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Paulo Teixeira: “Dom Angélico, imprescindível”

publicada em 05 de maio de 2018
Paulo Teixeira: “Dom Angélico, imprescindível”
Em artigo, deputado federal Paulo Teixeira relembra histórias de Dom Angélico, que sempre esteve ao lado do povo e das causas sociais



Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula


Por Paulo Teixeira*

“Meu irmão, venha aqui, quero te dar um abraço de quebrar os ossos”. Uma coisa que não mudou nesses quase 40 anos foi a hospitalidade sempre acolhedora de Dom Angélico Sândalo Bernardino.

Conheci Dom Angélico em 1979, quando fui visitá-lo em sua casa, em São Miguel Paulista. Bispo auxiliar designado pelo então arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Angélico morava numa casa simples, cercada por roseiras, onde recebia todos com alegria e afeto. São Miguel, distrito da zona leste distante 30 quilômetros da Praça da Sé, era ainda uma região sem iluminação pública nem asfalto, com esgoto a céu aberto e poucas creches e escolas. Ali, no mesmo bairro onde me casei e criamos nossos seis filhos, Dom Angélico não deixava de aconselhar os cristãos com humor: “Quem não reza vira bicho”, dizia. “Quem não trabalha vira bicho preguiça”.

Para mim, sempre foi uma pessoa familiar. Antes mesmo de conhecê-lo, minha avó Yaya me falava dele enquanto me servia mingau de maizena em sua casa em Ribeirão Preto, cidade onde Dom Angélico cursou jornalismo e se ordenou padre. Falava da coragem do bispo de São Miguel, aquele que, um dia, deitou-se na linha do trem até a CBTU construir uma cancela para evitar as mortes que tinham se tornado corriqueiras. Vó Yaya temia pela vida de Dom Angélico por ter concelebrado a missa em memória de Alexandre Vannucchi Leme (1973), o ato ecumênico para Vladimir Herzog (1975) e a missa de Santo Dias da Silva (1979), todos vítimas da repressão durante a ditadura. “O povo unido jamais será vencido”, repetia Dom Angélico, membro da pastoral operária.


Após 14 anos no bairro, Dom Angélico tornou-se bispo na região da Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, e depois foi transferido para Blumenau, em Santa Catarina. Tanto em São Miguel quanto na Brasilândia, são muitas as marcas de sua passagem. Água encanada, ruas iluminadas, creches, escolas, postos de saúde, moradias construídas em sistema de mutirão, quase tudo que se vê em termos de serviços públicos e direitos foi conquistado pelo pessoal das CEBs, as Comunidades Eclesiais de Base, animadas por ele.

Dom Angélico sempre foi uma pessoa ampla. Era amigo de Mario Covas e, no final dos anos 1970, apoiou as greves no ABC que impulsionaram a liderança do Lula e o surgimento da CUT e do PT. Seu maior legado é a formação de cidadãos e cidadãs que, animados pela fé, lutaram bravamente pela conquista da democracia e ainda lutam, hoje, por direitos sociais no Brasil.

Dom Angélico amparou a mim e minha família quando perdemos nosso filho Pedro, em 2010. É sempre um ombro amigo de todos que o procuram em busca de uma palavra de consolo. Esteve ao lado de Lula ao longo desse longo período de perseguição política. Visitou Dona Marisa Letícia no leito de morte e, um ano depois, em março, celebrou missa em sua memória. No dia 7 de abril, quando Dona Marisa faria aniversário, foi ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e, aos 85 anos, conduziu uma celebração religiosa em memória da amiga e ex-primeira-dama.

Naquele mesmo dia, o ex-presidente Lula, com prisão decretada, fez um discurso histórico lembrando as mudanças que implementou no Brasil, razão maior da perseguição de que é vítima. Dom Angélico esteve a seu lado — e do lado certo da história —, cercado por operários, militantes dos movimentos de moradia, estudantes, intelectuais e todos os que novamente se prontificaram a defender a democracia no Brasil. Neste país, cada vez que a sociedade avança em direitos, a elite ataca a democracia. Foi assim com Getúlio Vargas, João Goulart, Juscelino, Lula e Dilma. É o que estamos vivendo desde o golpe de 2016.
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