Segunda-feira, 16 de dezembro de 2019.
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O Espiritismo é de Direita ou de Esquerda?

publicada em 02 de dezembro de 2019
O Espiritismo é de Direita ou de Esquerda?
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Elias Inácio de Moraes


Os conceitos de Direita e Esquerda nasceram em meio às movimentações políticas da Revolução Francesa, quando os Girondinos, que apoiavam o rei e eram maioria, ficavam à direita do plenário, e os Jacobinos, os revolucionários, à esquerda. Portanto, historicamente esses dois termos estão associados a uma extensa pauta de reivindicações de cunho social, sendo o termo Direita associado à manutenção da ordem, aos valores tradicionais, ditos “conservadores”, e o termo Esquerda às mudanças, à transformação social, pauta dos chamados “progressistas”.

Sob o ponto de vista da política o termo Direita está hoje associado aos partidos que defendem o capitalismo como modelo econômico. Capitalismo deriva de capital, que engloba dinheiro e propriedades, acrescido do sufixo ismo, que significa crença; crença no poder transformador do capital. Os capitalistas defendem o liberalismo econômico, que é a liberdade de cada pessoa empreender como achar melhor, sem a interferência do Estado, tendo como objetivo o lucro. Segundo Adam Smith, economista do século XVIII, se cada um cuidar do seu interesse, aí incluído o da sua família, ao final todos estarão bem atendidos, porque a “mão invisível do mercado” cuidará de equilibrar os interesses de todos com base na “lei da oferta e da demanda.”[1]

Já o termo Esquerda está associado aos partidos que defendem o socialismo, que deriva de social, sociedade; e ao comunismo, de comunal; portanto, à crença no social, no coletivo, no comunal. No socialismo o foco deixa de ser o capital e o lucro individual, e passa a ser o bem estar da coletividade; o interesse coletivo é colocado acima do interesse dos indivíduos. Na sua versão mais radical, o comunismo, eles preveem também a coletivização da produção e a limitação da propriedade privada; nem pobreza e nem riqueza extremas. A social democracia, também de Esquerda, propõe um capitalismo controlado e um Estado que seja garantidor do bem estar para todas as pessoas. Por incrível que pareça, o livro Nosso Lar apresenta uma sociedade que é regida pelos princípios do comunismo, e a Liga dos Justos, que deu origem à Liga Comunista no século XIX, se inspirava no exemplo da Casa do Caminho, descrita no livro Atos dos Apóstolos, do Novo Testamento, e em Paulo e Estêvão, de Emmanuel.

E o Espiritismo, de que lado fica? Conforme apresentado por Allan Kardec, o Espiritismo tem como objeto central a “existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo”, bem como as implicações filosóficas e morais disso decorrentes.[2] Em razão disso, pelo menos em tese, ele nada teria a ver com ideologias de Esquerda ou de Direita, situando-se acima desses posicionamentos. No regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas Kardec estabeleceu que não se admitiria nas suas reuniões “questões políticas, de controvérsia religiosa e de economia social”.[3]

Entretanto, uma análise cuidadosa da obra de Allan Kardec mostra que a questão não pode ser reduzida a uma pretensa “neutralidade” em relação às ideias e propostas. Embora distanciando-se da política partidária, Kardec nunca hesitou em assumir posições claras em relação às temáticas sociais. O estudo de sua obra possibilita identificar algumas discussões que estavam sendo travadas na sociedade francesa daquela época, como a pena de morte, o duelo, o divórcio e o aborto terapêutico, a respeito dos quais ele assumiu posições claras e inequívocas, sempre em sintonia com o que era considerado como “progressista”.

Mas não apenas estes assuntos; Kardec discutiu a escravidão, a desigualdade social, a exploração do pobre pelo rico, as jornadas de trabalho abusivas, o direito à propriedade privada, a liberdade de expressão, a igualdade dos direitos do homem e da mulher. Na maioria dessas questões se observa um forte alinhamento entre o Espiritismo e o que ele chamava de setores “progressistas”, ou seja, os “reformadores sociais”, que se ancoravam na ciência para defender a instauração de uma nova ordem social. Apesar da sua neutralidade partidária, nota-se em toda a obra de Kardec uma atenção especial à questão da “transformação social”, que ele associava à mudança para um “mundo de regeneração”. Em virtude de suas posições em relação às questões sociais ele foi acusado de “preconizar o comunismo”.[4]
Quase uma década antes da publicação de O Livro dos Espíritos, Karl Marx e Friedrich Engels haviam publicado em Londres o Manifesto Comunista, um livreto contundente que denunciava os abusos do capitalismo emergente e conclamava as classes operárias de todo mundo à revolução contra a rica burguesia e à tomada do poder. Calcado numa base materialista, denunciava as religiões da época como alienantes, a moral burguesa como uma moral de superfície e o Estado como uma instituição a serviço dos poderosos. Desnecessário dizer que as ideias de Marx se espalharam rapidamente por todo o mundo capitalista.

Em seus livros Kardec estabelece um claro contraponto ao Manifesto Comunista no que se refere à visão materialista, ao ateísmo e à proposta de transformação social mediante mudança da estrutura econômica. Para Kardec a transformação social só seria efetiva se tivesse como base a transformação moral do ser humano. Contudo, é interessante observar a extrema semelhança da crítica social levada a efeito por Kardec com a que seria publicada por Karl Marx uma década mais tarde em seu livro O Capital. Até os espíritos parecem concordar com muitas das críticas que Marx fez ao capitalismo, como fica evidente em vários capítulos da parte terceira de O Livro dos Espíritos. O que Marx apresenta é um estudo cuidadoso dos fundamentos e contradições do modo de produção baseado no capital e a exploração a que eram submetidos os operários, com jornadas de até 18 horas por dia, em troca da subsistência em condições de miséria, enquanto o dono do capital acumulava riquezas apropriando-se do lucro produzido mediante o sacrifício dos trabalhadores.

Entre os vários pontos de convergência entre Kardec e Marx destacam-se a necessidade de construção de uma nova ordem social livre da exploração do homem pelo homem, a visão da educação como base da transformação social e um novo conceito de trabalho, muito distante da visão economicista de Adam Smith. Para Kardec, o trabalho desenvolve a inteligência e “exalça a dignidade do homem”; para Karl Marx, o trabalho é a manifestação da cidadania pois, é por ele que o homem afirma a sua presença no mundo.[5]
Portanto, as divergências entre Kardec e Marx são específicas; têm a ver com a visão materialista de sociedade e a negação da existência de Deus. Mesmo no que se refere à crítica à religião e à moral burguesa, que Kardec chamava de “verniz social”, observa-se certa convergência entre suas opiniões. É curioso observar que na questão da revolução não há propriamente uma oposição; para Marx a revolução se daria pela revolta da classe operária que, chegando a uma situação inaceitável de exploração capitalista, tomaria das armas para impor-se à burguesia dominante e estabelecer uma ditadura do proletariado. Kardec reconhecia que a guerra podia ser “necessária”, em especial quando visava “a liberdade e o progresso”, como já havia ocorrido durante a Revolução Francesa.[6]

Neste ponto quem diverge de Marx são os socialistas, entre os quais Léon Denis, um dos principais continuadores de Kardec e ativo militante do socialismo. Para estes a ideia de uma revolução baseada em armas era inaceitável; a transformação social deveria ocorrer de modo pacífico mediante um amplo programa de educação moral envolvendo toda a sociedade, combatendo o egoísmo e estabelecendo a solidariedade humana como valor central. Progredindo intelectual e moralmente, os homens contribuiriam também para o progresso da sociedade, promovendo a mudança das instituições sociais e das leis que regem a vida em sociedade, de modo a garantir o bem estar de todos. Pelo que os espíritos disseram a Kardec, a missão dos homens encarnados consistiria “em instruir os homens, em lhes auxiliar o progresso, em lhes melhorar as instituições por meios diretos e materiais.”[7]

Na opinião de Léon Denis, o Espiritismo complementava o Socialismo ao acrescentar-lhe a visão espiritual de ser humano, oferecendo base concreta à solidariedade e à justiça social, inspiradas nos princípios morais e éticos do Evangelho de Jesus. Para Léon Denis,
O Socialismo, qualquer que seja a opinião que dele se faça, que se o aprove ou que se o condene, tem perseguido seu caminho a despeito das resistências e se tornou uma força com a qual é preciso contar. Ele tem para si o futuro; ele triunfará, talvez, sob formas bem diferentes daquelas sob as quais é concebido hoje e sua obra será pacífica ou sangrenta, conforme o princípio, a ideia mestra que a inspirará.[8]
O mais curioso é que, mesmo diante de posições tão claras, há quem insista em associar o Espiritismo às propostas ideológicas dos movimentos de Direita no mundo, numa clara negação à sua orientação social. Fala-se dos erros graves cometidos pelas sociedades que tentaram implementar as propostas do comunismo e esquece-se das monstruosidades perpetradas em nome do lucro capitalista pelo mundo afora. Ignora-se propositalmente os largos benefícios promovidos pelos governos social democratas que extinguiram a miséria milenar da Europa ao longo da segunda metade do século XX e dos 700 milhões de pessoas resgatadas da situação de miséria extrema pelo governo comunista da China, elevada à condição de segunda potência econômica do mundo no curto espaço de 70 anos.
É óbvio que, nem por isso, deve-se defender que o Espiritismo se alie aos partidos políticos de Esquerda, até porque as suas posições divergem da visão materialista que predomina hoje na maioria dos partidos socialistas. Mas também não faz o menor sentido tentar colocar o Espiritismo à Direita, no espectro ideológico atual, defendendo propostas que aprofundam a desigualdade social, que ignoram e até perseguem as minorias, que reavivam a discriminação e o preconceito tão arduamente superados, que validam a violência e a injustiça contra as comunidades mais pobres.

Ao contrário, o espírita consciente do seu papel na construção do Reino dos Céus na Terra, como propunha Jesus, ou comprometido com a efetivação do mundo de regeneração do qual falavam os espíritos, há de empenhar-se, não apenas com o seu voto, mas com sua atuação junto à sociedade, para que se apresse a transformação das nossas instituições sociais e das nossas leis no sentido de fazer frente à discriminação e ao preconceito, de proteger os socialmente vulneráveis, de reduzir o enorme fosso da desigualdade social que mantém na situação de miséria extrema 800 milhões de pessoas mundo afora.

E isso exige tomada de consciência, postura ativa. Como afirmam os espíritos, o mal ainda predomina na terra por fraqueza dos bons, que se omitem. “Os maus são intrigantes e audaciosos, mas os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão”.[9

Bibliografia.

[1] Smith, Adam. A Riqueza das Nações. Coleção Os Economistas, Ed. Abril, São Paulo/SP.
[2]Allan Kardec começa O Livro dos Espíritos apresentando essa definição, que também está presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo no cap. I item 5.
[3] Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, cap. XXX. Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ.
[4] Kardec, Allan. Revista Espírita, fev de 1863, pág. 70. Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ.
[5] Citado por Lobo, Ney. Filosofia Social Espírita. Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ.
[6] Kardec, O Livro dos Espíritos, questões 742 a 744. Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ.
[7] Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 573. Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ.
[8] Denis, Léon. Socialismo e Espiritismo, cap. 2. Ed. CELD, São Paulo/SP.
[9] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 932. Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ.
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1 Comentário

05/12/2019 às 17:15
Bruno escreveu:
Espiritismo e boa parte do movimento espiritualista do seculo XIX é de esquerda. Basta estudar a história e conhecer alguns nomes como Leon Denis, Cora Scott e Paschal Randolph. O espiritismo brasileiro da FEB pouco tem a ver com Kardec e tem muito mais com JB Roustaign e CW Leadbeater da Sociedade Teosófica, esta ultima desde o seculo XIX sendo reconhecida mundialmente por fraudes, fraudes essa que Chico ajudou a perpetuar :)

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