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A campanha “anticorrupção” da Arábia e a desestabilização do Líbano

publicada em 03 de dezembro de 2017
A campanha “anticorrupção” da Arábia e a desestabilização do Líbano

Luiz Eça


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Da es­querda para a di­reita: Bin Salman (su­cessor), o prín­cipe Muqrin bin Ab­du­laziz Saud e Salman bin Ab­du­laziz Al Saud (o rei an­te­rior)

Numa única noite, mais de 200 prín­cipes, mi­nis­tros, po­lí­ticos e mag­natas sau­ditas, al­guns bi­li­o­ná­rios, foram presos, sem man­dado ju­di­cial. Foram, em se­guida, in­ter­nados no lu­xuoso Ritz-Carlton Hotel, em Riad, ca­pital da Arábia Sau­dita, re­ser­vado es­pe­ci­al­mente para “hos­pedar” essas no­bres fi­guras.

Os po­li­ciais obe­de­ciam or­dens do prín­cipe her­deiro Mohamed bin Salman (MbS), mi­nistro da De­fesa e emi­nência parda do rei Salman.

Se­gundo as fontes ofi­ciais, tra­tava-se do início de uma cam­panha contra a imensa cor­rupção, apon­tada como res­pon­sável pela re­cessão no país.

Mo­tivo muito con­tes­tado, con­si­de­rando que a cor­rupção é en­dê­mica na Arábia Sau­dita, cujos reis e prín­cipes cos­tumam servir-se dos bens pú­blicos como se fossem deles. Fa­ziam o que que­riam e de­pois cri­avam leis para le­ga­lizar suas ações ar­bi­trá­rias.

Mais pro­vável é que a razão de ser da cam­panha seja ga­rantir a su­cessão do rei Salman pelo prín­cipe Mohamed, ame­a­çada por dis­si­dentes de ou­tros ramos da fa­mília Saud, se­nhora do poder. Im­por­tantes prín­cipes es­tavam des­con­tentes com o ex­cesso de po­deres atri­buídos pelo rei a seu her­deiro nú­mero 1, en­quanto que eles ti­nham sido dei­xados de fora.

Como se viu pos­te­ri­or­mente, ob­je­tivos fi­nan­ceiros também es­tavam por trás das pri­sões.

Hoje, pas­sados mais de 20 dias das pri­sões em massa, já existem in­for­ma­ções con­cretas sobre suas cir­cuns­tân­cias.

Entre os quase 40 prín­cipes de­tidos, des­taca-se o prín­cipe Miteb, que, como mi­nistro da Guarda Na­ci­onal, co­man­dava uma força mi­litar for­mada por mem­bros de tribos leais à Casa de Saud, até o dia em que foi le­vado à força para o Ritz-Carlton.

Na su­cessão do rei Saud, o go­ver­nante an­te­rior, Miteb era visto como con­cor­rente de Salman, que acabou sendo o es­co­lhido pelo con­selho das fa­mí­lias reais.

Atu­al­mente, para parte dos prín­cipes, o prín­cipe Miteb – e não o her­deiro nú­mero 1, o prín­cipe Mo­ahmed – é quem de­veria ser o pró­ximo rei.

Sabe-se hoje que muitos dos presos como grandes cor­ruptos foram sub­me­tidos a vi­o­lentas tor­turas. In­clu­sive para in­formar os nú­meros de suas contas ban­cá­rias. Nada menos de 1.700 delas aca­baram con­ge­ladas. Nem os prín­cipes es­ca­param desse tipo de abuso.

Numa avant-pre­miére da cam­panha an­ti­cor­rupção, ini­ciada pu­bli­ca­mente na “noite das pri­sões em massa, foi preso, em se­tembro, o prín­cipe Abdul Aziz bin Fahd, filho de Fahd, um rei já fa­le­cido. Ele tinha che­gado há pouco do Haji (pe­re­gri­nação à ci­dade sa­grada de Meca) e não es­tava pro­pri­a­mente pre­pa­rado para en­carar uma prisão. Al­guns dias de­pois, foi le­vado a um hos­pital para ser tra­tado das con­sequên­cias do in­ter­ro­ga­tório a que fora sub­me­tido. Desde então, não se sabe mais dele.

Sabe-se com cer­teza (Middle East Eye, 17/11) que pelo menos seis prín­cipes pas­saram por tor­turas, sendo que, dentro das 24 horas se­guintes à sua prisão, também ne­ces­si­taram de cui­dados hos­pi­ta­lares. Um deles es­tava em con­di­ções tão pre­cá­rias que teve de ser ad­mi­tido à uni­dade de cui­dados in­ten­sivos do hos­pital a que fora re­co­lhido. Lá passou por um tra­ta­mento que só é apli­cado quando há ele­vado risco de vida, em casos de fa­lência de ór­gãos como co­ração, pulmão ou fí­gado.

A se­gu­rança do prín­cipe Mohamed in­formou ao pes­soal do hos­pital que as le­sões exis­tentes em cada caso eram pro­duto de ten­ta­tivas de sui­cídio.

Seis ten­ta­tivas de sui­cídio! Acre­dite se quiser. Todas as ví­timas do “in­ter­ro­ga­tório ci­en­tí­fico” apre­sen­tavam ves­tí­gios con­sis­tentes com marcas de botas mi­li­tares.

Todas foram bru­tal­mente es­pan­cadas, mas ne­nhuma so­freu fra­turas. Os in­ter­ro­ga­dores foram bem trei­nados para as evi­tarem, para que não fique por de­mais evi­dente o tipo de tra­ta­mento com que ha­viam sido mi­mo­se­ados os alvos da cam­panha an­ti­cor­rupção.

Quanto aos mag­natas presos, pelo menos 17 deles ti­veram também de passar por cui­dados em hos­pital de­vido a tor­turas. No en­tanto, acre­dita-se que esse nú­mero seja muito maior. O Middle East Eye diz que suas fontes não pu­deram ofe­recer dados com­pletos por re­ceios quanto à sua se­gu­rança.

O prín­cipe Mohamed re­velou-se atento a pos­sí­veis re­per­cus­sões das con­sequên­cias dos in­ter­ro­ga­tó­rios do ex­purgo. Elas já cau­saram efeito ne­ga­tivo na Eu­ropa, po­deria ser pior se novos casos de le­sões fossem re­por­tados pela im­prensa in­ter­na­ci­onal.

A hábil so­lução foi ins­talar uni­dades mé­dicas no pró­prio hotel Ritz-Carlson, onde prín­cipes, mi­nis­tros e bi­li­o­ná­rios tor­tu­rados podem ser tra­tados, sem pre­ci­sarem di­rigir-se a um hos­pital. Fora, por­tanto, dos olhos in­dis­cretos dos jor­na­listas es­tran­geiros.

No en­tanto, de acordo com fontes dos EUA, MbS (ape­lido do prín­cipe her­deiro) deixou es­capar inad­ver­ti­da­mente que pre­tende ar­re­cadar 1 tri­lhão de dó­lares dos ci­da­dãos presos.

Como?

Com um mé­todo que ele deve ter apren­dido com o chefe de se­gu­rança no go­verno Mu­barak, ex-di­tador do Egito, atu­al­mente hós­pede da re­a­leza sau­dita. Ci­dadão co­nhe­cido por mé­todos que até Trump re­pro­varia.

Re­porta o Fi­nan­cial Times um ne­gócio que as au­to­ri­dades sau­ditas ofe­recem às ví­timas, in­cluindo al­guns mag­natas bi­li­o­ná­rios: po­derão ser soltos, li­vrando-se de pro­vá­veis tor­turas e de anos prisão, em troca da cessão aos co­fres reais de 70% do valor de suas ri­quezas.

Por mais que Mohamed exa­gere no total que es­pera ga­nhar com esses ne­gó­cios das ará­bias, eles devem render, no mí­nimo, al­gumas cen­tenas de bi­lhões de dó­lares. Di­nheiro mais do que su­fi­ci­ente para o país sair do dé­ficit, que no ano pas­sado atingiu 79 bi­lhões de dó­lares (The Guar­dian, 17-11). So­brarão muitos dó­lares para que Salman e filho con­ti­nuem im­por­tando enormes quan­ti­dades de bomba e armas, ne­ces­sá­rias à Guerra do Iêmen e a even­tuais cho­ques contra o ini­migo Irã.

Lembre-se ainda que é graças a estas ex­ta­si­antes com­pras de ar­ma­mentos que a Arábia Sau­dita atrai a ami­zade dos EUA, França e Reino Unido.

Arábia Sau­dita tenta de­ses­ta­bi­lizar o Lí­bano


Ha­riri e o rei da Arábia

Quando, em 3 de no­vembro, Saad Ha­riri, pri­meiro-mi­nistro do Lí­bano, em­barcou no voo que o le­varia à Arábia Sau­dita, es­tava tran­quilo e sa­tis­feito.

Ainda no ae­ro­porto, da par­tida, ele tinha mar­cado um en­contro com seus as­ses­sores para daí a três dias, quando es­pe­rava voltar. Muito ani­mado, Ha­riri contou que, na sua vi­sita an­te­rior à Arábia Sau­dita, o prín­cipe her­deiro, Mohamed bin Salman, havia feito “de­cla­ra­ções en­co­ra­ja­doras”, in­clu­sive pro­me­tendo re­vogar a sus­pensão de um pa­cote de armas do go­verno de Riad para o exér­cito li­banês

O prín­cipe MbS é o mi­nistro da De­fesa sau­dita e também quem co­manda a po­lí­tica ex­terna do país. Mais do que isso: é tido como a voz que fala atrás do trono do seu pai, o rei Salman.

Aliado pró­ximo do Irã, o Hiz­bollah, como par­tido, in­tegra o go­verno li­banês; como mi­lícia, luta na Síria em de­fesa do go­verno Assad.

Irã e Arábia Sau­dita dis­putam fe­roz­mente a he­ge­monia no Ori­ente Médio. Estão em campos opostos nas guerras da Síria e do Iêmen.

Uma vi­agem obs­cura

Na reu­nião com o prín­cipe, a que Saad Ha­riri se re­fe­rira, ele tinha ex­pli­cado a MbS (Ape­lido de Mohamed) que não bri­gava com o Hiz­bollah. Para Ha­riri, os sau­ditas ti­nham acei­tado sua po­sição.

Con­forme fonte da Reu­ters, um dos as­ses­sores que acom­pa­nhavam Ha­riri, o pri­meiro-mi­nistro es­taria sendo muito oti­mista. Ha­riri ten­tara con­vencer o prín­cipe de que um en­ten­di­mento com o Hiz­bollah era ne­ces­sário, pois uma con­fron­tação de­ses­ta­bi­li­zaria o Lí­bano. Mas, disse o as­sessor: “eu acho que eles não gos­taram do que ou­viram”.

E os as­ses­sores se­guiram in­for­mando à Reu­ters. Logo que chegou a Riad, Ha­riri sentiu que havia algo de es­tranho. Ne­nhum prín­cipe ou mi­nistro o es­pe­rava, como era cos­tume, so­mente se­gu­ranças que lhe con­fis­caram seu ce­lular e o le­varam a um hotel, onde de­veria es­perar ser cha­mado por MbS.

No dia se­guinte, Ha­riri re­cebeu o texto de uma de­cla­ração que de­veria fazer na TV local. Obe­di­ente, ele fez o que lhe foi or­de­nado.

Foi quando es­tourou a bomba: Ha­riri de­mitia-se do seu cargo e vi­a­jara a Riad para evitar ser as­sas­si­nado, num complô que es­tava em curso. Também afirmou que o Irã e o Hiz­bollah pre­ten­diam de­ses­ta­bi­lizar o Lí­bano, le­vando ”dis­córdia, de­vas­tação e des­truição”.

Logo os des­men­tidos cho­veram. O exér­cito li­banês afirmou que não havia sus­peita de qual­quer cons­pi­ração contra Ha­riri. O pre­si­dente do Lí­bano pediu a volta do pri­meiro-mi­nistro a Bei­rute. A em­bai­xa­dores es­tran­geiros, as­se­gurou que os sau­ditas es­tavam res­trin­gindo os mo­vi­mentos de Ha­riri, ele es­taria preso.

Com apoio de todos os par­tidos, in­clu­sive o Hiz­bollah, ma­ni­fes­tantes saíram às ruas do Lí­bano, exi­gindo a li­ber­tação de Ha­riri e sua ime­diata volta ao país e a seu cargo de pri­meiro-mi­nistro. En­quanto isso, o mi­nistro do Ex­te­rior francês dizia “es­perar que Ha­riri ti­vesse li­ber­dade de mo­vi­mentos para fazer suas pró­prias es­co­lhas”. Rex Til­lerson, se­cre­tário de Es­tado dos EUA, e Fe­de­rica Meghe­rini, chefe da po­lí­tica ex­terna da União Eu­ro­peia, ma­ni­fes­tavam-se no mesmo sen­tido.

Até en­fa­ti­ca­mente. No dia 8, em en­tre­vista ao canal de TV de sua pro­pri­e­dade, Ha­riri ga­rantiu que tinha li­ber­dade para ir onde qui­sesse. Re­petiu as acu­sa­ções an­te­ri­ores, acres­cen­tando que, caso o Irã e o Hiz­bollah pa­rassem de in­tervir na Síria e no Iêmen (prin­ci­pal­mente) e mu­dassem de ati­tude no Lí­bano, ele vol­taria ao país e re­nun­ci­aria à sua re­núncia.

Caso con­trário, ad­vertiu, ha­veria san­ções sau­ditas, como a ex­pulsão dos 400 mil li­ba­neses que tra­ba­lhavam no país de MbS, ar­rui­nando a vida de suas fa­mí­lias. Outra das san­ções pro­vá­veis seria o corte das tran­sa­ções do Lí­bano com todos os países do Golfo Ará­bico (Reu­ters, 11/11), ou seja, além da Arábia Sau­dita, seus li­de­rados, Emi­rados, Omã, Bah­rein e Kuwait.

Esses avisos podem ser in­ter­pre­tados como uma ver­da­deira chan­tagem. Ha­riri que, por sinal, é aliado aos sau­ditas há muitos anos, foi cúm­plice. Afinal, ele vei­culou ame­aças para as­sustar o povo e o go­verno do Lí­bano, pres­si­o­nando-os a acei­tarem o diktat da Arábia Sau­dita.

Por en­quanto, não deu certo. As ma­ni­fes­ta­ções po­pu­lares exi­gindo a volta de Ha­riri e con­de­nando sua re­tenção pela Arábia Sau­dita au­men­taram em nú­mero de par­ti­ci­pantes e agres­si­vi­dade. O go­verno do pre­si­dente Mauon, cristão e aliado do Hiz­bollah, subiu o tom, ao afirmar que a Arábia Sau­dita es­tava de­tendo Ha­riri e sua fa­mília contra a sua von­tade, o que con­si­de­rava uma agressão ao Lí­bano:

“Uma vi­o­lação do acordo de Viena e dos di­reitos hu­manos”. Ele acres­centou, com muita pro­pri­e­dade: “nada jus­ti­fica Ha­riri não re­tornar du­rante 12 dias (Reu­ters, 15-11)”.

Para Rayan al Amine, pro­fessor da Ame­rican Uni­ver­sity, de Bei­rute (Reu­ters, 15/11), “é óbvio para qual­quer um – in­clu­sive o Mo­vi­mento do Fu­turo, par­tido de Ha­riri - que ele foi for­çado a se de­mitir. Desde o co­meço, a mai­oria dos li­ba­neses, in­clu­sive o Hiz­bollah, viu a re­núncia como um ataque à dig­ni­dade de Ha­riri e à so­be­rania do país e exigia a volta do pri­meiro-mi­nistro. Por sua vez, Mo­vi­mento do Fu­turo sente-se traído pelas tá­ticas da Arábia Sau­dita, que pa­re­ciam in­dicar ser o Lí­bano dis­pen­sável.

A re­núncia à força de Ha­riri con­se­guiu unir um país que ra­ra­mente se une.
Ibrahim Awad, con­cei­tuado jor­na­lista li­banês, du­vida das ex­pli­ca­ções te­le­visas do pri­meiro-mi­nistro li­banês. Lem­brando re­cen­tís­sima reu­nião de Ha­riri com um ex-mi­nistro do Ex­te­rior do Irã, li­gado es­trei­ta­mente ao Su­premo Líder Kha­menei, ele pon­dera: “você não pode en­con­trar um líder ira­niano e no dia se­guinte exigir o corte das mãos do Irã no Lí­bano (Al Ja­zeera, 11/11)”.

As­ses­sores de Ha­riri vão mais longe. Afirmam que os sau­ditas for­çaram a re­núncia do pri­meiro-mi­nistro porque ele se re­ve­lara in­capaz de en­frentar o Hiz­bollah. Sua subs­ti­tuição por Bahaa, irmão mais velho de Ha­riri, seria de­sejo do reino de Riad.

Os in­te­resses em jogo

É de se crer que a Arábia Sau­dita dis­ponha de ar­gu­mentos fortes para forçar Ha­riri a essa mu­dança de 180 graus nas suas po­si­ções po­lí­ticas.

MbS deve lhe ter co­mu­ni­cado que seu país tinha de­ci­dido ra­di­ca­lizar a luta contra o Irã, ata­cando as ações ex­ternas de Teerã.

Forçar o rom­pi­mento do Lí­bano com os ira­ni­anos e seu aliado, o Hiz­bollah, seria uma ação im­por­tante da es­tra­tégia sau­dita.

Caso Ha­riri não to­passe en­trar nessa pa­rada, teria contra si um aliado de muitos anos, forte o su­fi­ci­ente para li­quidá-lo po­li­ti­ca­mente.

Mais do que isso, bem mais, o go­verno sau­dita po­deria li­quidar sua for­tuna. Todos os vastos in­te­resses econô­micos dos mul­ti­bi­li­o­ná­rios Ha­riri e fa­mília estão em ter­ri­tório sau­dita. Não é à toa, ele tem dupla na­ci­o­na­li­dade, li­ba­nesa e sau­dita, e re­si­dência também em Riad, onde sua fa­mília vive.

Seu pai cons­truiu toda a for­tuna dos Ha­riris ope­rando no setor de cons­tru­ções, através de sua com­pa­nhia, a Saudi Oger. Ele com­prou enormes áreas na Arábia Sau­dita, nas quais re­a­lizou inú­meros em­pre­en­di­mentos imo­bi­liá­rios, aju­dando a de­sen­volver ci­dades no de­serto sau­dita. A Saudi Oger tornou-se uma das mai­ores em­presas do país no setor de cons­tru­ções e imó­veis.

Com a morte do pai em 2005, Ha­riri tornou-se o CEO do grupo. Neste ano, 2005, sua for­tuna era cal­cu­lada em 4,1 bi­lhões de dó­lares.

Nos anos mais re­centes, o sú­bito de­clínio do reino cau­sado pela queda do preço do pe­tróleo, as­so­ciada à de­núncia de cor­rupção, re­duziu a ri­queza da fa­mília e do pró­prio Ha­riri. De acordo com a pu­bli­cação da Forbes, a Lista dos Mai­ores Bi­li­o­ná­rios do Mundo (em de­zembro de 2016), o pri­meiro-mi­nistro li­banês clas­si­ficou-se em 12º lugar, tendo sua for­tuna caído para “apenas” 1,3 bi­lhão de dó­lares.

As coisas con­ti­nuam indo muito mal na Oger. Mi­lhares de fun­ci­o­ná­rios re­clamam da falta de pa­ga­mento dos sa­lá­rios, a baixa nos preços do pe­tróleo levou o reino a can­celar nu­me­rosos con­tratos de cons­tru­ções que dei­xaram a Oger a pe­rigo.

Pro­va­vel­mente, a menção dessa ame­a­ça­dora si­tu­ação pelo prín­cipe deve ter dei­xado Ha­riri sem fala. Ainda mais porque o reino de­cidiu con­tratar a Pri­cewa­terhouse para fazer uma re­visão dos mai­ores pro­jetos da Saudi Oger, com o ob­je­tivo de de­finir os custos que Riad deve pagar.

Como o país é uma di­ta­dura, onde a lei é a von­tade dos so­be­ranos, não é de se du­vidar que os nú­meros assim de­fi­nidos po­derão ser al­te­rados con­forme o rei e seu oni­po­tente her­deiro de­ci­direm.

Ima­gina-se que di­ante desse quadro ater­ro­ri­zante Ha­riri não deve ter me­di­tado muito antes de vender sua alma ao diabo.

O que acon­te­cerá agora?

Pro­va­vel­mente, Ha­riri aca­bará vol­tando a Bei­rute, onde deve en­tregar seu pe­dido de re­núncia ao pre­si­dente Maoun, que o acei­tará. O subs­ti­tuto di­fi­cil­mente será Bahaa, o irmão amigo de MbS.

Não se sabe se o Mo­vi­mento do Fu­turo, o par­tido de Ha­riri, acei­tará con­ti­nuar na co­a­lizão que go­verna o Lí­bano ou se pas­sará à opo­sição. Nesse caso, não pa­rece haver muita chance de ele en­campar a exi­gência da Arábia Sau­dita de rom­pi­mento com o Hiz­bollah e o Irã. Além de não dispor de par­la­men­tares su­fi­ci­ente para se con­trapor aos xi­itas do Hiz­bollah e aos cris­tãos do par­tido de Maoun, não se vê clima para isso. O povo está en­fu­re­cido com as ar­bi­tra­ri­e­dades sau­ditas e quem os apoiar po­derá ser visto como um traidor.

Quanto à Arábia Sau­dita, acre­dita-se que seu ob­je­tivo no af­fair Ha­riri seria mesmo forçar os li­ba­neses a jo­garem a culpa no Hiz­bollah, como res­pon­sável pelos pro­blemas que o even­tual rom­pi­mento com os sau­ditas traria a todos.

Caso nada aba­lasse a po­sição do go­verno de Bei­rute, o prín­cipe Mohamed teria um plano B: trans­formar as ame­aças em re­a­li­dade, ex­pul­sando do país os 400 mil li­ba­neses que ali re­sidem e cor­tando os laços econô­micos com os países do Golfo Ará­bico.

Se isso acon­tecer, o Lí­bano fi­cará numa si­tu­ação que só se de­seja a ini­migos muito odi­ados.

A volta dos 400 mil a um país de apenas 4,5 mi­lhões de ha­bi­tantes cri­aria uma ver­da­deira crise so­cial.

As re­messas de di­nheiro desse pes­soal para seu país, que chegam a 8 bi­lhões de dó­lares anuais, cerca de 15% do PIB na­ci­onal, são es­sen­ciais para manter a eco­nomia li­ba­nesa fun­ci­o­nando.

Quanto às vendas para a Arábia Sau­dita e aos Emi­rados do Golfo, elas re­pre­sentam 20% do total ex­por­tado. Seu corte igual­mente terá pro­blemas para o Lí­bano.

Bra­vatas?

São evi­den­te­mente mo­tivos muito fortes de pre­o­cu­pação. No en­tanto, as pers­pec­tivas de que o prín­cipe, her­deiro e voz por atrás do trono de Riad chegue a me­didas tão ex­tremas não pa­recem das mai­ores.

É ver­dade que ele não deve levar em conta a po­sição ra­dical do povo li­banês contra a in­ter­venção sau­dita. Afinal, trata-se de um au­to­crata dos mais rí­gidos, para quem vi­olar so­be­ra­nias de ou­tros países, des­res­peitar di­reitos hu­manos, mas­sa­crar po­pu­la­ções civis em guerras in­justas e usar a fome e as do­enças como armas (vide bom­bar­deios do Iêmen) são ações ab­so­lu­ta­mente nor­mais e vá­lidas.

No en­tanto, a co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal, es­pe­ci­al­mente a União Eu­ro­peia, a França, a Rússia e mesmo os EUA, que já se ma­ni­fes­taram em de­fesa do Lí­bano, não iriam deixar passar ba­tido.

Claro, irão agir “com jeito”, já que apesar de in­flu­en­ci­ados pelo poder de com­pras do reino sau­dita também de­pendem do povo, pois são de­mo­cra­cias. E a causa li­ba­nesa, que já é po­pular em quase todo o mundo, fi­cará ainda mais se o be­li­coso Mohamed bin Salman re­solver aprontar ainda mais.

Convém não ig­norar po­si­ções, um tanto es­pe­ciais, de certos es­ta­distas do Oci­dente.

Re­cen­te­mente, o pre­si­dente Do­nald Trump, re­fe­rindo-se ao ex­purgo sau­dita, tuitou: “tenho grande con­fi­ança no rei Salman e no prín­cipe her­deiro da Arábia Sau­dita, eles sabem exa­ta­mente o que estão fa­zendo (New York Times, 14-11)”.

No en­tanto, se­gundo alta au­to­ri­dade do de­par­ta­mento de Es­tado, ci­tada pelo New York Times: “os di­plo­matas norte-ame­ri­canos, o Pen­tá­gono e a CIA todos sentem com ‘alarme cres­cente’ que o prín­cipe Mohamed ‘está agindo ir­res­pon­sa­vel­mente, sem con­si­derar as pro­vá­veis con­sequên­cias, que tem po­ten­cial para pre­ju­dicar os in­te­resses dos EUA’”.

Não fa­laram nas “vi­o­la­ções dos di­reitos hu­manos”, mas seria exigir de­mais destas três no­bres ins­ti­tui­ções norte-ame­ri­canas.
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