Terça-feira, 23 de julho de 2019.

As delações como uma oportunidade histórica.

publicada em 05 de maio de 2017

As delações como uma oportunidade histórica
Aylê-Salassié F. Quintão*

Pesquisadores acadêmicos, a Justiça e a própria sociedade precisam tirar proveito “desse tempo de confissões inconfessáveis” (Cunha, 2017) para uma reavaliação profunda da realidade brasileira e a projeção de um futuro com mais objetividade. É um momento de aprendizado. Não vai salvar a Pátria, mas, segundo o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Força Tarefa da Operação Lava Jato, as revelações dos 150 delatores desenterram estruturas viciadas que emperram o desenvolvimento, obstruem os pensamentos e a brasilidade, a ponto de se queimar bandeiras brasileiras em praça pública.

Há quem insista em ver na delação uma “deduragem”, traição mesmo. A referência está na militância revolucionária dos anos 60/70 nos quais, presos e torturados, terminaram por comprometer colegas. O tema chegou a desaparecer da mídia. A Comissão da Verdade restabeleceu, entretanto, a figura do delator, levantando o véu das impunidades e das violências contra os camaradas. Com isso, a delação ganhou foro jurídico, privilégios penais, e também temperos de espertezas: redução de penas, indenizações e visibilidade na televisão. A Lava Jato expôs, entretanto, o cinismo dos delatores à perda do respeito público e até familiar.

O importante, contudo, é que a delação têm permitido desvendar estruturas manipuladoras da política e da economia, com parcerias até no estrangeiro. São conjunções de interesses escusos que, ao longo da história, minaram a justiça social no Brasil e emperraram a porta de saída da pobreza. O reconhecimento do erro, intuído pela boa fé, poderia representara busca pela reconciliação com a verdade. Confessa-se o pecado, e dispõem-se a cumprir a penitência judicial: pagar por erros com o quais não se consegue conviver socialmente.

Corresponderia quase a uma autocrítica: “tarefa inadiável de reconhecer os próprios erros, analisar suas causas e discutir os meios pelos quais possam ser corrigidos “ (Dix Silva, 2006). Caberia ao indivíduo ou ao grupo analisar os caminhos seguidos, atos e formas, atitudes e interpretações, os desvios, com o fim de promover uma correção de rumos. De uma perspectiva revolucionária aplicar-se-ia a uma doutrina, a um comportamento social, ou a um partido. A Ala Vermelha do Partido Comunista do Brasil deixou uma bela experiência sobre o tema.

É um método recomendado aos socialistas, como forma de manterem-se alinhados à realidade e de corrigir desvios no curso de revoluções e governos. A direita chama isso de avaliação, reavaliação ou balanço. Nada contra. O filósofo marxista húngaro István Mészáros (2006) observa que “...o pensamento marxiano – estudiosos da obra de Marx - não é um sistema fechado, sagrado, que não possa ser modificado, retrabalhado, inclusive, a partir de categorias externas que se mostrem razoáveis”. Para ele, a autocrítica é propulsora de novas visões e táticas. “Mas, adverte, não necessariamente de avanços teóricos”. O problema estaria, de fato, nas categorias que a praticam.

Por aí, parece que somente a esquerda disporia da prerrogativa da autocrítica. A direita não. A delação da direita seria “deduragem” mesmo, e assim é aceito o comportamento de Emílio e de Marcelo Odebrechet que, diante de Sérgio Moro, acharam graça da situação que patrocinavam . Aquele riso dava a impressão mais de aflição, e não um deboche, com o cenário fantasioso que, surpreendentemente, eles ajudaram a criar e a manter. Provavelmente, reconheceram a prática de ações grosseiras, com proporções tão imensas, que riram para não chorar de efeitos que nunca imaginaram. Remete à complexidade das análises de Hanna Arendt.

Inspiradora também é a advertência de György Lukács trinta anos atrás: “Na raiz dos problemas nacionais está uma modalidade de oportunismo que é, talvez, a mais grave das deformações legadas por Stálin: ao invés de utilizar os princípios teóricos gerais do marxismo para corrigir a ação prática, os revolucionários subordinaram-se mecanicamente às necessidades imediatas, às exigências momentâneas da atividade política”. Com isso, teriam renunciado à perspectiva marxista da unidade da teoria e prática, perdendo a sua profundidade revolucionária. Os efeitos seriam catastróficos, advertiu.

No Brasil, o momento requer uma profunda autocrítica, prática que parece ter sido abandonada. Foi substituída por táticas de lutas, num estilo paranoicamente stalinista, condenado também por Lukács ( 1968), como “oportunismo” . Na expectativa de transformar os trabalhadores em agentes do partido da vanguarda revolucionária, ingênua para a pós-modernidade, a “nova esquerda” mistura-se convenientemente ao sindicalismo neoliberal .

É preciso tirar vantagens de tudo isso. Ao assumir publicamente os erros cometidos em nome da fé, a Igreja curvou-se antes os fiéis, antecipando o pedido de perdão, e adotando medidas saneadoras. Por isso, acredita-se que, a autocrítica, mesmo no espaço da Lava Jato, ajudaria muito a desanuviar o cenário que aí está. As delações são uma oportunidade rara para o desmonte da máquina de dominação que as elites construíram ao longo da história neste País. A sociedade deveria temer, de fato, aqueles que se recusam a fazê-la.

*Jornalista e professor
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Aylê-Salassié F. Quintão*

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