Segunda-feira, 29 de maio de 2017.
Notícias ››   Imprensa on-line ››  

Lacerda, a conspiração fatal

publicada em 18 de abril de 2017
Lacerda, a conspiração fatal

Político arguto e inteligentíssimo, tinha temperamento irrequieto, poucos amigos


POR LUIZ ALBERTO DE QUEIROZ



Por mais que se queira, o Brasil não esquece a passagem do golpe de 31 de março, que deu um tiro certeiro na democracia.
O movimento militar teve o apoio de vários segmentos da sociedade brasileira. “A Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, liderada por Leonor de Barros, esposa do governador de São Paulo, Adhemar de Barros, foi o exemplo mais notável. Aflitas, terço nas mãos, mulheres pediam o fim do governo de João Goulart.

Uma das figuras marcantes desse movimento de 1964 foi o jornalista Carlos Lacerda. Na época, governador da Guanabara, apoiado por outros opositores, articulou o golpe que apearia João Goulart do poder.
Proprietário do jornal Tribuna da Imprensa, editado no Rio de Janeiro, Lacerda conquistou notoriedade na cena política nacional.
Político arguto e inteligentíssimo, tinha temperamento irrequieto, poucos amigos, dificilmente conservava amizades.
Em Goiás, tinha a amizade de Carlos Lacerda, o ex-deputado estadual Olímpio Jayme, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, morto em 30 de junho de 2015.
Para Jayme, “um ano antes (1963), já havia uma movimentação conspiratória para a Revolução de 64. Principalmente entre os governadores de São Paulo (Adhemar de Barros), Guanabara (Carlos Lacerda) e Minas Gerais (Magalhães Pinto). Eu já conhecia a personalidade de Lacerda, filiado a UDN. Entrei em contato com ele e passei a integrar a Conspiração Revolucionária. Atendendo orientação sua, formei em Goiás, com apoio de companheiro, entre eles Camargo Júnior, Manoel dos Reis, Antônio Alves de Carvalho, Bebé Borges e outros, a Frente de Mobilização Democrática (FDM). Aparentemente, o objetivo seria o patrocínio da defesa da propriedade rural, seriamente ameaçada pelo governo João Goulart, que estava sob o comando e a orientação do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola”.
Na realidade, destacava Olímpio Jayme, o objetivo da conspiração era o preparo da zona rural para a revolução. As armas seriam fornecidas por Adhemar de Barros. “Participando da conspiração, permaneci no Rio de Janeiro, onde eram constantes os contatos com Carlos Lacerda. Na conspiração do Rio de Janeiro e Goiás, houve a colaboração decisiva do deputado estadual Olinto Meirelles (da UDN de Goiás), que gozava de absoluta confiança de Lacerda. Olinto é um homem combativo, organizado e conspirador nato. Foi vítima da revolução, dizia Olímpio Jayme”.
Olímpio Jayme dizia que, mesmo antes de romper com o movimento de 64, Lacerda já discordava dos rumos da revolução. O coronel Boaventura, amigo incondicional de Lacerda, pregava nos quartéis a derrubada do governo e a entrega dos destinos do País a um triunvirato civil, presidido por Lacerda. “Descoberta a trama, o coronel foi para a reserva. Várias portas se fecharam também para Lacerda. Seu inimigo principal era o ministro Costa e Silva, o presidente que destruiu o movimento de 64. A revolução teve por certo tempo o comando de Costa e Silva, eliminando da vida pública as grandes e mais sérias lideranças da época”.
Assim, Carlos Lacerda se tornou vítima da revolução da qual foi a grande inteligência, pagando um preço muito alto, inclusive sacrificando a possibilidade de sua candidatura à Presidência da República nas eleições diretas previstas para 1965 (que acabara não acontecendo). Como João Batista, teve a cabeça a prêmio oferecida em bandeja de prata pela linha dura do Exército.
Lacerda, que se definia democrata, sentiu o peso do chicote. Ele não gozava da confiança dos generais golpistas. Não nasceu para receber ordens dos quartéis, tinha uma liderança imensa. Gostava de eleições, e isso os revolucionários não toleravam.
Em 28 de outubro de 1966, Lacerda publicaria um manifesto ao povo brasileiro onde cobrava a redemocratização do País com eleições livres, reforma partidária, entre outros itens. Houve grande repercussão.
Logo após, ele encontra-se com Juscelino Kubitschek em Portugal, e, em 19 de novembro de 1966, publicam a “Declaração de Lisboa”, expressando o desejo de atuarem juntos em frente ampla de oposição ao governo dominante no Brasil.
O passo seguinte seria o encontro de Lacerda, no Uruguai, com João Goulart, que promete apoio à frente de resistência ao governo militar.
Ao provocar a fúria dos militares, Lacerda acenderia o estopim de uma bomba, balançando a estrutura do “governo revolucionário”, levando os donos do poder a endurecer mais o regime. Ainda assim, a Frente Ampla realizaria dois grandes comícios em pleno regime militar. Um em Santo André, no ABC Paulista, e o outro em Maringá, no Paraná.
Apesar dos erros e acertos, Lacerda foi maior que seu tempo, como Juscelino e João Goulart, que se tornaram vítimas de um período obscuro da história brasileira.
Versão para impressão Envie para um amigo Deixe seu comentário
DM

Envie esta notícia para seus amigos

Seu nome:
Seu e-mail:
Enviar para:
envie para vários e-mails separando-os com vírgula

Deixe seu comentário sobre esta notícia

Seu nome:
Seu e-mail:
Escreva seu comentário:
0 caracteres utilizados. Máximo 100 caracteres.

Digite o código contido na imagem ao lado:
Caso não consiga ler o texto da imagem, clique aqui.

Comentários

Nenhum comentário ainda foi registrado.
Seja o primeiro a comentar! Clique aqui ››

Contato

Telefone
(61) 35418388
(61) 93094422