Alemanha: por que a ultradireita venceu

Alemanha: por que a ultradireita venceu

Alemanha: por que a ultradireita venceu

Partidos tradicionais insistiram no “ajuste fiscal” e na aliança com os EUA. AfD pôde apresentar-se como antissistema e defensora dos esquecidos pela democracia. Em sete pontos, o que o enredo da Saxônia deveria ensinar aos “bons moços” do Ocidente

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Direita Assanhada

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Trabalhadores alemães protestam contra demissões. Enfraquecimento da indústria levou até a poderosa Volkswagen a fechar fábricas no país. Na Saxônia, 59% dos assalariados não qualificados 65% dos que se consideram em más condições de vida votaram na AfD

Boletim Outras Palavras

 

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Por Franco Delle Donne, na Revista Anfibia Tradução: Antonio Martins

A normalização da extrema-direita ganhou ímpeto há dez anos, quando Donald Trump venceu sua primeira eleição nos Estados Unidos. Embora a epidemia de extrema-direita já fosse global, naquela época era impensável que a Alemanha pudesse sequer imaginar um partido desta extração chegando ao poder. Esse tabu foi quebrado. Os resultados da eleição regional na Saxônia-Anhalt, neste domingo (7/9), levaram o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) à beira de liderar um governo — um partido que, há pouco mais de um ano, foi rotulado como uma força de extrema-direita pelo Escritório Federal para a Proteção da Lei Fundamental, ou seja, uma ameaça à ordem democrática e seus valores.

Liderado por Ulrich Siegmund, descrito pelo semanário Der Spiegel como “o homem mais perigoso da Alemanha”, o AfD recebeu 43,8% dos votos, dobrando o resultado de 2021 e ficando a apenas três cadeiras de formar governo. Por que o que era impossível há apenas uma década agora é uma realidade praticamente inevitável? Por que uma força considerada uma ameaça à estabilidade se apresenta como a solução, e por que essa narrativa é crível para quase metade da população da Saxônia-Anhalt? Por que uma tendência semelhante é observada em toda a Alemanha Oriental e por que, gradualmente, em nível federal, o partido parece estar consolidando sua posição como o mais votado?

1. A conquista do antigo eleitorado de esquerda:

Historicamente, o AfD apoiou-se em duas questões-chave para ganhar visibilidade e votos: imigração e criminalidade. Sempre que esses debates perdiam relevância na agenda pública, o partido de extrema-direita também perdia importância. Nas eleições recentes, principalmente no leste do país, o AfD começou a ocupar espaços antes dominados pela esquerda do espectro político. A justiça social, por exemplo, tornou-se central em seu discurso, reinterpretada sob uma ótica nativista: uma forte presença do Estado, mas apenas para alemães. Na Saxônia-Anhalt, 59% dos trabalhadores não qualificados, 57% dos eleitores com ensino fundamental e 65% daqueles que relataram dificuldades financeiras apoiaram o AfD no último domingo.

2. A Ferida do Leste

73% dos entrevistados pela Infratest dimap na Saxônia-Anhalt consideram-se cidadãos alemães de segunda classe. Essa noção corresponde a uma narrativa histórica que circulou de geração em geração nos antigos territórios da extinta República Democrática Alemã. A reunificação tornou-se o símbolo de uma promessa quebrada. Ela reflete a frustração, o ressentimento e a decepção de grande parte dos cidadãos da antiga Alemanha Oriental, que se sentem injustiçados até hoje. Essa narrativa foi reformulada pelo AfD como um grito de guerra. Eles a transformaram em uma identidade e, ao fazê-lo, incorporaram uma narrativa órfã e ignorada pelas demais forças políticas. O voto na extrema-direita transcende sua plataforma eleitoral.

3. O músculo mobilizador

Segundo dados das pesquisas eleitorais, cerca de 170 mil dos 570 mil eleitores do AfD não haviam participado da eleição anterior. Nenhum outro partido mobilizou tantas pessoas. A participação atingiu níveis recordes na região e em toda a Alemanha Oriental.

4. A campanha de Ulrich Siegmund

A AfD apresentou um candidato cuidadosamente construído como o típico alemão-oriental
comum 
. Ulrich Siegmund participou ativamente em festivais locais durante todo o verão, explorando ao máximo a expertise da extrema-direita nas redes sociais e o impulso algorítmico que as principais plataformas proporcionavam às suas mensagens simplistas e provocativas. Mas o que funcionou melhor foi sua capacidade de transformar a cobertura midiática sobre si mesmo em arma de dois gumes. Quando
a revista Der Spiegel o estampou na capa e o chamou de “o homem mais perigoso da Alemanha”, Siegmund apelou para a narrativa de vitimização, ao mesmo tempo que aceitava o rótulo com orgulho e um toque de ironia. Sua mensagem reforçou o conceito central de todos os direitistas radicais contemporâneos: “Eles nos atacam porque estamos certos, porque defendemos o povo e porque a elite se sente ameaçada.”

5. Normalização 2.0

A extrema-direita busca construir uma alternativa autoritária à democracia, eliminando-a juntamente com suas instituições. A vitória esmagadora do AfD na Saxônia-Anhalt viabiliza o processo de normalização da extrema-direita. Siegmund possui ligações comprovadas com setores extremistas e neonazistas. Em 2023, quando uma conferência foi organizada em Potsdam para discutir o plano diretor de deportações em massa (remigração), elaborado pelo Movimento Identitário de Martin Sellner, Siegmund estava presente.

6. O Centro Impossível

A descoberta mais surpreendente das pesquisas de boca de urna da Infratest dimap foi relacionada à autopercepção ideológica dos entrevistados. 87% dos eleitores do AfD acreditam que “embora haja políticos de extrema-direita no partido, o AfD se situa no centro do espectro político”. Essa conclusão, compartilhada por uma grande parcela dos 43,8% de seus eleitores (e por segmentos menores, embora não inexistentes, dos outros partidos), demonstra a solidez com que o projeto político de extrema-direita se normalizou.

7. O Verdadeiro Alvo:

A extrema-direita almeja mais alto. A vitória na Saxônia-Anhalt é apenas o primeiro passo de um plano para desestabilizar o governo do democrata-cristão Friedrich Merz. O objetivo é enfraquecê-lo para liberar a pressão interna que começará a considerar o rompimento do cordão sanitário histórico que ainda se mantém na Alemanha. A exceção é esquerda conservadora do BSW (Aliança Sarah Wagenknecht pela Justiça Social e Sensibilidade Econômica). Essa força política híbrida — que combina aspectos econômicos de esquerda, como a redistribuição de renda, com posições xenófobas e antiprogressistas muito semelhantes às da extrema-direita — pode ser a chave para inaugurar uma nova era na Alemanha. De qualquer forma, a ascensão da AfD ao poder na Saxônia-Anhalt não passará de um golpe simbólico, o primeiro passo rumo à desconstrução democrática do país. Os demais partidos precisam encontrar soluções estratégicas para esse desafio antes que seja tarde demais.