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Legalidade em Bacurau

publicada em 07 de outubro de 2019
Legalidade em Bacurau

Selvino Heck

Legalidade retrata o Brasil acontecido. Bacurau, o Brasil de hoje, vivido e acontecido em 2019, em forma de alegoria e ficção / Foto: Divulgação Bacurau


Os dois filmes são o Brasil e sua História

Dois filmes estão agitando 2019. Um, Legalidade, retrata o Brasil acontecido, com imagens da época, História vivida há meio século, 1961, em Porto Alegre e Rio Grande do Sul, com reflexos e repercussão em todo país. Outro, Bacurau, retrata o Brasil de hoje, vivido e acontecido em 2019, em forma de alegoria e ficção.

Legalidade conta a Campanha acontecida nos anos 1960. O vice-presidente, João Goulart, conhecido como Jango, foi eleito em 1960 com mais votos que o presidente eleito, Jânio Quadros, segundo as regras eleitorais da época. Jânio renunciou ao mandato. Jango, de acordo com a lei e a Constituição, deveria, naturalmente, tomar posse como presidente da República. As forças conservadoras e as forças militares não queriam permitir a posse do vice-presidente. Jango é trabalhista, propõe as Reformas de Base, é tido e acusado como ‘comunista’. Estava, inclusive, na China quando Jânio renunciou.

O governador Leonel Brizola, do Rio Grande do Sul, mobiliza o povo gaúcho e brasileiro no episódio conhecido como Campanha da Legalidade, verdadeiro levante popular, exigindo a posse de João Goulart. Brizola convoca as massas populares para irem à rua. Coloca e mobiliza a Brigada Militar, a Polícia Militar gaúcha, para ir à rua também e apoiar o cumprimento da lei. E consegue o apoio do III Exército na defesa da Legalidade. Une o Poder Executivo, as forças militares e o povo na rua: defesa da lei e da Constituição, com posse de Jango como Presidente da República.

Bacurau é um pequeno povoado no sertão pernambucano, que some do mapa de repente, não tem mais sinal de internet, um disco voador começa a voar sobre o povoado. Pessoas estranhas começam a aparecer não se sabe de onde, e começam a matar habitantes de Bacurau e arredores. É o retrato do Brasil invadido hoje e desde sempre a partir de uma pequena comunidade do sertão pernambucano, seu povo e habitantes ameaçados em sua liberdade e sobrevivência. Bacurau e seus moradores reagem, organizam-se, chamam de volta para casa quem está longe, distante, defendem-se. Acabam vencendo a opressão estrangeira e o isolamento.

Os dois filmes são o Brasil e sua História. As elites, rasgando a Constituição, rompem com a Legalidade, em 1961, como fizeram recentemente, mais uma vez, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o golpe de 2016. As elites, através do prefeito de Bacurau, aliam-se aos poderes estrangeiros para amedrontar e até eliminar os habitantes. As forças invasoras e dominadoras primeiro retiram o povoado de qualquer registro no mapa e na internet – isto é, Bacurau não existe mais, é seu fim -, e depois o fazem fisicamente, matando habitantes sem dó nem piedade.

O Hino da Legalidade de 1961 - de alguma forma gravei a letra na memória, mesmo com apenas dez anos de idade, e morando no interior do interior do Rio Grande do Sul, Linha Santa Emília, Venâncio Aires; ainda o sei cantar de cor, de tanto ouvi-lo nas ondas poderosas da Rádio Guaíba, cujos transmissores, em ideia genial e de coragem, foram requisitados pelo governador Brizola, e instalados nos porões do Palácio Piratini - é altamente significativo. Sua letra é a síntese da Campanha da Legalidade, e permanece altamente sugestivo nos tempos atuais, 2019.

Diz o Hino da Legalidade, de cinquenta anos atrás: “Avante brasileiros de pé,/ unidos pela liberdade,/ marchemos todos juntos com a bandeira/ que prega a lealdade./ Protesta contra o tirano,/ recusa a traição,/ que um povo só é bem grande,/ se for livre sua nação.”

Jango, como tantas outras vezes aconteceu na história brasileira, fez um acordo com as elites de então, para não derramar sangue, segundo ele. O acordo, a conciliação permitiu a implantação do parlamentarismo. Jango não tomou posse como presidente legítimo e presidente de fato, segundo aquele ditado popular ‘reina, mas não governa’. Num plebiscito realizado em 1963, o parlamentarismo foi amplamente derrotado. Jango torna-se presidente de fato, e defende as Reformas de Base, entre as quais a agrária. O que se torna senha e mote para o golpe militar de primeiro abril de 1964, derrubando Jango, e mergulhando o país numa ditadura militar de 21 anos de duração: fim da liberdade de expressão e organização, perseguição, prisões, mortes, assassinatos, tortura, exílio, inclusive de Jango e de Brizola.

Imperativo registrar que o ‘costurador’ do acordo de conciliação em 1961 foi o mineiro Tancredo Neves, nomeado primeiro ministro. Depois, no fim da ditadura, em novo acordo e conciliação, e derrotadas as Diretas-Já em 1985, Tancredo torna-se presidente eleito pelo Congresso. Mas adoece e morre, assumindo a presidência o vice-presidente José Sarney, apoiador da ditadura. Importante não esquecer que Tancredo Neves é avô de Aécio Neves, principal patrocinador do impeachment e do golpe de 2016.

Em Bacurau, o povo resiste. A ferro e fogo, armas na mão, os filhos que tinham fugido ou se exilado voltam à terra para defendê-la. A população de Bacurau não deixa o repressor, o opressor e forças estrangeiras dominarem o pequeno povoado e seus habitantes.

Lições da História, segundo Legalidade e Bacurau:

1. Defender a Legalidade nada resolve, quando e se for rompida por acordos por cima, à revelia do povo e da comunidade. Mas em determinados momentos históricos, defender a lei e a Constituição é, ou pode ser, subversivo, revolucionário.

2. O povo, quando organizado e determinado, é mais forte, e vence, como em Bacurau. A unidade popular é fundamental em qualquer quadra da história, quando se trata de defender a lei, a Constituição, os direitos, a democracia, a liberdade. Um povo unido, consciente e organizado tem força política real. Sem unidade popular, não há vitória.

3. Nem sempre a Legalidade sozinha resolve os problemas e os conflitos. A desobediência civil e a revolução fazem parte da história de muitos povos, assim é em Bacurau.

4. Líderes são fundamentais em todos os momentos históricos decisivos. Na Campanha da Legalidade, foi Leonel de Moura Brizola. Em Bacurau, os líderes são vários, mas o principal ator é o povo unido.

5. Brizola requisitou os transmissores da Rádio Guaíba, não permitindo que as fake news de então e seus porta-vozes – a grande imprensa – propagassem a verdade e as mentiras das elites conservadoras e dos EUA, bem retratadas no filme através de uma espiã infiltrada pelo império americano, e inundassem a consciência popular. Em Bacurau, os invasores cortam o sinal da internet, tentando isolar o povo do mundo. Comunicação e informação são sempre fundamentais.

6. A conciliação por cima, sem povo, ou à revelia do povo, só interessa às elites e ao poder dominante.

Muitos espectadores choraram ao assistirem Legalidade. Seja por poderem rever a história da qual participaram, seja por poderem conhecê-la, e saber que um dia o povo gaúcho resistiu. Muitos o aplaudiram no final, e gritaram Lula Livre!

Muitos espectadores sentiram como que um soco no estômago em Bacurau. E o, aplaudiram no final, e gritando Lula Livre!

Bacurau é retrato do Brasil de hoje, e do que se pode e precisa fazer. Legalidade é alento de uma história que fato aconteceu e precisa ser conhecida, em especial pela juventude, e revivida. Legalidade e Bacurau são exemplo de futuro e de esperança na força do povo.

Edição: Marcelo Ferreira
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