Terça-feira, 17 de outubro de 2017.
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O último Presidente.Mario Drumond

publicada em 06 de agosto de 2017
O último Presidente


ASOL Nº6
Mario Drumond

A foto mostrava João Vicente sentado ao volante de um automóvel de brinquedo e Jango, em pé ao seu lado, sorridente ao ver a felicidade do filho estreando o novo brinquedo nos jardins ensolarados do Palácio da Alvorada, que era o colorido cenário de fundo. Do ponto de vista jornalístico era uma matéria do tipo “nota social”, como na época designavam as inserções de certos protagonismos de celebridades, publicada provavelmente na revista Manchete, em uma só coluna de um terço de página, quase toda ocupada pela foto e seguida de um pequeno texto-legenda, quase com certeza na época do Natal de 1963.

Digo isto porque ao vê-la enquanto folheava a revista aos meus 13 anos de idade, o que me chamou primeiramente a atenção foi o presente de Natal, bem parecido ao que eu havia ganho anos atrás, quando na mesma idade de João Vicente – ao redor dos sete anos -, com a diferença que o meu carrinho se movia por um sistema de pedais que eu devia acionar com os dois pés, como se pedalasse uma bicicleta, e o dele era de uma “nova geração” que o provera de um motor elétrico o qual fazia o pequeno veículo mover-se sempre que acionado por leve pressão em um pedal.

Mas foi outra coisa que mais me marcou e me chamou a atenção ao ver aquela página: apesar de sem importância política ou noticiosa para o momento, era uma matéria positiva sobre o Presidente da República, uma avis-rara num período em que a imprensa quase toda, em uníssono, massacrava sem piedade a figura do presidente Jango e tudo o que a ele se ligava.

Aqui preciso abrir um parêntese para informar aos atuais jovens de cinquenta anos ou menos que quem tinha 13 anos em 1963 estava sendo formado no melhor ensino básico que houve no Brasil, um ensino construído por Getúlio Vargas em seu primeiro mandato, que recebera grande aperfeiçoamento no segundo mandato e no mandato de Juscelino e que estava conquistando novas grandezas revolucionárias no mandato de João Goulart. Tal progresso era perfeitamente visível e sensível para quem como eu acabava de passar para a 4ª e última série do curso ginasial do Colégio Estadual de Minas Gerais e havia estudado na escola pública daquelas administrações desde os quatro anos de idade (desde o pré-escolar, então chamado de “Jardim da Infância”), disparado o melhor ensino do país, sem que tudo isto, incluindo livros e material escolar, custasse um único centavo aos meus pais.

Com treze anos, apesar da minha ainda ingênua consciência de adolescente, eu já recebera ensinamentos substanciais sobre a Constituição de 1946 e os Três Poderes da República, a história deles, de como se formavam e de como se estruturavam em nossa Democracia, quais as regras democráticas que então os regiam e que devíamos defender a todo custo, os nossos símbolos pátrios, nossos hinos, nossos heróis, nossas conquistas, nossas grandezas, nossas riquezas.

No Colégio Estadual os professores, além da exigente grade curricular em que nos empenhavam, exigiam dos alunos práticas de oratória em sala de aula, análise e interpretação de textos literários e jornalísticos, redação e composição de escritos sobre diversos temas e em diferentes estilos, formas e linguagens, entre outras coisas.

Assim, ao parar por uma única vez e por uns breves momentos naquela página da revista algo aconteceu entre eu e o conteúdo fotográfico e textual daquela matéria de amenidades que ela nunca mais deixou a minha memória e se apresenta até hoje como uma espécie de ícone do meu pensamento toda vez em que ele se volta para a política nacional. Durante todos esses anos venho secretamente me perguntando (confesso que esta é a primeira vez que exteriorizo este fato): por que justamente aquela “nota social”, sem maiores pretensões ou intenções jornalísticas, se tinha impregnado de maneira tão indelével em meu pensamento e em minha memória?

E não se trata de memória meramente visual, é muito mais que isto. Visualmente ela me vem daltônica: não sei dizer se a cor do carrinho de João Vicente era vermelha ou azul (a do meu era azul, com certeza). E falha: não estou certo se Maria Tereza também está presente na foto, do que estou certo é que ela está intrinsecamente presente nas felizes expressões de Jango e de seu filho. Ao encontrar, por puro acaso, aquela matéria na revista eu não sabia que estávamos a poucos meses do Golpe de Estado, mas já o pressentia… ou o premonia.

Lembro-me perfeitamente de ter sentido um aperto amargo em meu coração ao observá-la, pois levei algum tempo nisto, bem mais do que o que me seria necessário para lê-la. Até aquela época vivíamos em estado de graça com o nosso país, todos os brasileiros adorávamos o Brasil e nos orgulhávamos de ter nascido aqui. Em verdade, nos sentíamos privilegiados por sermos brasileiros. Reconhecíamos a existência de muitos e graves problemas mas sentíamos que estávamos harmonizados e bem direcionados para resolvê-los. Para nossa sorte, o governo de Jânio Quadros – que só fora eleito porque o adversário era um general -, e que considerávamos um “chato de galocha” (termo da época) havia sido curto, e o governo Jango – este, sim, eleito pela enorme adesão do povo às políticas trabalhistas que protagonizou, como ministro, nos governos de Getúlio e Juscelino – respondia aos anseios populares e às expectativas da juventude. Reinava entre nós uma paz, uma alegria e uma confiança que nunca mais iríamos desfrutar depois de golpeados.

E eu me perguntava: por que estariam atacando de tal maneira aquele homem? Via-se pela foto que era um bom pai, um pai como o meu e de muitos de meus amigos e parentes da mesma idade, um pai de família brasileira. E se era um bom pai, deveria ser também um bom homem, não? Um bom Presidente todos éramos convictos de que ele era e torcíamos para que suas “Reformas de Base”, que acompanhávamos atentamente e as apoiávamos através do ativo movimento estudantil que Jango estimulava e fomentava em todos os níveis – a UNE, os DCEs, os DAs, as UMES, os Grêmios, os CPCs e até em trabalhos escolares -, fossem à frente e se concretizassem. A juventude brasileira estava empenhada nas teses da igualdade, das conquistas populares e do desenvolvimento nacional.

E nos orgulhávamos do nosso Presidente, um grande político e, ao mesmo tempo, um homem simples, cordial e encantador. E muito competente! O livro de João Vicente nos confirma tudo isto. Com sobras. Mesmo sem estar focado nesta direção, as memórias publicadas por seu filho demonstram que Jango nunca precisou de poder político ou de cargos públicos para assegurar boa condição financeira para si e para sua família. Manejava com absoluto domínio e independência os negócios rurais, tanto agrícolas como pecuários, e em algumas passagens do livro chega a transparecer até um “toque de Midas”, uma extraordinária facilidade de Jango para desenvolver com sucesso as atividades com a terra e suas riquezas naturais e potenciais. Parecia conhecer muito bem a mais preciosa de todas as energias: a que emana das terras férteis: a energia da vida! Era capaz de distinguir uma potranca de um potrilho a quilômetros de distância e saber como e onde plantar e colher arroz em abundância onde nunca havia sido plantado nada. Não precisava do Brasil, o Brasil é que precisava dele. Perdemos a oportunidade de ouro de ter o homem certo no lugar certo para realizar a reforma agrária que precisávamos e ainda precisamos para tirar o nosso país do subdesenvolvimento.

Naquela premonição eu pressentia a derrubada não só do Presidente, mas de tudo o que eu havia aprendido sobre a nossa democracia. Respeitávamos nossos políticos mais conspícuos justamente por sabermos da legitimidade de seus mandatos e do quanto era preciso de que dessem de suas vidas à Nação para estarem ali. E confiávamos neles.

O que veio depois do golpe confirmou os maus pressentimentos. O poder dirigente da nossa promissora nação foi tomado por um bando de irresponsáveis arrogantes e incompetentes que começaram pela destruição completa da democracia brasileira e pela instalação da barbárie reacionária em uma ditadura estúpida e servil aos interesses imperialistas de seus patrocinadores. Uma sequência de descalabros que já passa de meio século de demolição dos interesses nacionais. E que causaram danos enormes, alguns irreparáveis, ao nosso povo e ao nosso país. Entre os mais graves e irreparáveis considero o roubo do meu/nosso futuro.

Desde 1º de abril de 1964 somos testemunhas da tragédia nacional que retrogradou o nosso processo de consciência coletiva e civilizatória aos níveis do século 18 e estancou de forma brutal o desenvolvimento nacional. Ao ponto em que estamos hoje, com os poderes públicos praticamente dissolvidos no caos institucional que nos resultou ao final de tudo e totalmente à deriva na História enquanto nação soberana. Basta uma simples comparação entre o Brasil e a China de então e de agora para termos uma dimensão da nossa tragédia.

Durante todo esse tempo só tivemos duas oportunidades reais de retomada do fio da história: a eleição de Tancredo Neves, mesmo que indireta, em 1985, cuja posse se frustrou, no mesmo dia em que se deveria dar, como consequência de um novo e ardiloso golpe: ainda nos é obscura a causa da moléstia e, posteriormente, da morte do líder que prometia a retomada do nosso processo histórico – que demonstrou ter condições objetivas para isto – e, com certeza, fora ilegal a posse de um vice de quem não chegara sequer a tomar posse. A segunda oportunidade teria sido a eleição de Brizola em 1989 para disputar o segundo turno da primeira eleição presidencial depois do golpe de 1964, também frustrada pelo advento de outro e ainda mais ardiloso golpe: a implantação na realidade brasileira de duas ficções notáveis: um “caçador de marajás” e um “líder operário”, cabendo ao segundo, por roubo descarado na contagem de votos, tomar o lugar de Brizola para disputar e perder a eleição para o primeiro. Brizola teria ganho o segundo turno daquela eleição e havia demonstrado, no seu primeiro mandato no Governo do Rio de Janeiro, que tinha condições objetivas para a retomada do fio rompido de nossa História.

Sempre me inquietei pelo que teria ocorrido a Jango e sua família depois das injustiças que sofreram e talvez seja esta uma das razões da fixação daquele ícone fotojornalístico em mim. Foi só agora, ao ler o livro “Jango e eu”, de João Vicente Goulart, que comecei a decifrar tal enigma. Por isto comprei um exemplar para cada um de meus filhos pois muito do que ele viveu, sofreu e aprendeu junto com sua família no exílio também vivemos, sofremos e aprendemos em nosso “exílio” da pátria que se foi com o golpe de Estado, mesmo estando em seu território. Considero importante que meus filhos conheçam tais desditas, que os atingiu e já atinge os filhos deles também, pela voz e pela pena de João Vicente Goulart. Um brilhante relato de memória que revigora nosso espírito patriótico e de resistência pela força da verdade espontânea e apaixonada de sua dissertação e que preenche lacunas importantes ao conhecimento da História. E também pelo privilegiado ângulo de observação do heroico personagem principal da tragédia nacional. Na modesta opinião deste que aqui escreve, João Goulart foi o último Presidente da República do Brasil – a que foi, por pouco tempo, popular, democrática e soberana.

E aquela matéria enigmática, que me ficou gravada em modo tão permanente, passa a ser agora, para mim, um tipo de prólogo semiótico ao conteúdo do livro de João Vicente, que acabo de ler. Creio que ela marcou o momento sensível, em mim, da transição da consciência ingênua do adolescente que eu era para a consciência crítica que, graças à formação escolar e cultural que tive o privilégio de receber do Estado brasileiro, a partir dali cultivei mais e mais a cada dia da minha existência. Talvez por isto tenha se impregnado assim, como um marco vital entre o antes e o depois, em minha memória e em meu pensamento de resistência.

É notável, tanto na vida como na História, o fato de acontecimentos de grande importância se iniciarem, às vezes, em momentos, lugares, eventos ou situações aparentemente sem importância, como neste caso, para mim. Ao longo do tempo, muitas sagas históricas tiveram assim seus primórdios; uma estrebaria em Belém, a casa modesta de uma lavadeira no Morro do Castelo, um “por ahora” num quartel de Caracas, são exemplos conhecidos.

Quem sabe o evento de 1º de julho de 2017, na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde, num domingo frio e chuvoso e completamente à margem do noticiário escandaloso em que se chafurda a imprensa brasileira, se deu, com a presença de D. Maria Tereza Goulart, a inscrição solene de João Vicente Goulart e outras lideranças do Trabalhismo histórico brasileiro no PPL – Partido Pátria Livre, Partido pequeno em tamanho mas grande em dignidade e amor pátrio, possa vir a ser outro desses acontecimentos.
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