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"O que está por trás dos ataques de Carlos Bolsonaro e Olavo a Mourão?

publicada em 25 de abril de 2019
"O que está por trás dos ataques de Carlos Bolsonaro e Olavo a Mourão?


Filipe Albuquerque, especial para a Gazeta do Povo





Ataques de Carlos Bolsonaro a Mourão insinuam que vice-presidente seria um incômodo ao presidente da República (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Definitivamente há um "climão" no Palácio do Planalto. O atrito envolvendo o vice-presidente Hamilton Mourão e o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) gerou desconforto evidente: mesmo após a bronca branda de Jair Bolsonaro no escritor Olavo de Carvalho, lida pelo porta-voz do governo, o general Otávio Rêgo Barros, em que afirma que suas declarações não contribuem com o governo, o filho seguiu no ataque.

Há quem reflita sobre o que pode estar por trás desse conflito e as consequências dele. Teorias conspiratórias insinuam que Mourão — que durante a campanha eleitoral disse que não gostaria de ser um "vice decorativo" e chegou a sugerir a possibilidade de um "autogolpe" — poderia tentar aproveitar a dificuldade demonstrada até o momento pelo presidente Jair Bolsonaro em articular uma base de apoio sólida para, quem sabe, ascender ao poder. Essa mesma teoria conspiratória afirma que, em resposta, o próprio presidente estaria insuflando críticas mais duras ao vice, em uma tentativa de minar forças.

"Se há algo grave sendo feito pelo vice, então esse problema é mais do que político, é institucional", avalia Paulo Roberto Neves Costa, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "Se há provas deste tipo de conduta por parte de Mourão, ela tem de ser apresentada e tratada institucionalmente, e não através de insinuações nas redes sociais, o que seria manter algo de muito ruim daquilo que seria a 'velha política'", acrescenta.

Núcleo militar
Integrantes do PSL rejeitam a ideia de que Mourão seria um “golpista” e não acreditam que ele esteja articulando para ocupar o lugar do presidente — ao contrário das teorias que se espalham pelas redes sociais. O entendimento é de que ele estaria buscando mais influência dentro do Palácio do Planalto. O general é considerado o principal líder do “núcleo militar” do governo, um dos grupos que marcam a composição da gestão Bolsonaro.

"Havendo ou não essa intenção, cria-se uma cortina de fumaça que chama atenção para estes embates, mas outras partes do governo estão atuando, no Legislativo e no Executivo, com ou sem o protagonismo direto de Bolsonaro", pondera Costa. "Talvez nesse sentido se avente a possibilidade de uma ação bem ou mal orquestrada, o que exige que se veja com calma essas declarações polêmicas de parte a parte, e se considere o que efetivamente está sendo feito ou não pelos poderes constituídos", acrescenta.

"Tem uma questão simbólica que é muito forte e não pode ser desconsiderada", aponta Maria do Socorro Braga, cientista política da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). "A gente tem um capitão no principal cargo do país, em uma democracia presidencialista. Do ponto de vista da hierarquia militar, ele está abaixo do vice, que era um general, hoje na reserva. E são vários generais que ocupam cargo nesse governo. Isso incomoda uma parte dos militares, que não estão se sentindo muito à vontade nesse governo, ainda que o tenham legitimado ao aceitar participar dele", acrescenta.

Veja também: A economia se arrastando e o governo brigando no parquinho ideológico

Mas divergências entre presidente e vice não são novidade, lembram os especialistas. Costa aponta que as trocas de 'caneladas' em público podem revelar apenas uma disputa no interior das forças que, com ou sem cargo, compõem o governo atual - o que não deixa de arranhar a imagem da gestão. "Mais uma vez, a responsabilidade é de Bolsonaro, e não só porque o Carlos é filho dele, mas porque dá espaço político, reverberado pela mídia, para as ações do filho", acrescenta.

A questão, ressalta Maria do Socorro, é que se os ataques continuarem a ponto de atingir e constranger não só a Mourão, mas também ao grupo que ele representa dentro do governo, é possível imaginar até uma retirada pessoal do vice-presidente ou então um recuo dos militares no apoio ao presidente.

"O quanto isso [um rompimento entre Bolsonaro e Mourão] vai desestabilizar o governo, vai depender de como os setores civis [dentro do governo] vão fazer para formar essa base de apoio, que por enquanto ainda está muito instável. A gente vê a dificuldade de [o governo] aprovar a reforma da Previdência, e isso não é à toa", exemplifica.

Um treino mais intenso
O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), vê a intriga como “natural”. À Rádio Gaúcha, comparou as rusgas entre Mourão e Carlos Bolsonaro com um treino de time de futebol em um tom mais alto. “Quantas vezes a gente vê no treino do Grêmio ou do meu Inter que daqui a pouco sai uma canelada mais forte, que na disputa o pé sai por cima. Isso é natural das relações humanas. As coisas vão se ajustar”.

Onyx disse ainda que não cabe a ele julgar o comportamento de Carlos, que seguiu no ataque a Mourão mesmo depois da nota de Bolsonaro tentando apaziguar as tensões entre Olavo e os militares. “Cada um escrever o que quer, diz o que quer e lê o que quer e o que não quer. Todos nós estamos aprendendo a trabalhar [com isso]”, assumiu.

Costa diz esperar que, em meio a movimentações que despertam a desconfiança de alguns, o país não esteja produzindo mais uma jabuticaba: "o vice-presidencialismo de coalizão", adjetiva. "Se, assim como o Olavo de Carvalho, o filho do presidente não possui cargos no governo, mais uma vez, a questão é a importância que o atual presidente atribui a eles, dando a eles um poder que institucionalmente não têm. Mais uma vez, o presidente não vem colhendo bons frutos desta estratégia.""
Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/o-que-esta-por-tras-dos-ataques-de-carlos-bolsonaro-e-olavo-a-mourao/
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