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SE NÃO HOUVESSE O GOLPE DE 64, BRASIL HOJE SERIA UMA POTÊNCIA

publicada em 17 de abril de 2019
SE NÃO HOUVESSE O GOLPE DE 64, BRASIL HOJE SERIA UMA POTÊNCIA
Por Redação



“Se eles deixassem João Goulart governar, hoje o Brasil seria uma grande potência”



Osvaldo Maneschy e Apio Gomes


Jair Kirschke é referência internacional na luta pelos Direitos Humanos, especialmente no combate às ditaduras latino-americanas que se engajaram na Operação Condor, de eliminação de lideranças políticas da América do Sul.


O gaúcho Jair Kirschke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), acompanhou a trajetória política de João Goulart, primeiro, no Rio Grande do Sul, como deputado e secretário de Justiça e depois, no Rio de Janeiro, como ministro do Trabalho, até se tornar Presidente da República.

“Jango foi tão bom ministro de Getúlio Vargas, que fez com que os coronéis lançassem um manifesto, articulado pelo então coronel Golbery do Couto e Silva, como mais de 100 assinaturas, porque os militares não admitiam que Jango, no Ministério do Trabalho, defendesse trabalhadores”.


Outro momento pouco conhecido da juventude brasileira, na opinião de Kirschke, foi o movimento da Legalidade, liderado por Brizola, que garantiu a posse de João Goulart, vetada pelos militares. “Brizola foi pioneiro, criou, pelo rádio, a rede social que garantiu que o golpe não se completasse. Jango estava na China tentando vender produtos brasileiros que, anos depois, o mundo inteiro descobriu ser excelente negócio”.

Kirschke, ainda sobre a Legalidade, relembrou um fato que despertou sua atenção, na volta de Jango da China, na reunião, em Montevidéu, que resultou na aceitação do parlamentarismo como solução da crise, entre os integrantes do grupo de negociadores, liderado por Tancredo Neves, estava então coronel Ernesto Geisel.


“João Goulart pretendia, com as reformas de base, modernizar o Brasil. Era fiel discípulo de Getúlio Vargas, o grande estadista que mudou o perfil socioeconômico do Brasil, a quem devemos a grande mudança de o Brasil sair de país agropastoril para país industrializado. Mas Jango não parou aí, pretendia fazer avançar as reformas de base, dar maior dignidade ao povo brasileiro. Isto assustou a direita”.

Em seu depoimento, Kirschke lembrou ainda que, na reforma agrária de Jango, os beneficiados receberiam o título de propriedade de terra: “Nada mais capitalista do que isto”. Mesmo assim, isto assustou a direita, que derrubou Jango, acusando-o de ser comunista.

“Jango tentou fazer uma reforma inteligente e oportuna – das melhores –, que distribuía terras ao longo das rodovias e não colocando peões no interior do Brasil”. Com a reforma, acrescentou, Jango pretendia conquistar outro patamar para o povo brasileiro. “Mas as oligarquias viam defeitos em Jango (na verdade, as suas grandes qualidades). Jango sempre quis que o Brasil fosse independente, de fato e de direito”.

Em 1964, Kirschke entendia como equivocada a decisão de Jango de não resistir ao golpe – como Brizola queria. “Mas com o transcurso da História, acho que foi uma decisão sensata. Eles queriam dividir o Brasil em dois, tipo Coreia. Eu não tinha esta informação na época, mas Jango a tinha”.

No exílio, relata, Jango foi monitorado e perseguido, mesmo sendo o homem que evitou derramamento de sangue no Brasil. “Ele não foi respeitado”, assinalou. Destacou ainda, nesta entrevista, que Jango tinha um papel importante a desempenhar com a volta da democracia no Brasil e, por isto, a notícia de sua morte o encheu de tristeza.

“Jango era uma figura que esperávamos ver de novo na Presidência da República”. Temos uma dívida histórica com ele: em curto espaço de tempo, foi um grande presidente. Teve o melhor ministério que este país já teve, escolheu figuras extraordinárias para compor sua equipe. “Se eles deixassem Jango governar, hoje o Brasil seria uma grande potência”.

Jango se posicionava como igual com cada um de seus peões: gostava da vida no campo. “Ele fazia amigos em qualquer extrato social, era um homem simples, uma figura simples, um grande homem, portanto quando falo deste homem, falo de um homem bom, de temperamento afetivo e de visão clara do que interessava ao nosso país”.

No conceito deste mundialmente respeitado defensor dos Direitos Humanos – que, com família em São Borja, o conheceu bem –, os brasileiros precisam saber mais sobre a trajetória de João Goulart, porque “um dia tivemos a oportunidade de ser um país melhor, mas perdemos a chance”.
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