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O messianismo político do brasileiro

publicada em 18 de novembro de 2019
O messianismo político do brasileiro
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Cientistas políticos analisam o fato do brasileiro procurar "um salvador da pátria"




Anna Tenório e Mirella Araújo

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Dois líderes carismáticos, que dialogam diretamente com a população sem o intermédio das instituições de poder. Um, é visto como o “pai dos pobres”. O outro, é colocado como símbolo anticorrupção. Ambos foram postos – cada qual no seu espectro político – no papel de heróis da Nação. Mas o que está por trás de figuras como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), que, em seus discursos, possuem um ponto claro de convergência: o de salvadores da pátria.

Especialistas ouvidos pelo JC explicam que essa característica de centrar a esperança de encontrar soluções para os problemas do país na figura do homem e não do Estado – sob o conceito de instituições que agregam o campo político e administrativo –, é comum em países da América Latina que seguem adotando o modelo populista como instrumento de liderança. “No populismo de direita, os políticos assumem a personificação da vontade de um líder, como a vontade de um povo. A diferença é que, para a esquerda, esse discurso é anti-elite”, explica o historiador e cientista político Alex Ribeiro.

No entanto, é preciso lembrar que a figura do presidente não é única e existe um governo para sustentá-lo.
No Brasil, essa linha populista foi iniciada por Getúlio Vargas, depois seguiu com os presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart. Na Argentina, o peronismo de Juan Domingo Perón; e no México, o cardenismo de Lázaro Cárdenas são outros exemplos desse conceito de governar para atender as classes menos favorecidas, mas sem permitir aberturas para tendências políticas contrárias.

Outro ponto avaliado é o tom extremista por quem assume a postura populista, seja de direita ou de esquerda. Isso porque o populismo surge a partir de um sistema político fragilizado. “O poder que existe hoje cresceu diante de um governo mergulhado em escândalos de corrupção da esquerda. O que deu margem para o populismo de direita”, afirma Ribeiro.
Para Rodrigo Prando, sociólogo e cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, existe o ônus diante da mitificação destes líderes. “Eles são amados e odiamos na mesma intensidade. Outro ponto em comum entre Lula e Bolsonaro é que eles tratam seus adversários como inimigos, devido a polarização constante”, ressalta.

Segundo Prando, com a soltura do ex-presidente petista, na disputa por espaço, a visão autoritária dos dois líderes estará ainda mais evidente. “O Bolsonaro ganha nesse primeiro momento, porque ele mantém o discurso eleitoral radicalizado, de confronto muito vivo. No entanto, na outra face da mesma moeda, ele passou 11 meses falando o que quis, tinha atenção da mídia, que agora também dará atenção a Lula, que irá se contrapor”.

Ao fazer seu primeiro ato político, em São Bernardo do Campo, um dia depois de deixar a carceragem, Lula fez um discurso inflamado. “Ele (Bolsonaro) foi eleito para governar para o povo brasileiro, e não para governar para os milicianos do Rio de Janeiro”, disparou. Já o presidente da República, ao comentar sobre a liberdade de seu adversário, pontuou: “A grande maioria do povo brasileiro é honesta, trabalhadora, e nós não vamos contemporizar com um presidiário”.

MESSIANISMO POLÍTICO
Cientista político e coordenador de relações internacionais da Faculdade Damas, Elton Gomes também relaciona o “lulismo” e o “bolsonarismo” ao fenômeno do messianismo político. “É uma doutrina política que não admite questionamentos. Se alguém dentro diz que Lula ou Bolsonaro errou, já é xingado. O grande problema de religião política é o pacote. Você não tem livre pensamento, tem que ser pacote completo. Como se o seguidor não pode vislumbrar nenhuma mudança ou discordar”, afirma.
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JC

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