E se o próximo golpe não precisar de um golpe?

E se o próximo golpe não precisar de um golpe?

E se o próximo golpe não precisar de um golpe?

Plinio Coêlho analisa como o próximo golpe pode chegar pelo voto e alerta para os riscos à democracia, à soberania brasileira e à Amazônia.

 

O próximo golpe pode chegar pelo voto e enfraquecer a democracia por dentro.

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Por Plinio Cesar Coêlho*

 

Roberto Amaral publicou recentemente um artigo cujo título, por si só, provoca reflexão: O golpe esteve e está aí. Sua leitura me levou a uma pergunta talvez ainda mais incômoda: e se o próximo golpe não precisar de um golpe? A história brasileira recomenda que não tratemos essa pergunta como exagero.

O golpe de 1964 não nasceu na madrugada em que os tanques começaram a se movimentar. Ele vinha sendo preparado muito antes. A crise de 1954, a tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek em 1955, a resistência à posse de João Goulart em 1961 e, finalmente, a deposição de Jango em 1964 não são acontecimentos isolados. Formam uma sequência histórica. Mudavam as circunstâncias. Permanecia uma dificuldade: aceitar a democracia também quando o resultado das urnas contrariava determinados interesses.

Em 1964, a ruptura foi explícita. João Goulart foi deposto, embora não tivesse cometido crime que justificasse sua retirada do poder. O Congresso declarou vaga a Presidência quando Jango ainda se encontrava em território nacional. Depois vieram os atos institucionais, cassações, suspensão de direitos políticos, intervenção nas instituições, censura, perseguições, prisões, tortura, exílio e mortes.

E houve participação dos Estados Unidos. Isso já não pertence ao terreno das suspeitas ou das interpretações ideológicas. Os documentos oficiais norte-americanos hoje disponíveis registram a Operação Brother Sam. O governo dos Estados Unidos preparou apoio logístico às forças que se movimentavam contra João Goulart, incluindo navios, combustível e apoio militar. Não é opinião. É documento histórico.

O próximo golpe pode chegar pelo voto

Passados mais de 60 anos, porém, seria um erro imaginar que uma ruptura democrática necessariamente repetiria a fotografia de 1964. A História raramente se repete dessa maneira. O golpe de ontem precisava dos tanques. O de amanhã pode tentar chegar pelo voto. Essa é a questão que considero central.

Uma democracia não começa a morrer somente quando alguém fecha o Congresso, ocupa o Supremo ou coloca soldados nas ruas. Ela também pode ser corroída gradualmente, por dentro, quando se desacreditam sistematicamente as instituições, quando adversários deixam de ser adversários para se transformar em inimigos, quando se questiona antecipadamente a legitimidade das eleições e quando se admite o resultado das urnas apenas sob uma condição: vencer.

O Brasil não precisa recorrer aos livros de História para saber que esse perigo existe. Nós acabamos de vivê-lo.

Durante meses, o sistema eleitoral brasileiro foi colocado sob suspeita sem que fossem apresentadas provas capazes de demonstrar fraude. Depois da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022, vimos acampamentos diante de quartéis pedindo intervenção militar. Em 8 de janeiro de 2023, as sedes dos três Poderes da República foram invadidas e depredadas.

Posteriormente, as investigações e os processos judiciais foram muito além das imagens daquele domingo em Brasília. Em setembro de 2025, por quatro votos a um, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro e outros sete integrantes do chamado núcleo central da trama. Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão. Houve voto divergente do ministro Luiz Fux, que entendeu que o ex-presidente deveria ser absolvido.

Ganhar uma eleição não basta para ser democrático

Portanto, não estamos discutindo uma hipótese abstrata. Estamos falando de acontecimentos submetidos a investigação, processo, contraditório, julgamento e condenações pelo Supremo Tribunal Federal. E aqui aparece o paradoxo que deveria preocupar qualquer democrata, seja de esquerda, de centro ou de direita. A democracia pode fornecer os instrumentos para a ascensão daqueles que depois pretendam enfraquecê-la.

Foi exatamente por isso que a experiência europeia do século XX deixou uma lição que não pode ser esquecida. A chegada de forças autoritárias ao governo nem sempre começa com a derrubada física das instituições. Pode começar utilizando mecanismos existentes e, posteriormente, alterando as regras, eliminando controles e reduzindo progressivamente os espaços de oposição.

Por isso considero perigosa uma frase aparentemente inocente: “se ganhou a eleição, é democrático”. Não necessariamente. A eleição é condição indispensável da democracia, mas democracia não é apenas eleição. Democracia é eleição livre, respeito ao resultado eleitoral, liberdade de imprensa, direito de oposição, separação entre os Poderes, independência do Judiciário, respeito às minorias, liberdade de organização e submissão de governantes à Constituição. Quem vence uma eleição recebe um mandato para governar. Não recebe autorização para destruir as regras que permitiram sua própria eleição.

Há ainda outra dimensão que Roberto Amaral corretamente recupera: a soberania. Em 1964, os Estados Unidos atuavam no contexto da Guerra Fria e consideravam a América Latina uma área estratégica. Hoje o mundo é outro. A União Soviética desapareceu, a China tornou-se potência econômica e tecnológica, novas disputas comerciais e geopolíticas reorganizam o sistema internacional.

Democracia, soberania e defesa da Amazônia

Mas uma coisa não mudou: grandes potências continuam defendendo seus interesses. Nenhuma delas organiza sua política externa pensando prioritariamente no bem-estar do povo brasileiro. Nem Estados Unidos, nem China, nem Rússia, nem qualquer outra. Cabe ao Brasil defender o Brasil. Por isso democracia e soberania não são questões separadas.

Um país incapaz de preservar autonomamente suas instituições também terá dificuldades para preservar suas decisões econômicas, seus recursos naturais, sua política industrial, sua Amazônia, seus minerais estratégicos e sua capacidade de escolher seu próprio caminho de desenvolvimento. E aqui a discussão interessa particularmente a nós, amazônidas.

A Amazônia não é apenas floresta. É território, água, biodiversidade, energia, minerais estratégicos e uma posição geopolítica que se torna cada vez mais importante no século XXI. Defender a soberania brasileira é também defender que as decisões sobre a Amazônia sejam tomadas pelo Brasil e pelos brasileiros dentro das instituições democráticas.

Estamos novamente diante de uma eleição presidencial. E talvez seja esse o momento de abandonar uma visão infantil da democracia segundo a qual basta realizar eleições de quatro em quatro anos e tudo estará resolvido. Não estará.

O eleitor precisa examinar programas, propostas, trajetórias e, principalmente, a relação de cada força política com as regras democráticas. Precisa perguntar como cada candidato se comporta diante de uma derrota, diante das instituições, diante da Constituição e diante da soberania nacional. Porque democracia não se mede apenas pela disposição de alguém em disputar uma eleição. Mede-se também pela disposição de aceitar perdê-la.

O próximo golpe e a responsabilidade do eleitor

Em 1964, para interromper a democracia brasileira foi necessário colocar tropas nas ruas, derrubar um presidente e rasgar a ordem constitucional. Em 2022, o Brasil voltou a enfrentar uma tentativa de ruptura, segundo concluiu o Supremo Tribunal Federal nos julgamentos realizados posteriormente.

Em 2026, a História nos apresenta outra responsabilidade. Talvez o maior erro seja ficar procurando os tanques. Porque eles podem não vir. O retrocesso pode bater à porta pedindo voto. E, se entrar pela porta da democracia, isso não significa que continuará democrático depois de atravessá-la.

A democracia brasileira já pagou caro demais para aprender essa lição. Não deveria precisar aprendê-la novamente.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.