Quinta-feira, 19 de outubro de 2017.

POETAS DE UM MUNDO CADUCO. Christopher Goulart

publicada em 09 de junho de 2017

POETAS DE UM MUNDO CADUCO

* Christopher Goulart


             Quando o poeta Carlos Drummond de Andrade publicou o poema “Mãos dadas”, em 1940, creio eu que ele não poderia imaginar o quanto gradativamente nossa sociedade se torna contraditória. Hoje o mundo caduco apresentado pela própria realidade sócio-política brasileira, exemplificada de diversas formas no nosso cotidiano, veste a embalagem corruptiva da deslealdade e da traição da verdadeira causa pública. O objetivo desta alteração drástica de valores é a punição de gente que só pensa em dinheiro para se locupletar e manter-se a qualquer custo dentro do sistema falido, independente de honra pessoal.
A diretriz da nova ética, a que promete o paraíso em troca de poder e ganância ilimitada, é consentida por uma grande maioria de pessoas que individualmente recebem essa ordem do mercado via televisão. Aqui, agora, é cada um por si e salvem-se quem puder, pois o último gesto a ser percebido é justamente o caminhar de mãos dadas, do poeta que vivia num mundo caduco. “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”, seria a mais nobre mensagem a ser repassada por estes dias turbulentos. A tentativa de pacificar a acirrar ódios sempre é mais eficiente do que o destrutivo modelo de divisão.
Os vermelhos de um lado e os verde-amarelo do outro, forcejando em direções opostas da desejada pacificação, prestam um desserviço à nação brasileira. Tenho enorme dificuldade em compreender como a corrupção pode ora afetar apenas a uma parte da população, ora afeta apenas à outra, quando todo e qualquer forma de desvio de recurso público criminoso atinge frontalmente a todos nós em conjunto. Não por acaso, Saint-Exupéry escreveu: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.
Para combater a cegueira sugiro remediar com a idéia de mobilização popular em nome da volta da legitimidade dos nossos representantes. Quem confia neste Congresso Nacional? No Presidente da República? Nos excessos de autoritarismos de instituições que flertam com o Estado de Exceção? No desrespeito às regras elementares de um Estado Democrático de Direito, com a intenção de atender a uma sociedade consumista, sedenta por espetáculo televisivo? Mergulhados num mar infinito de degeneração, não há formas de um povo revigorar ao sol a sua autoconfiança.
O momento clama para permanecermos firmes, de olhos atentos aos nossos companheiros, que nem estão tão taciturnos, mas certamente nutrem grandes esperanças. Obrigado poeta, por ensinar a lição de unidade, de andar de mãos dadas. Entre tanto sofrimento e incompreensão, devemos assumir o compromisso perante a tua obra imortal e bradar em alto e bom som que, seguindo o teu exemplo, “não seremos poetas de um mundo caduco”.


*Christopher Goulart
Advogado primeiro suplente de Senador PDT-RS

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Christopher Goulart , Correio do Povo

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