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Pandemia, desabastecimento e fome.

publicada em 25 de março de 2020
Pandemia, desabastecimento e fome.

por Fábio de Oliveira Ribeiro


A pandemia, o desabastecimento e fome são três cavaleiros sangrentos que trarão na garupa o desalento e a morte. Portanto, é melhor tomar cuidado e lembrar o que ocorreu em São Paulo em 1924.




São Paulo, 1924

Hoje aproveitei a manhã para lembrar as conversas que tinha com meu avô João Ribeiro de Freitas. Ele nasceu em Apiaí no final do século XIX e viveu quase toda a longa vida dele em Eldorado SP. O velho Jango, como era chamado pelos amigos, pertence a geração que sobreviveu à Gripe Espanhola e à Guerra de 1932, conflito em que ele atuou como soldado paulista.

Jango também sobreviveu ao conflito em que São Paulo submergiu em 1924. Durante a revolta militar comandada pelo general Isidoro Dias Lopes, ele estava em São Paulo.

Transcrevo abaixo alguns fragmentos da cronologia da Revolta de 1924 elaborada por Moacir Assunção:

14 de julho (segunda-feira): Forças legalistas ocupam, de surpresa, o 5º Batalhão da Força Pública, na Rua Vergueiro, Vila Mariana, e os largos do Paraíso e Guanabara. Os canhões legalistas agora atiram contra a Liberdade, Aclimação e Vila Mariana.

15 de julho (terça-feira): Os rebeldes conseguem conter a ofensiva legalista, mas perdem o capitão Joaquim Távora, mortalmente atingido na esquina da rua Paraíso com a Maestro Cardim. O Estado-Maior de Isidoro instala linhas de defesa no bairro do Belenzinho, Mooca, Cambuci e Vila Mariana para conter as investidas legalistas.” (São Paulo deve ser destruída, Moacir Assunção, Editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, 2015, p. 30)

24 de julho (quinta-feira): Forças legalistas, inclusive da polícia de estados vizinhos, retomam a Igreja do Cambuci para a legalidade. O templo estava ocupado por soldados estrangeiros a serviço da sedição. Rebeldes mandam um trem carregado de dinamite para explodir na região da Penha, mas os legalistas conseguem, graças a Aquilino Vidal, mestre de linha, conter o ataque.” (São Paulo deve ser destruída, Moacir Assunção, Editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, 2015, p. 32)

Pouco tempo antes do início da rebelião de 1924 meu avô havia se mudado de Xiririca [nome da cidade de Eldorado naquela época] para a capital paulista. Isso havia se tornado uma necessidade, pois ele fora admitido como estudante do Liceu de Artes e Ofícios. Quando o conflito começou a estropiar a cidade de São Paulo, o então pacífico João Ribeiro de Freitas morava numa pensão no Bairro do Cambuci. Portanto, durante o início dos combates ele ficou preso entre as duas principais linhas de fogo de artilharia.

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Quando eu era criança e adolescente, meu avô gostava de me contar a experiência que teve naquela época.

“Quando os canhões começavam a ribombar a gente se enfiava embaixo da cama e rezava. Na verdade isso não adiantava muito, pois quando uma granada caia numa casa geralmente todo mundo nela era despedaçado e morria. Por sorte nenhum tiro de canhão acertou a pensão em que eu morava. Mas depois nós também começamos a sofrer por causa de outro problema. Com a cidade estropiada pelos combates, cercada e bombardeada por Arthur Bernardes, os gêneros alimentícios começaram a desaparecer.”

Moacir Assunção narra esse aspecto do conflito da seguinte maneira:

“As consequências da guerra travada dentro da cidade logo se fizeram sentir. Eram a fome, quando começava a faltar comida, já que não era mais possível abastecer as prateleiras; o desemprego, por causa da destruição das fábricas; e o medo constante de morrer, atingido pelas bombas e granadas. O saque às fábricas e aos moinhos ainda em atividade, além de aos mercados municipais, começou a seguir. O êxodo veio na sequência. Premidos e atemorizados pelos ataques, muitos moradores começaram, então, a fugir da cidade para não morrer.

Ainda na Mooca, uma manada inteira de bois foi atacada pela população faminta. Os animais foram descarnados ainda vivos, com todo tipo de faca, pelos espanhóis que viviam nas imediações da rua Ana Neri, para onde a boiada seguiu, ao fugir da rua da Mooca, por causa dos tiros.” (São Paulo deve ser destruída, Moacir Assunção, Editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, 2015, p. 55/56)

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Como vários outros países, o Brasil também foi colhido pela pandemia. Ao contrário de Alemanha, Rússia, Cuba, China, França, Inglaterra e EUA, nosso país reluta em tomar as medidas necessárias para combater o COVID-19 e para garantir que os desempregados, subempregados e trabalhadores tenham renda suficiente para se alimentar durante o período de quarentena.

O desabastecimento das grandes cidades e os surtos de fome podem ocorrer em apenas alguns dias. A violência dos desesperados não poderá ser contida sem uma violência ainda maior que causará estragos econômicos maiores e mais duradouros do que a própria pandemia. Todos os dias o jornalista Luis Nassif tem alertado que nós estamos correndo contra o tempo.

O editor do GGN tem toda razão. É preciso garantir a liquidez dos pequenos empresários que produzem, transportam e comerciam alimentos. Caso contrário as prateleiras dos mercados e supermercados ficarão vazias em alguns dias. O poder de consumo da população também deve ser objeto de preocupação. Afinal, se garantir o abastecimento das cidades sem que os consumidores tenham condição de comprar alimentos o Estado fomentará indiretamente a realização de saques.

Meu avô nunca me contou os detalhes do que fez (ou foi obrigado a fazer) para sobreviver à fome causada pelo desabastecimento de São Paulo durante a Revolta Militar de 1924. Ele sobreviveu para exercer sua profissão, participar da Guerra de 1932, criar os filhos, ajudar a educar os netos, realizar suas caçadas nas matas próximas do Rio Taquari e para escrever seus poemas. Transcrevo abaixo um deles.

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As três fases da vida

São três corcéis na estrada a golapar a vida.
O primeiro passou, levou-me a mocidade
Que era uma imagem tão risonha e colorida,
Feita de amor; de luz e sonhos e vaidade.

O segundo inda passa, em trôpega corrida,
No trecho pedregoso, em plena realidade,
Sob o peso crucial da luta pela vida
Em que me falta luz, conforto e alacridade

E lá vem o terceiro em galope incessante!
É o cavaleiro audaz, implacável, sangrento,
Sem nada a lhe impedir a fúria triunfante

Que entre nuvens de pó estala um relho e apupa
Trazendo-me afinal o frio do desalento,
As névoas da velhice e a morte na garupa!
(Poemas do Vale, Giselda de Freitas Ribeiro e João Ribeiro de Freitas, Câmara Brasileira de Jovens Escritores, Rio de Janeiro, 2007, p. 227)

A pandemia, o desabastecimento e fome são três cavaleiros sangrentos que trarão na garupa o desalento e a morte para idosos, jovens e crianças, ricos e pobres, brancos e negros, crentes e ateus, sem qualquer distinção. Portanto, é melhor tomar cuidado e lembrar o que ocorreu em São Paulo em 1924.
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