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‘O MBL quer agora decidir o que podemos ver’, critica curador da exposição Queermuseu

publicada em 11 de setembro de 2017
‘O MBL quer agora decidir o que podemos ver’, critica curador da exposição Queermuseu






Obra de Adriana Varejão foi uma das que foi alvo de críticas nas redes sociais | Foto: Reprodução
Luís Eduardo Gomes

Um precedente gravíssimo e perigoso, é assim que Gaudêncio Fidélis define a decisão do Santander Cultural de encerrar antecipadamente neste domingo (10) a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, da qual ele era curador e que tem como temática a diversidade de expressão de gênero, após forte pressão nas redes sociais, capitaneada pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Iniciados na última quarta-feira (6), os ataques denunciavam, principalmente, que algumas obras da exposição faziam apologia a zoofilia e pedofilia, além de a mostra ter conteúdo pornográfico e ofensivo aos “valores cristãos”. Diante da pressão, o banco decidiu acabar com a exposição, o que gerou grande repercussão negativa, especialmente entre a classe artística, revoltada com o que está sendo considerado como censura à arte e à diversidade. Entre as obras dos mais de 85 artistas, nacionais e internacionais, presentes na exposição, destacavam-se trabalhos de Cândido Portinari, Alfredo Volpi, Lygia Clark, Adriana Varejão, Leonilson, entre outros.

Gaudêncio explica que a exposição foi aberta ao público no dia 15 de agosto e que os ataques presenciais iniciaram somente na última quarta-feira, continuando até sábado (9). “Desde quarta-feira passada, houve um ingresso de membros do MBL – não estou falando isso para ser sensacionalista, foi efetivamente o que aconteceu – na exposição, com câmeras em punho, agredindo verbalmente as pessoas, fazendo perguntas, muitas das quais eu me sinto constrangido em repetir, para adolescentes, crianças, para o público em geral, escolas, profissionais, de uma forma absolutamente agressiva e transformando em imagens, que circulam em vídeos editados em grande volume. Esses ataques sistemáticos não pararam desde então”, diz, salientando que também foi alvo em suas redes pessoais.

Muitos dos ataques partiram da página oficial do MBL, que promoveu uma campanha de boicote ao banco, mas acabaram se espalhando por outros movimentos e grupos presentes nas redes sociais. Além disso, os ataques ganharam adeptos entre políticos locais, como o deputado estadual Marcel Van Hattem (PP) e o secretário municipal de Serviços Urbanos, Ramiro Rosário (PSDB), eleito vereador em 2016 com apoio do movimento.



No domingo, o Santander, por meio de sua página nacional oficial, emitiu uma nota informando que a exposição seria encerrada neste domingo e pedindo desculpas a todas as pessoas que se sentiram ofendidas por alguma obra da mostra. “Ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, diz a nota.

Gaudêncio diz que não foi consultado e que a decisão foi unilateral do banco. “Fiquei sabendo da decisão por uma mensagem de Whatsapp de um colega minutos depois que a nota foi publicada”, disse.

O curador lamentou a decisão, dizendo que ela, por um lado, é contraditória, uma vez que representantes do Santander estiveram junto com ele na coletiva de imprensa do lançamento da Queermuseu, momento em que salientaram o apoio da instituição a uma política de diversidade e que esta começaria desde a Espanha, sede do banco, onde uma exposição com a mesma temática fora realizada e celebrada.

“Por outro lado, representa de fato um momento muito perigoso, trágico e com consequências gravíssimas para história da produção artística brasileira e para a liberdade de expressão, porque nós estamos em 2017, em pleno século 21, e temos agora, nas nossas mãos, uma exposição fechada como resultado da criação de uma narrativa falsa que o MBL empregou exaustivamente nesses dias”, diz Gaudêncio, acrescentando que a decisão aponta para um “futuro ainda mais obscuro”. “Isso com certeza vai resultar no fato de que, daqui para frente, esses grupos de extrema-direita, extremamente reacionários, com ideologias obscuras, que são assustadoras francamente para o período da vida democrática que a gente vive, vão achar que podem decidir o que é que nós vamos ver, o que nós vamos ouvir, que espetáculo nós vamos assistir, o que pode ser publicado. Isso ficou muito claro no processo”.

O curador saudou o que chamou de enorme reação da comunidade artística, dos intelectuais, de acadêmicos, contrários à “atitude autoritária” do MBL e também contra a atitude que classificou como “intempestiva” do Santander de fechar a exposição. Para Gaudêncio, não há precedentes históricos de uma exposição fechada no Brasil por uma situação parecida, nem mesmo durante o período da ditadura militar, e, além disso, abre precedentes para novos atos de censura à produção artística ou até de casos de censura prévia, uma vez que espaços podem se fechar para obras que possam ser consideradas ofensivas por determinada parcela da população.

“É um momento de muita gravidade, não estou falando como retórica, é uma questão concreta para nós. Tivemos uma exposição com 263 obras, de 85 artistas da mais alta relevância da produção artística brasileira, que foi fechada em 3 dias e meio de ataques sistemáticos do MBL, porque eles decidiram o que nós podemos e não podemos ver, com base em princípios moralistas que eles proclamam. Com base também numa narrativa absolutamente falsa que eles criaram da exposição, que não corresponde à realidade da exposição. E agora, a gente tem outro problema muito grave. Eu, que estou explicando o que a exposição é e prestando um esclarecimento ao público, sequer posso dizer que as pessoas devem ir lá e conferir a exposição, porque a exposição está fechada”, diz Gaudêncio.

Em respostas às críticas, ele frisa a questão da narrativa falsa criada na internet, negando que alguma das obras fizesse apologia a pedofilia e zoofilia, como apontado nas redes sociais. “Como a exposição iria fazer apologia à zoofilia? Baseado em quê? Acusação de pedofilia é baseada em duas pinturas da obra da Bia Leite, que é feita para celebrar a comunidade LGBT de uma maneira positiva e, ao mesmo tempo, alertar contra o bullying e contra a discriminação da expressão e da identidade de gênero. Como alguém pode imaginar que isso é pedofilia? Então, o problema que nós levantamos é dos mais complexos que você pode imaginar, a criação de uma narrativa falsa para quem não viu a exposição. Aí, como é que nós lidamos com o problema se a exposição está fechada? E, tem outra coisa, que imagens são essas que circulam pela internet editadas e descontextualizadas, deslocadas totalmente da intenção original da obra dos artistas”, diz.

Gaudêncio ainda pontua que, desde que os ataques à exposição começaram, o público da mostra aumentou e muitas pessoas, levadas pela repercussão, o questionaram sobre as obras, mas sequer conseguiriam identificar qual delas poderia ter motivado a polêmica. “Muitas pessoas que nos abordavam e o pessoal da equipe do educativo nos diziam assim: ‘vocês podem nos explicar onde estão essas obras que eles estão dizendo que são pornográficas, que têm pedofilia?’ Porque as pessoas não encontravam na exposição. É uma coisa indescritível”.

Outro dos alvos das campanhas contra a exposição promovida pelas redes sociais é o fato de ela ter sido financiada com recursos públicos. Sobre a questão, Gaudêncio rebate afirmando que não é papel de leis de incentivo à cultura julgar o mérito da arte. “A Lei Rouanet não foi criada, nem os mecanismos dela, para decidir o que nós podemos e não podemos ver. Quando os projetos são aprovados pela Lei Rouanet, não são avaliados se são bons ou ruins, se podem ou não acontecer do ponto de vista do mérito artístico e cultural, mas do ponto de vista técnico”, diz.

Em nota assinada pelo seu presidente Marco Aurélio Alves, o Conselho Estadual de Cultura condenou o que chamou de “inaceitável censura”, lembrando qeu a Constituição do RS garante o direito às diversas formas de manifestação artística, independente de a quais grupos étnicos pertençam. “Lamentamos que tantos anos dedicados na separação dos direitos e deveres do Estado em relação à igreja e às ideologias sejam ignorados. Lamentamos constatar a apunhalada objetiva desferida contra a humanidade e o empobrecimento simbólico que este horror provocará”.

O Conselho defende ainda que a arte não pode ser cerceada, limitada ou censurada, e que restrições a obras asseguram ao público descontente “o direito de abster-se de ir ao local de visitação, assim como acontece com qualquer outra manifestação de livre acesso”. “O resultado destas manifestações, de indisfarçável intransigência e censura para com a referida exposição, evidencia a intolerância com o contraditório, o diferente, o novo”.

Para esta terça-feira (12), está sendo convocada uma manifestação em favor da exposição chamada de “Ato pela Liberdade de Expressão Artística e Contra a LGBTTFobia” para às 15h30, na Rua 7 de setembro, nas proximidades do Santander Cultural. O evento está sendo promovido por entidades em defesa de direitos da comunidade LGBTT e páginas como Porto Alegre Sem Preconceito, Nuances, Somos, Igualdade, Juntos, entre outros.


Envolvimento da Prefeitura

A página oficial do prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB) chegou a republicar a nota do Santander Brasil e a comentar que a exposição trazia imagens de pedofilia e zoofilia, mas a postagem foi apagada horas depois. Marchezan é notoriamente apoiado pelo MBL e emprega em sua gestão diversas pessoas ligadas ao movimento, incluindo o secretário Ramiro Rosário. A coordenadora do MBL na Capital, Paula Cassol, teve um cargo de confiança em sua gestão, no gabinete de Rosário.

Na manhã desta segunda-feira, em conversa por telefone, o secretário municipal de Cultura, Luciano Alabarse, disse que conversou com o prefeito Marchezan e que este lhe informou que não fora ele quem fizera a postagem sobre o tema, mas sim um assessor que tem acesso ao seu perfil nas redes sociais. “O que eu te digo com segurança é que não foi o prefeito pessoalmente que postou essas notas sobre o fechamento da exposição e, assim que ele viu, ele retirou. Aí sim, quem retirou pessoalmente do site foi ele”, diz Alabarse. Na conversa, Marchezan assegurou ao secretário que é contra a censura. “Não me disse mais nada e não quer se envolver mais do que o necessário porque não é uma atividade da Prefeitura”.

Coordenador-geral do Porto Alegre em Cena, um dos principais eventos de dramaturgia da cidade, por muitos anos, Alabarse diz que sempre foi contra a censura e que não mudou “uma vírgula” de seu pensamento. “A liberdade de expressão, em especial no terreno da arte, é fundamental e é preciso defender com muita ênfase essa liberdade de expressão. Foi para isso que a minha geração lutou contra a ditadura, contra interesses de todas as ordens, ainda mais numa questão de arte. Essa é a minha posição oficial sobre o assunto”, diz.

Alabarse afirma que esteve na exposição – garante que Marchezan não a visitou – e que conhece e tem um grande respeito pelo curador Gaudêncio. Ele salienta que um dos objetivos da arte contemporânea é justamente provocar questionamentos e ser controversa. “Ficou no século XIX a ideia do belo em relação à arte. A arte tem o seu parâmetro transgressor e há muitas linguagens que vão nessa direção. Nesse sentido, qualquer obra de arte pode ser questionada, discutida, polemizada, não só uma obra de arte, mas um evento de arte. Entre polemizar, debater, criticar, às vezes criticar com veemência, tudo isso acho que faz parte dessa relação da arte contemporânea com o público, com especialistas e o público em geral. A arte pode incomodar”, diz. “A arte é para ser questionada, discutida, avalizada ou criticada, jamais para ser censurada”, complementa.

A reportagem entrou em contato com Paula Cassol na manhã desta segunda-feira e, a pedido dela, enviou uma série de questões por e-mail a respeito da posição do movimento sobre a exposição e sobre a questão da censura. No entanto, até o fechamento da matéria, não havia recebido resposta.
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Sul 21

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