Brasil 2026-2030: a luta está só no começo

Brasil 2026-2030: a luta está só no começo

Brasil 2026-2030: a luta está só no começo

A democracia brasileira carrega algo dessa estrutura trágica: retorna por sintomas, palavras de ordem, personagens deslocados e fantasias de salvação que atravessam décadas, mesmo quando acreditamos ter deixado para trás as formas mais explícitas do autoritarismo.

Por: Fábio Dal Molin

BR_RS_MCOM_APP-04-M13109 Brasil 2026-2030: Leonel Brizola durante transmissão da Rádio da Legalidade em 1961 - Governador Leonel Brizola falando na Cadeia da Legalidade, no porão do Palácio Piratini. Acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa / Secretaria da Cultura do RS

Na tragédia de Sófocles, Édipo tenta escapar da profecia do Oráculo de Delfos: mataria o pai e se casaria com a mãe. Ao fugir de Corinto, porém, aproxima-se justamente do destino que pretendia evitar: no caminho para Tebas, assassina Laio e, mais tarde, desposa Jocasta. A tragédia não está apenas no cumprimento da profecia, mas no fato de que a tentativa de escapar dela se torna o próprio caminho de sua realização.

A história brasileira também não se repete como cópia, mas como insistência trágica. Como nas tragédias gregas, muitas vezes mergulhamos no destino quando acreditamos estar fugindo dele: a cada crise, o país tenta contornar seus fantasmas autoritários sem enfrentá-los, e acaba reencontrando-os sob novas formas.

A democracia brasileira carrega algo dessa estrutura trágica: retorna por sintomas, palavras de ordem, personagens deslocados e fantasias de salvação que atravessam décadas, mesmo quando acreditamos ter deixado para trás as formas mais explícitas do autoritarismo.

O Brasil que se prepara para a disputa de 2026 não é o mesmo de 1954, 1961 ou 1964; tampouco é possível dizer que nada mudou desde a Constituição de 1988. Mas há uma linha subterrânea que atravessa esses momentos: a dificuldade das elites políticas, econômicas, militares e midiáticas de aceitar que a soberania popular possa produzir governos comprometidos, ainda que parcialmente, com a inclusão social, a ampliação de direitos e a presença organizada dos pobres na cena pública.

Por isso, o desafio do campo democrático e popular, no ciclo 2026-2030, não será apenas vencer uma eleição. Será disputar uma nova legalidade: viva, enraizada na Constituição de 1988, nos direitos sociais, na soberania do voto, na memória das lutas populares e na capacidade de impedir que o reacionarismo transforme a democracia em casca vazia. A extrema direita aprendeu a operar por dentro das instituições, a usar o Parlamento como trincheira contra o povo, as redes como fábrica de ressentimento e o discurso anticorrupção como velha senha para a exceção.

A recorrência autoritária não é acidente

A democracia brasileira sempre conviveu com uma espécie de tutela permanente. Quando o voto popular produz resultados toleráveis às classes dominantes, ele é celebrado como maturidade institucional. Quando produz deslocamentos sociais, políticas redistributivas ou protagonismo popular, passa a ser tratado como risco, desordem, corrupção, comunismo, populismo ou ameaça à família. Muda o vocabulário, permanece o mecanismo. Foi assim contra Vargas, contra Juscelino, contra João Goulart, contra Dilma Rousseff e contra Lula. O nome do inimigo varia; a estrutura do medo é persistente.

Entre 1954 e 1964, a República brasileira viveu uma década de cerco. O suicídio de Getúlio Vargas interrompeu uma ofensiva que pretendia destituí-lo politicamente antes de qualquer julgamento histórico. A eleição de Juscelino Kubitschek e João Goulart, em 1955, foi contestada por setores que não aceitavam a legitimidade das urnas. A legalidade só se impôs porque havia, naquele momento, setores militares dispostos a impedir a aventura golpista, como o general Henrique Teixeira Lott. A lição é simples e incômoda: a democracia nunca se sustentou apenas em textos constitucionais; ela dependeu de correlação de forças, mobilização e coragem institucional.

A renúncia de Jânio Quadros, em 1961, revela outro traço recorrente da política nacional: o moralismo como performance de crise. A vassoura prometia limpar a corrupção, mas acabou servindo como símbolo de uma política personalista, errática e inclinada ao gesto teatral. Ao renunciar, Jânio apostou que seria reconduzido com poderes ampliados. O Congresso aceitou a renúncia, e a crise deslocou-se para a posse de João Goulart, vice-presidente eleito e, portanto, herdeiro constitucional do cargo. Foi nesse ponto que a legalidade deixou de ser palavra jurídica para se tornar prática política concreta.

A Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola a partir do Palácio Piratini, em Porto Alegre, foi mais do que uma reação à tentativa de impedir a posse de Jango. Foi uma pedagogia democrática de massas. O rádio transformou a defesa da Constituição em voz pública, a praça em assembleia, o palácio em trincheira e a legalidade em afeto coletivo. Não havia ingenuidade naquele movimento: havia cálculo político, disposição de resistência e compreensão de que a Constituição, sem povo organizado, pode virar papel timbrado nas mãos dos fortes.

A adesão de setores legalistas das Forças Armadas, especialmente no Rio Grande do Sul, impediu que a ruptura triunfasse de imediato. A saída negociada, contudo, revelou a ambiguidade da vitória: o parlamentarismo permitiu a posse de Goulart, mas reduziu seus poderes presidenciais. A legalidade foi preservada formalmente, embora sob forte condicionamento político — sinal de que, no Brasil, mesmo as vitórias democráticas costumam carregar a marca da tutela.

O retorno do recalcado autoritário

A psicanálise ajuda a compreender por que certas formações políticas não desaparecem mesmo depois de derrotadas. Freud mostrou que o recalcado retorna, não como repetição mecânica, mas como reaparição deformada. Na política brasileira, o autoritarismo funciona assim. Ele pode ser derrotado eleitoralmente, condenado juridicamente, exposto em sua violência e ridicularizado em seus personagens. Ainda assim, retorna como nostalgia da ordem, ódio aos pobres, militarização da vida cotidiana, cruzada moral contra professores, artistas, mulheres, negros, indígenas, população LGBTQIA+ e movimentos sociais.

Não estamos em 1964, mas 1964 não saiu inteiramente de nós. A tutela militar, o anticomunismo delirante, a obsessão com a corrupção seletiva, o desprezo pela soberania popular e a fantasia de que uma força externa — quartel, mercado, juiz, pastor, bilionário ou algoritmo — possa purificar a vida pública continuam disponíveis no imaginário nacional. A novidade é que hoje esses elementos circulam em ecossistemas digitais, financiam candidaturas, pressionam o Congresso e produzem subjetividades ressentidas em escala industrial.

O impasse da democracia sob cerco

André Singer tem razão ao observar que a democracia brasileira permanece em disputa diante de uma onda reacionária que não se dissolveu com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro. A condenação do ex-presidente e a defesa institucional feita pelo Supremo Tribunal Federal foram acontecimentos decisivos, mas insuficientes para eliminar o bolsonarismo como fenômeno social. A extrema direita não é apenas uma liderança, nem apenas um partido, nem apenas uma máquina de desinformação. É uma coalizão de ressentimentos, interesses econômicos, fundamentalismos religiosos, masculinidades feridas, medo da igualdade e desejo de punição.

O perigo maior está justamente no fato de que a extrema direita aprendeu a não depender exclusivamente da ruptura clássica. O golpe contemporâneo pode vir fatiado: orçamento capturado, direitos sociais bloqueados, políticas públicas sabotadas, universidades asfixiadas, cultura criminalizada, sistema eleitoral desacreditado, organizações populares perseguidas e maiorias parlamentares usadas para inviabilizar qualquer projeto democrático-popular. A legalidade, nesse cenário, pode ser conservada na aparência enquanto seu conteúdo social é esvaziado por dentro.

A esquerda entre a frente ampla e o Brasil real

A tarefa da esquerda não é escolher entre defender instituições e organizar o povo. Essa oposição é falsa. Sem instituições, a força bruta prevalece; sem povo organizado, as instituições se convertem em condomínio de elites. A experiência histórica da Legalidade ensina justamente o contrário: a defesa constitucional só ganhou força quando virou mobilização popular, comunicação pública e disputa simbólica. Em 2026, não bastará dizer que a democracia está ameaçada. Será preciso demonstrar, no cotidiano, que democracia significa comida, trabalho, escola, saúde, moradia, transporte, cultura, segurança sem chacina e futuro para a juventude.

Nas periferias, a política nunca foi apenas disputa de gabinete. Ela passa por redes, oficinas, rádios comunitárias, escolas, coletivos culturais, igrejas, cozinhas solidárias, associações, mães que lutam contra a violência policial, jovens que inventam linguagem onde o Estado costuma chegar como ausência ou repressão. Em minha própria trajetória de pesquisa sobre redes sociais e micropolíticas da juventude, aprendi que a democracia se mede menos pelo brilho dos discursos oficiais e mais pela capacidade de reconhecer essas formas miúdas, persistentes e inventivas de construção do comum.

O bolsonarismo como política do ressentimento

O bolsonarismo não pode ser entendido apenas como ignorância, manipulação ou atraso. Essas explicações confortam, mas não explicam. Ele cresceu porque encontrou formas de organizar afetos reais: medo da queda social, frustração com promessas não cumpridas, raiva contra a política tradicional, sensação de abandono, desejo de reconhecimento e ressentimento diante da ascensão relativa dos de baixo. Como mostraram Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco ao analisar juventude, pobreza e política do lulismo ao bolsonarismo, a passagem da esperança ao ódio não elimina completamente a esperança: ela a deforma, desloca e captura em novas linguagens.

Quando a inclusão social é vivida sobretudo pelo consumo, sem organização política duradoura, ela abre possibilidades contraditórias. De um lado, produz autoestima, mobilidade, desejo, direito ao prazer e experiência concreta de dignidade. De outro, quando a crise econômica chega, quando o crédito aperta, quando o trabalho precariza e quando a mídia transforma direitos em privilégios indevidos, a frustração pode ser convertida em rancor contra os próprios vizinhos que ascenderam um pouco. A extrema direita trabalha exatamente nesse ponto: ela oferece inimigos próximos para dores longínquas.

Uma nova legalidade para 2026-2030

Essa memória será decisiva para pensar uma nova legalidade democrática. O episódio de 1961 mostra que a defesa constitucional pode vencer quando deixa de ser monopólio de juristas e passa a mobilizar rádio, praça, território, instituições e povo. Para o ciclo 2026-2030, a lição é direta: legalidade não é apenas respeito formal às regras, mas capacidade social e política de impedir que a democracia seja esvaziada por dentro.

A nova legalidade precisa combinar cinco dimensões. Primeiro, a defesa inegociável do resultado eleitoral, com punição exemplar a qualquer tentativa de golpe, sabotagem ou intimidação institucional. Segundo, a reconstrução material da democracia, pois ninguém defende por muito tempo uma ordem política que não melhora a vida concreta. Terceiro, a disputa comunicacional, porque não há democracia possível quando milhões vivem submetidos a uma indústria permanente de mentira, medo e ódio. Quarto, a organização territorial da esperança, por meio de redes populares, sindicatos, movimentos, igrejas progressistas, universidades, escolas e coletivos culturais. Quinto, uma reforma profunda da relação entre Estado e periferias, substituindo a lógica da suspeição pela lógica do cuidado, do direito e da presença pública qualificada.

Autoritarismo e retorno do recalcado

A noção psicanalítica de retorno do recalcado ajuda a compreender a persistência desses repertórios autoritários. Ideias militaristas, anticomunistas, racistas e moralistas podem ser deslocadas, silenciadas ou aparentemente superadas, mas permanecem disponíveis como recursos simbólicos em momentos de crise. O autoritarismo, nesse sentido, não retorna como cópia do passado: reaparece atualizado, com novas linguagens, novas tecnologias e novos personagens.

Essa chave de leitura permite relacionar passado e presente sem reduzir um ao outro. A suspeição permanente sobre eleições, o apelo às Forças Armadas, a desqualificação da política institucional e a transformação da corrupção em explicação totalizante não são simples resíduos históricos. São sinais de uma memória autoritária que se reorganiza conforme as circunstâncias e encontra, em cada crise, novas formas de se apresentar como salvação nacional.

A partir daí, não se trata de apresentar uma agenda fechada, mas de compreender os eixos sobre os quais a disputa democrática se organizará. A legalidade do próximo ciclo dependerá menos de proclamações abstratas e mais da capacidade de articular subjetividade, história, comunicação, território e políticas públicas em uma mesma estratégia.

Memória ativa contra o fascismo

O Brasil de 2026 não poderá enfrentar a extrema direita apenas com memória defensiva. É preciso memória ativa: lembrar a Legalidade não para transformar Brizola em estátua, mas para compreender que a democracia só se torna força quando encontra meios de comunicação, território, coragem institucional e povo organizado. Lembrar 1964 não é viver prisioneiro do passado, mas reconhecer que golpes começam antes dos tanques: começam na linguagem, no medo, na desumanização do adversário, na naturalização da violência e no desprezo pelo voto dos pobres.

Se a esquerda quiser vencer e governar o período 2026-2030, terá de falar menos para si mesma e mais com o país real. Terá de defender Lula e o campo democrático sem terceirizar ao líder aquilo que só a sociedade organizada pode fazer. Terá de enfrentar o Congresso reacionário, mas também disputar bairros, igrejas, grupos de WhatsApp, escolas, universidades, locais de trabalho e redes culturais. E terá de dizer, sem medo, que democracia não é conciliação com o fascismo: é conflito regulado pela soberania popular, pelos direitos sociais e pela dignidade humana.