PARA NÃO ESQUECER – 01 DE ABRIL

PARA NÃO ESQUECER – 01 DE ABRIL

PARA NÃO ESQUECER – 01 DE ABRIL

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VÁRIOS FATOS DA DATA RELACIONADOS COM O GOLPE MILITAR

(Ernesto Germano Parés)

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Fato 01 – O INCÊNDIO DO PRÉDIO DA UNE - O golpe militar de 1º de abril atingiu imediatamente o

movimento estudantil. O prédio da UNE, no Rio de Janeiro, foi incendiado por ativistas da direita e

toda a sua direção foi presa. Mais de 3 mil estudantes foram expulsos, presos ou se asilaram em

embaixadas estrangeiras e a UNE foi declarada ilegal pela Lei 4.464 - Lei Suplicy (atenção para não

confundir, trata-se de Suplicy de Lacerda, um deputado da direita). Os estudantes buscam novas

formas de organização e criam o Diretório Nacional dos Estudantes e os Diretórios Estatuais.

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A UNE havia sido criada durante o “Estado Novo”, por Vargas. Durante toda a década de 40 e de

50 participou ativamente da política nacional através de movimentos como “o petróleo é nosso” ou

a grande mobilização estudantil para que Getúlio rompesse seu namoro com a Alemanha e

entrasse na guerra ao lado dos aliados. Teve participação ativa na campanha do plebiscito que

devolveria os poderes presidenciais a Jango e levantou a bandeira das Reformas de Base.

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No início da década de 60, participou ativamente dos programas de alfabetização popular do

governo e cria o seu próprio Centro Popular de Cultura - CPC- e envia voluntários para atuarem no

Nordeste com o educador Paulo Freire. Em 1958, por ocasião da visita de John Forsters Dulles ao

Rio o prédio da UNE, na praia de Botafogo, é coberto com um pano preto imenso com a inscrição

“os Estados Unidos não têm amigos, mais apenas interesses”. Dois anos depois, o presidente

Eisenhower vem ao Rio (depois da revolução Cubana) e o prédio da UNE é vestido com uma faixa

onde se lia “Nós amamos Fidel Castro”.

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No dia 1º, logo pela manhã, eu era estudante secundarista e resolvi ir para a sede da UNE. Havia

uma informação de que a CGT tinha preparado panfletos convocando para a Greve Geral no caso

de um golpe. Os panfletos estariam guardados na UNE!

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Saí de casa por volta das seis da manhã. Consegui chegar até o centro do Rio, mas, enquanto

procurava uma condução para a UNE encontrei alguns amigos, estudantes. Perguntaram onde eu ia

e, ao saberem, me pegaram e levaram para um canto: “não vá, estamos voltando de lá e está tudo

pegando fogo e cercado de militares”.

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Fato 02 – JOÃO GOULAR AINDA ESTAVA NO BRASIL – Uma das maiores mentiras do golpe

acontece naquele dia 1º de abril de 1964. O presidente João Goulart ainda estava no Brasil, e

deixava Brasília rumo a Porto Alegre. Assumindo o governo, em caráter provisório e de acordo com

o golpe em andamento, Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, decreta vago o

cargo de Presidente. O poder de fato passou a ser exercido por uma junta governativa formada

pelos três ministros militares — o general Artur da Costa e Silva, da Guerra, o vice-almirante

Augusto Rademaker Grünewald, da Marinha e o tenente-brigadeiro Francisco de Assis Correia de

Melo, da Aeronáutica.

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Fato 03 – O GOLPE É CONSOLIDADO – Como mostramos, tudo começou na madrugada de 31 de

março, quando o general Mourão Filho coloca a tropa de Minas Gerais em movimento. A falta de

reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável (veja a nota a seguir). Por decisão

de Jango, não houve reação por parte dos militares legalistas. Também fracassou uma greve geral

proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo (um dos motivos foi

descrito acima). João Goulart, em busca de segurança, viajou no dia 1o de abril do Rio, onde se

encontrava no momento do golpe, para Brasília, e em seguida para Porto Alegre, onde Leonel

Brizola tentava organizar a resistência, com apoio de oficiais legalistas, a exemplo do que ocorrera

na Cadeia da Legalidade, em 1961. Apesar da insistência de Brizola, Jango desistiu de um

confronto militar com os golpistas e seguiu para o exílio no Uruguai, de onde só retornaria ao Brasil

para ser sepultado, em 1976.

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Curiosamente, antes de João Goulart deixar o país, o presidente do Senado, Auro de Moura

Andrade, já havia declarado vaga a presidência da República. O presidente da Câmara dos

Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a presidência, conforme previsto na

Constituição de 1946 e como já ocorrera em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. O poder real,

no entanto, encontrava-se em mãos militares.

 

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No dia 2 de abril, o general Costa e Silva enviou uma notificação a todos os comandos militares

informando-os que, em virtude de ser o membro do Alto Comando mais antigo, assumia o

comando do Exército. Desse modo, Costa e Silva se autoproclamava Comandante-em-Chefe do

Exército, cargo habitualmente exercido pelo Presidente da República. No dia seguinte ele organizou

o que recebeu o pomposo nome de “Comando Supremo da Revolução” (uma revolução que nunca

aconteceu, pois não passou de golpe). Era composto por três membros: o brigadeiro Francisco de

Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e ele próprio

como representante do Exército e homem-forte do triunvirato.

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NOTA: Quando oficiais da Aeronáutica fiéis ao Presidente o procuraram, propondo bombardear as

tropas de Mourão Filho que saíram de Minas Gerais, ele teria respondido: “Por ordem minha, não

começa uma guerra civil no Brasil”!

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Fato 04 – TRÊS COMPANHEIROS MORTOS - Em 1º de abril de 1968 os estudantes organizam, com

a participação de sindicatos de trabalhadores, atos de repúdio pelo 4º aniversário do golpe militar.

O protesto, realizado em várias cidades, terminou com um saldo de três mortos: o estudante Euler

Ivo Vieira (em Goiás) e os trabalhadores Jorge Aprício de Paula (SP) e Davi de Souza Neiva

(Guanabara).

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Fato 05 – FECHAMENTO DO CONGRESSO - O AI-5 foi decretado no dia 13 de dezembro de 1968

(uma sexta-feira), mas trabalho só é completado em 1º de abril de 1977 (outro 1º de abril)

quando a ditadura utiliza o AI-5 para fechar o Congresso e decretar um novo pacote de “medidas

para garantir a abertura de forma lenta, gradual e segurada”. As duas principais medidas do

“pacote de abril” eram: a) a criação do parlamentar biônico indicados e eleitos indiretamente, que

garantiria a maioria para o partido do governo, mesmo no caso do MDB sair vitorioso das urnas e

b) ampliação do mandato do próximo presidente, eleito indiretamente pelo Congresso, para seis

anos. Duas semanas depois, 14 de abril, o Congresso é reaberto, retomando os “trabalhos

normais”.

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Os ativistas da direita, reunidos em uma Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), iniciam uma série

de atentados. Em 18 de setembro de 1976, duas bombas explodem em entidades que

denunciavam as torturas do regime: OAB e ABI. Quatro dias mais tarde o bispo de Nova Iguaçu,

Dom Adriano Hipólito, é sequestrado e espancado por haver denunciado a situação de fome e

miséria do povo e a repressão sobre os trabalhadores. No final do ano (06/12), uma bomba

explode na editora civilização Brasileira acusada de editar livros de “intelectuais de esquerda”.

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CHEGA DE GOLPE MILITAR!

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DITADURA NUNCA MAIS!