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A inteligência mais autônoma do Terceiro Mundo

publicada em 14 de março de 2017
A inteligência mais autônoma do Terceiro Mundo


http://revistacult.uol.com.br



(Foto: Bob Wolfenson)


Leonardo Boff, Isa Grinspum Ferraz e Eric Nepomuceno refletem sobre o legado de Darcy Ribeiro, vinte anos depois da morte do antropólogo


Darcy Ribeiro gostava de dizer que tinha algo em comum com as cobras. Não por ser “serpentário” ou “venenoso”, mas porque, assim como elas, havia vestido muitas peles ao longo da vida. Nascido em Montes Claros, Minas Gerais, segundo filho da professora primária Mestra Fininha com o farmacêutico Naldo, Darcy foi antropólogo, indigenista, educador, político e romancista. Em todas e em cada uma dessas peles, defendeu a salvação dos índios, a educação popular, o desenvolvimento nacional, a democracia e a liberdade. Há vinte anos, terminou a vida exausto de viver, mas “querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras”.

Como antropólogo, Darcy esteve quase uma década em campo vivendo com os índios Kadiwéu no Mato Grosso, com os Kapoor na Amazônia; entre os Karajá do Tocantins, os Kaigang do Paraná e os Xokleng de Santa Catarina. Fundou o Museu do Índio, no Rio de Janeiro, e junto dos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Bôas trabalhou na implantação do Parque Indígena do Xingu. Por meio do convívio com esses povos, encontrou uma nova maneira de olhar para o Brasil, mas lamentava o fato de não ter conseguido “salvá-los”. “Esta é a dor que mais me dói”, escreve em O Brasil como problema, de 1995.

Como educador, defendeu a escola pública ao lado de Anísio Teixeira, organizou o primeiro curso de pós-graduação em Antropologia do Brasil, além de ser o responsável pelo projeto de criação da Universidade de Brasília (UnB), da qual se tornou o primeiro reitor em 1962. Na política, foi ministro da Cultura, chefe da Casa Civil no governo de João Goulart, vice-governador de Leonel Brizola no Rio de Janeiro e, mais tarde, senador. No governo do Rio, colocou em prática um de seus projetos mais ambiciosos, a construção de trezentas escolas em período integral, os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), projetadas por seu grande amigo Oscar Niemeyer. Como senador, formulou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – conhecida como Lei Darcy Ribeiro –, que orientou a reformulação do ensino brasileiro a partir dos anos 1990.

Contemporâneo de pensadores brasileiros como Paulo Freire, Celso Furtado e Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro queria compreender a fundo a realidade do Brasil e da América Latina para então modificá-la, propor soluções, pensar em saídas. Seus livros foram publicados em quinze países, e alguns títulos, como O processo civilizatório: etapas da revolução sociocultural (1968), As Américas e a civilização (1970) e O dilema da América Latina (1978), fizeram dele um dos intelectuais brasileiros mais respeitados e influentes da América Latina na segunda metade do século 20, segundo Eric Nepomuceno. Na opinião de Antonio Candido, Darcy, “um dos homens mais trepidantes do Brasil”, ainda escreveu um dos romances mais importantes do século, Maíra (1976).

“Obras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com a minha marca nos mundos que passei, enquanto passava. Um sambódromo, um parque indígena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muitíssimas escolas, algumas universidades. Não é pouco, quisera mais. Sempre quero mais […] Sou um homem de fazimentos”, foi como resumiu sua trajetória. Ao longo da vida, Darcy não deixou de ser alvo de críticas de setores da direita e também da esquerda, tanto por sua atuação política, quanto pela produção intelectual.

No mês que marca os vinte anos da morte de Darcy Ribeiro, a CULT convidou Leonardo Boff, Isa Grinspum Ferraz e Eric Nepomuceno a refletirem sobre o legado que o intelectual deixou ao país. Os três conviveram por algum período com Darcy e testemunharam de perto o fervilhar de novos projetos e os anseios do mineiro que, segundo o educador e escritor Anísio Teixeira, foi a inteligência “mais autônoma” que o Terceiro Mundo já viu.

LEONARDO BOFF – teólogo, escritor e professor



Leonardo Boff (Foto: Divulgação)
Por onde ando, Darcy é sempre uma referência de homem que defendeu a todo o tempo os povos indígenas, a educação e que alimentou um grande sonho sobre o Brasil, a “Roma dos trópicos”, como costumava dizer. Na minha percepção, ele não é visto tanto como político, mas como humanista, um homem de rara inteligência que pensou como poucos o destino do Brasil e da América Latina. Sua visão era sempre global. Foi uma das inteligências mais brilhantes e criativas que encontrei em minha vida.

Darcy também foi um pensador do destino da humanidade e de seu próprio destino. Discutíamos muito sobre teologia. Ele tinha saudades de Deus e me invejava, perguntava como eu podia conciliar inteligência e fé em Deus ao mesmo tempo. Antes de morrer, me dizia que queria uma conversa definitiva comigo e com Frei Betto. Eu fui ao seu apartamento em Copacabana e o encontrei já bastante debilitado pelo câncer. Fez-me ler todo o prefácio de seu último livro [Confissões], em que fazia uma espécie de balanço de sua vida lamentando que, com a morte, tudo acabaria em “matéria cósmica”. Eu disse: “Darcy, você que sempre se preocupou com os pobres, com os indígenas, com a libertação e especialmente com a educação dos mais carentes, quando tiver passado pela morte encontrará toda aquela multidão que você amou e ajudou gritando por ti. E Deus vai dizer: Por que veio tão tarde? Tive uma saudade imensa de você. E te cobrirá de beijos e de todos os carinhos”. Ele ficou muito comovido e perguntou: “Por que ninguém me falou isso antes?”

Nós nos admirávamos mutuamente, cada um em seu campo, mas juntos no mesmo sonho. Foi uma honra para mim ele ter deixado escrito que eu faria o seu sepultamento. E o fiz com palavras emocionadas pela perda de um amigo apaixonado pelo povo brasileiro.

Seu grande legado foi justamente esse, o amor ao brasileiro, mas não um amor romântico que canta as paisagens e o mar, e sim um amor ao potencial criativo do povo mestiço, de sua capacidade de invenção, criação e senso lúdico. Darcy propôs uma refundação do Brasil a partir do povo, de sua cultura e criatividade. O povo brasileiro, por exemplo, é um hino à esperança e ao futuro do país como a maior nação latina do mundo, capaz de projetar uma civilização assentada no amor, na relação fraterna, na ligação profunda com a natureza. É disso que precisamos hoje, em face do desastre em que se transformou a nossa política, sem projeto de nação, apenas um lugar de negócios e privilégios, deixando grande parte da população na miséria correndo o risco de se tornarem párias.

Com a sua morte, o país perdeu alguém que poderia dar um norte à nossa crise. Darcy teria todas as condições de sugerir soluções vindas de baixo, do povo, dos condenados da Terra, sem menosprezar as contribuições da modernidade. Ele nos deixou um imenso vazio até hoje não preenchido por ninguém.

ISA GRINSPUM FERRAZ – roteirista, documentarista e diretora cultural da Fundação Darcy Ribeiro



Isa Grinspum Ferraz (Foto: Divulgação)
Não era fácil enquadrar o Darcy. Ele era um homem de ação política, um grande pensador, mas também um “fazedor” de coisas, um realizador. Durante muito tempo, foi estigmatizado pela direita e pelo poder. Seu nome não podia ser falado na Rede Globo, não aparecia nos jornais. Também a academia tinha muitos problemas com o Darcy porque ele teve um pensamento heterodoxo que não se encaixava dentro dos padrões acadêmicos. A partir de certo momento, ele começou até a ser um pouco ridicularizado e não considerado como o intelectual de primeira linha que ele era. Isso muito pelo próprio jeito de ele ser, pela liberdade com que a cabeça dele funcionava. Darcy achava importante não se filiar a nenhum pensamento que viesse de fora, que era importante ser livre para pensar o Brasil de maneira independente. Não foi filiado a nenhuma escola de pensamento, e isso não era bem visto pela academia.

Ficamos muito amigos, virei como que uma filha para ele. Enquanto ele era senador, eu ia muito a Brasília e ficava hospedada em seu apartamento. Ele já estava com metástase óssea muito disseminada, dormindo com oxigênio, quando um dia acordou gritando: “Minha filha, minha filha, venha cá, tive um sonho”. Fui até o quarto dele e o encontrei com o olhar espantado. Ele me disse: “Sonhei com uma universidade nova para o Brasil. Vamos fazer uma escola para formar professores da rede pública usando educação a distância. A professorinha do Piauí vai ter a mesma aula que a professorinha do Rio de Janeiro. O Aziz Ab’Saber pode ensinar Geografia”. Ele estava à beira da morte e sonhou com uma universidade nova para o Brasil. Ligou para o Fernando Henrique Cardoso, na época presidente, e disse “Fernando, venha almoçar em casa porque tive uma ideia”. Era esse o cara que ele era. Você não sai imune ao conviver com uma pessoa dessa generosidade.

Sua lucidez e sua liberdade fazem muita falta ao Brasil. É a mesma lucidez que Lina Bo Bardi e Carlos Marighella – que também é uma figura muito próxima a mim [seu tio] – tinham, de pensar esse Brasil com as ferramentas do Brasil, a partir da nossa história, da nossa formação e cultura. Era importante, ele dizia, haver ressonância na alma das pessoas. Isso faz falta ao nosso país.

ERIC NEPOMUCENO – escritor e tradutor



Eric Nepomuceno (Foto: Paula Johas/ Divulgação)
Eu me lembro de uma figura baixinha, quieta e que quando começava a falar era um vulcão. Eu devia ter uns onze anos de idade. Durante vinte e dois anos da minha vida adulta aquela figura da minha infância se tornou um grande amigo meu. Depois que papai morreu, eu o chamava de vice-pai.

Ao longo da vida você vai reunindo uma ou duas frases que são como um guia, coisas em que você acredita. Há muitíssimos anos, eu ouvi do Darcy: “Não tem jeito, seu moço. Nessa América Latina você só tem duas saídas: pode se indignar ou se resignar. Eu não vou me resignar nunca”. E ele foi absolutamente coerente com isso. Darcy era uma figura completamente inquieta. Apesar de ter um pulmão, tinha quatorze fôlegos. Acreditava no que fazia, era um visionário – no melhor sentido da palavra –, tinha um humor único, era muito vaidoso e sabia exatamente quem era.

Uma de suas quinhentas mil frases, sempre certeiras: “Se faltar dinheiro para educação hoje, daqui a trinta anos não vai haver dinheiro para construir cadeia”. Ele estava vendo o Brasil atual. Não me ocorre outro adjetivo a não ser este: visionário. Ele via o futuro. Foi sem dúvida nenhuma um intelectual altissimamente preparado, mas achava que ficar confinado na “torre de marfim” era um ato de covardia. Dizia que, se você quer mudar a realidade, precisa primeiro conhecê-la e depois participar dela. Uma coisa é observar de longe e dar palpite, outra é se meter correndo todos os riscos, perder, ganhar, errar. E Darcy jamais se limitaria a ser um intelectual contemplativo: afirmava que a academia era uma trincheira ou então não servia para nada.

Seu grande legado são os livros O processo civilizatório e O povo brasileiro, sem dúvida. Mas há um aspecto em sua vida que pouca gente no Brasil sabe, que foi o papel essencial que ele desempenhou em países da América hispânica como assessor privilegiadíssimo de Salvador Allende, do presidente peruano Juan Velasco Alvarado e como figura-chave na reforma da universidade da Venezuela, da Costa Rica, do México, e também na formação de uma geração de intelectuais uruguaios, a começar pelo Eduardo Galeano. Darcy se descobriu latino-americano no exílio [durante a ditadura militar]. Vejo muitos intelectuais de peso, hoje, referindo-se à literatura latino-americana, à música latina [como algo distante], e sempre me pergunto: E nós somos o quê? Nórdicos? Austríacos? Darcy sempre assumiu isso.

Ele foi um incendiário. Eu o tenho muito presente, sinto muito a sua falta, mas também não sei se haveria lugar para ele no Brasil de hoje, tendo em vista o que virou o cenário político brasileiro, como as instituições foram violadas, derretidas, o que virou o Judiciário, o Congresso, a Presidência da República. Sinto muita falta de uma tribuna igual ao Darcy, que estaria denunciando isso tudo com uma fúria juvenil.
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