso acontecia antes com o preço do petróleo, visando, sobretudo, garantir a competitividade da economia, no plano internacional.
E a Petrobrás nunca arcou prejuízo por agir dessa forma, o mesmo acontecendo com as concessionárias estaduais de água.
Para o agronegócio, por exemplo, a Petrobrás, sob orientação nacionalista, pratica preços do diesel, com vistas à competitividade global, onde o Brasil é líder.
A água, nesse sentido, é mais importante que o petróleo, dada sua universalidade como determinante da sobrevivência humana, que não pode se submeter ao interesse individual, à ganância, à exploração do lucro pelo lucro etc.
Dilema cirista
Ciro Gomes, que quer disputar eleição de 2022 pelo PDT, herdeiro de Brizola e do nacionalismo varguista-janguista, vai romper a regra, para atender o interesse privado?
A tentação em cima dele, para agir nesse sentido, é grande, porque pretende atrair a direita democrática neoliberal, afastando-a do fascismo ultrarradical bolsonarista, para a disputa presidencial.
O preço a pagar para conquistá-la, certamente, está posto na mesa pelos ultraneoliberais, como condição para apoiá-lo: privatizar a água.
Poderosos grupos internacionais anseiam em comprar, agora, na bacia das almas, as concessionárias de serviços de água e esgotamento, abocanhando estrutura produtiva e ocupacional, pronta e acabada.
Nesse contexto, a classe média vira obstáculo para ele.
Com a economia em frangalhos, tendendo a piorar na fase pós-coronavírus, ela estará completamente proletarizada, no ambiente de queda do PIB de 10% ao ano, com desemprego na casa dos 20% a 25% da população economicamente ativa.
Tal classe média proletária à vista estará, certamente, propensa a ir às ruas contra o ultraneoliberalismo pró-privatização da água e do salário mínimo real de R$ 600, podendo ir à R$ 300, se a economia não reagir à pandemia.
Se o pedetista cearense apoia privatização da água, jogará o custo em cima dessa classe média proletarizada, cujo poder de compra, com a bancarrota neoliberal, está virando pó.
Haverá investidor para jogar de R$ 700 bi a R$ 1 trilhão, no saneamento, básico, como promete o projeto de privatização, aprovado no Congresso, em meio à destruição do poder de compra dos salários?
O dilema de Ciro, então, será o de ou ganhar a classe média, reativa à privatização da água e dos serviços de esgotamento, em geral, negando a privatização, que a prejudica, ou perde-la, se for contra os seus interesses.
Se levantar bandeira bolsonarista, que é o desejo dos privatistas da água, como o senador coca-cola do Ceará, Tasso Jereissati, estará, politicamente, liquidado.
Mais uma vez, naufragaria diante da oposição contra a qual está se indispondo para ganhar a direita liberal, atraindo-a ao centro onde se encontra.
Diante desse imbróglio, pode ser que Ciro vá para Paris pensar.
César Fonseca