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O Brasil não conhece o Brasil…, por Izaías Almada

publicada em 08 de fevereiro de 2019
O Brasil não conhece o Brasil…, por Izaías Almada
Por Lourdes Nassif 






Como se dizia há alguns bons anos, “há algo estranho no ar além dos aviões de carreira”.

A vertiginosa mudança na política brasileira com o golpe de 2016 e a eleição do capitão Jair trouxe à tona o verdadeiro Brasil: o país que é de um jeito, mas que insiste em se mostrar de outro.

Arrisco dizer: o país que desde 1889 sempre foi falso e hipócrita no exercício da democracia e da justiça social, escondia tal pecadilho para si mesmo e para o mundo à sua volta. A proclamação da república não acabou com a escravidão, mesmo depois da Lei Áurea. Pelo contrário, o espírito da Casa Grande, escravocrata, diluiu-se pelos 8.500 mil metros quadrados do nosso território, mas a monarquia absolutista continuou sendo o sonho de muitos.


O Brasil não conhece o Brasil.

Se colocarmos o Brasil de hoje no divã de um psicanalista ficaremos chocados com os traumas e os distúrbios que o país apresenta, nessa que é a sua fase adolescente, digamos assim, perante as nações mais antigas.

Adolescente sim, pois vamos completar em abril próximo 519 anos de existência, enquanto países como a India, China, França, Inglaterra, Rússia e tantos outros já ultrapassaram há tempos a casa dos dois, três ou cinco mil anos.

O Brasil não conhece o Brasil.

Após a derrota militar do nazi/fascismo em 1945 e o esfarelar do comunismo na década de 80, o capitalismo caboclo brasileiro – vendo-se sozinho no meio do salão – começou a dançar para uma nova plateia formada por pessoas indiferentes à política, liberais arrependidos, empresários alienados e cidadãos aculturados… A clássica figura do Tio Sam apontando o dedo indicador para o mundo (I want you) tornou-se uma obsessão.

Os 18 do Forte de Copacabana, a longa marcha de Prestes, a Revolução de 1924, a Revolução de 1930, o Estado Novo, A Intentona Comunista, o suicídio de Vargas, JK, Jacareacanga e Aragarças, a ilusão fascista de Janio Quadros, o golpe contra João Goulart em 64, o AI-5… E por aí afora.

A democracia e o autoritarismo a brincarem de gato e rato… Sem falar, é claro, nos sempre e novos candidatos a aniquilar a esquerda (qualquer que seja ela) e, pelo visto agora, com um grupo de saudosos das ideias de Hitler, Mussolini, Franco e Salazar…

O novo cenário da geopolítica mundial configura-se ou, melhor dizendo, tenta se desenhar em meio a uma crise econômica que começa a ameaçar a paz, entremeada pela falência ou pela confusão ideológica de vários matizes e – sobretudo – pela avassaladora revolução tecnológica das comunicações, ainda não de todo avaliada, com bilhões de pessoas ajoelhadas e dependentes de smartfones, ipads, laptops e seus Twiters, Whatsapps, Instagrans e redes sociais.

A violência e o medo, salpicados de preconceitos e ódios, parecem renovar com vigor o seu sentido em um mundo que – mesmo que se diga o contrário – perdeu a sua identidade religiosa qualquer que ela seja, substituindo muitos dos valores humanistas de união e congraçamento entre raças e povos, pelo fundamentalismo agressivo e intolerante que, em casos extremos, usa a força militar e o terrorismo. Tudo em nome de liberdades, no mais das vezes em causa própria… E de um monoteísmo, paradoxalmente, de vários deuses.

A grade de programação das redes abertas e fechadas de televisão, bem como os novos meios digitais de exibição cinematográfica, via internet e computadores, está recheada de filmes e séries que exaltam do primeiro ao último segundo de suas imagens a violência – da mais bizarra à mais bestial – e o incentivo ao crime, organizado ou não, embora fingindo combatê-lo..

E pior: a fazer apologia, ainda que de modo sutil, da já inegável e mal intencionada distinção entre as várias formas de corrupção, algumas delas supostamente aceitáveis quando são feitas em nome de algum tipo de segurança que se possa dar ao cidadão comum e à sua família, edulcorando até mesmo a tortura como forma de se fazer justiça. E há público para isso, se há…

A comunicação social, em sua maior parte sob o comando de grupos conservadores, em nível planetário, procura no dia a dia engessar mentes e corações através da monocórdica defesa da democracia representativa burguesa, de mão única, enaltecendo os valores de um capitalismo cada vez mais selvagem e usando a mentira e o boato como armas para, de um lado defender os seus interesses empresariais (ou de seus anunciantes, o que vem a dar no mesmo) e de outro desmoralizar e aniquilar as cada vez mais tênues arremetidas dos que ainda encontram forças para lutar contra a hydra consumista e seus exércitos de inocentes úteis espalhados pelos cinco continentes.

Contudo, crises econômicas, políticas, sociais, programadas ou não, atropelam a paz e criam o pânico diário nos vários cantos do mundo, sugerindo já sem qualquer sutileza, que as mazelas da sociedade contemporânea, quando não são provocadas pela violência dos subdesenvolvidos (leia-se imigrantes) ou emergentes, se originam naqueles que ainda têm a ousadia de levantar dúvidas sobre as maravilhas de um sistema econômico apodrecido, cujos pilares são sustentados pela exploração do trabalho, pela repressão policial, pela mentira e pela corrupção. Sem esses quatro pilares o capitalismo implode. A ganância não tem limites. Entre nós, a Vale e os municípios de Mariana e Brumadinho estão aí para comprovar.

No Brasil que não conhece o Brasil, país abençoado por Deus, se é que algum dia o foi, a massa, “ignara e belicosa”, como dizia um amigo, com tantos meios e oportunidades de procurar alternativas para adquirir ou aumentar o conhecimento sobre sua própria história, sobre a caminhada política do seu povo, ainda sucumbe aos encantos e charmes – perdoem-me a boa vontade – de programas televisivos de duvidosa qualidade, de extensos e saturantes campeonatos de futebol (com jogos quase que diários), das colunas e matérias jornalísticas de vaidades e – o que vem a ser mais grave – usando da mentira, agora chamada modernamente de “fake news” e do mais puro deboche contra a democracia, transformando o Congresso Nacional, por exemplo, num circo que ignora a plateia para os seus inúmeros malabarismos em causa própria.

Que tal a eleição das mesas diretoras do Senado e da Camara Federal para ficarmos no exemplo mais recente?

Aberta a porta do manicômio institucional, começa a ficar difícil localizar e distinguir os cidadãos honrados dos sociopatas, os que querem um Brasil pujante, desenvolvido, menos injusto, daqueles que querem ver o circo pegar fogo e tirarem as castanhas com mão de gato.

Malabaristas, equilibristas, mágicos, palhaços, traidores e vendilhões da pátria, completam o “show” neste início de 2019, um ano que promete ser um dos mais “divertidos”, com variados números para uma plateia que não sabe exatamente qual será o grande final da temporada, com os olhos postos nas jaulas dos animais.

O Brasil não conhece o Brasil.

Nada nos garante que um psicopata, passando-se por domador ou coisa parecida, não solte os leões sobre o público e um dos palhaços ponha fogo nas lonas, pois como diz o surrado adágio popular: a alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo.
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