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Um “Alô! Del Bel?” fez o brasileiro descobrir a fuleragem que é o Brasil;

publicada em 26 de julho de 2020
Um “Alô! Del Bel?” fez o brasileiro descobrir a fuleragem que é o Brasil;

por Henrique Rodrigues
O desembargador que insulta o guarda e o "engenheiro civil, formado" só escancararam um traço antropológico genuíno e intrínseco à nossa formação como povo. Temos a obrigação de entender a origem e as consequências de se viver numa sociedade insistentemente escravagista e colonial







Foto: Ilustração


Por Henrique Rodrigues*

Nunca antes na história desse país as carteiradas ganharam tanto espaço na imprensa e nas redes sociais. Em duas semanas fomos brindados com um digníssimo engenheiro civil, formado (melhor que você), que queria o direito de fazer muvuca pra tomar um goró, e com um desembargador tendo um ataque de pelanca com guardas municipais que o abordaram por estar sem máscara.

Nos dois casos, ainda que por razões relativamente semelhantes, as reações mostraram dois comportamentos diferentes que têm origem conjunta.

O exibicionismo besta e presunçoso por conta de um diploma e a humilhação de um funcionário público raso promovida por um alto burocrata da República são condutas antiquíssimas e profundamente arraigadas na cultura brasileira.

Entra século, sai século, mas nossas bases como nação, no fundo, mudam muito pouco. Do modelo colonial e de capitanias hereditárias, marcadamente desigual e edificado sob a égide dos privilégios, manteve-se a fenda social profunda e os superpoderes da ponta mais alta da pirâmide, encharcada por um patrimonialismo indissolúvel.

A presença da escravidão por mais de 350 anos e o peculiar modelo ibérico de “conquista” e administração de territórios no Novo Mundo deixaram marcas indeléveis e uma visão completamente torta em relação a direitos e deveres.


Aí veio o Império e seu clientelismo de ocasião. Depois a República e a perpetuação das oligarquias.

Aliás, as oligarquias regionais e a nobreza, profundamente enraizadas em nosso sistema social, naturalmente nunca aceitaram a quebra desse paradigma. Há uma ingenuidade e um romantismo abissais na leitura que fazemos disso hoje, sobretudo no período escolar.

O fracasso na conquista da justiça e na consolidação real de uma cidadania não foi um fenômeno exclusivo de nossos processos de independência e de proclamação da República, ainda no século XIX.

Para muito além disso, todas as tentativas de mudança significativas ou de emancipação social ao largo da história brasileira ficaram demarcadas apenas num plano teórico bobo e superficial.


Um olhar mais cuidadoso perceberá com clareza que o golpe militar de 1964, postergado em dez anos pelo suicídio de Getúlio Vargas, foi um ato deliberado e com intuito de aniquilar qualquer possibilidade de subversão em nossa arcaica estrutura colonial de sociedade, supostamente ameaçada pelas pretendidas reformas de base instigadas por João Goulart, principalmente no que tangia as questões da terra e dos grandes latifundiários.

O contexto geopolítico da época (o auge da Guerra Fria) aumentou o volume da gritaria dos setores que de forma alguma aceitavam a perda de suas mordomias.

Na redemocratização a coisa se repete. Enquanto nossos vizinhos mandavam para o banco dos réus seus genocidas que aterrorizaram povos em diferentes ditaduras, por aqui criamos uma fanfarra festiva que aceitava de volta a “democracia”, permitia o regresso dos exilados ameaçados, mas dava liberdade plena e anistia aos assassinos torturadores, que foram gozar suas generosas aposentadorias nos bares de Copacabana e nos joguinhos de dama e gamão do Círculo Militar do Ibirapuera.

O capítulo final da Era Lula-Dilma só corrobora todo esse mecanismo trucidante que mantém intocáveis os privilégios de nossa elite anacrônica e jeca.


Um golpe parlamentar e uma prisão inusitada, condenada mundo a fora, após um processo judicial maluco, colocaram fim ao incômodo interminável do tal sonho de alinhar minimamente posições em nossa estratificação social.

Ainda que Lula tenha apostado num pacto social que não afrontava nem vilipendiava descaradamente as benesses da casa-grande, esse lance de negros e nordestinos nos aeroportos e serviços públicos e do filho do operário portuário semianalfabeto nos bancos das universidades, como eu, causou uma chiadeira que jamais foi superada, culminando com a grotesca virada de mesa de 2016, desta vez capitaneada pelo Congresso e pelo Judiciário.

Há muita groselha quando falamos de “democratizar” qualquer coisa no Brasil. Muito do que temos aqui não foi concebido para ser “democratizado”. Tomem como exemplo o ingresso nas universidades públicas e na vida acadêmica, ou então os mecanismos que operam em nosso sistema judicial.

O absurdo dos privilégios está em toda parte, até nos juros exorbitantes de 300% ao ano no cartão de crédito do trabalhador assalariado, em oposição ao político importante e ao apresentador de tevê, ambos milionários, que adquirem jatos executivos para uso pessoal com linha de crédito estatal a juro zero, pelo BNDES.


O desembargador que insulta o guarda e o “engenheiro civil, formado” só escancararam um traço antropológico genuíno e intrínseco à nossa formação como povo. Temos a obrigação de entender a origem e as consequências de se viver numa sociedade insistentemente escravagista e colonial.

Existem também outras faces do problema. Sabe aquele indivíduo que serve a todos nós num restaurante, por exemplo? Ele, por vivências pessoais e herança histórica, acaba por colocar-se numa posição assumidamente inferior muitas vezes por falta de ações afirmativas que reconheçam seu estatuto de cidadão.

Isso para não falar nas forças de segurança daqui. Elas foram concebidas não para preservar a paz social e o convívio em condições igualitárias de cidadania, mas sim como uma guarda pretoriana da aristocracia dantesca e mesquinha, que precisa de dispositivos físicos e do monopólio da força do Estado para preservar seu status.

É só observarmos os brasões das duas polícias militares mais violentas do país. Em São Paulo, a insígnia oficial da corporação carrega a imagem de um bandeirante, enquanto que no Rio de Janeiro a heráldica da PM traz como referência um pé de cana e outro de café, símbolos do poder econômico e da aristocracia dominante à época de sua fundação, assim como a dourada coroa portuguesa em posição central.

Os agentes da lei não são elementos passivos nesse processo. O guarda municipal não pensou em momento algum em plantar a mão na cara do desembargador pedante e escandaloso. É de se imaginar o que aconteceria se, em vez de estar ali um magistrado do Tribunal de Justiça, estivesse um jovem negro ou pobre.

É urgente que a mentalidade dos policiais, guardas e militares mude e que uma formação humana rígida e cidadã seja dada nas academias, como em vários países.

Surpreender-se com o óbvio e reproduzir discursos vagos e fora da realidade não ajuda muito. Rigorosamente nada sairá do papel enquanto não ocorrer a implosão desse modelo embolorado e pútrido de sociedade, que naturaliza o apartheid a que estamos submetidos com um verniz de democracia racial, no pior sentido do conceito de Gilberto Freyre.

Enquanto nada disso ocorrer, as carteiradas vão se multiplicar, especialmente agora que vivemos num Brasil oficial que incentiva e normaliza a chaga da desigualdade que há séculos nos corrói.
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